writing1Querido diário,

É curioso como falar de algo pode fazer esse algo acontecer. Como imaginar uma desgraça pode a fazer tornar-se real. Eu fazia algo errado: enquanto namorava uma, pensava em outra, na garota que havia me feito sofrer. E foi em decorrência disso que terminei meu segundo namoro semana passada.

Vou contar como tudo aconteceu.

No bendito dia em que Milene voltaria para a universidade, naquela droga de cidade do meião do Brasil, ela resolveu ter uma crise de ciúmes porque eu parecia mais distraído do que o normal. Ela inventou que eu estava pensando em “eu sabia quem”. Ora, sei lá se estava, mas realmente não estava com a cabeça na Terra. Depois de duas horas discutindo, coisa que ninguém aguenta, decidi dar um basta nessa história. E não considerei exagero, pois não era a primeira vez que Milene passava dos limites por coisas bobas e sem sentido. Falei o que precisava e me despedi friamente dela, desejando uma boa viagem de volta. Não sei se ela sabe, mas deve imaginar que aquela festa que ela foi ajudou-me a tomar essa decisão. Como um casal sério e devoto um ao outro, prometemos não nos envolver com atividades “mundanas”, que pudesse nos equiparar a outro casal qualquer. Pois um belo dia, há três semanas, vejo uma foto dela na internet com um veterano, em um lugar em que claramente acontecia uma festa. Sou um cara ciumento. Algumas coisas no decorrer da vida marcam a gente de uma forma, ciúmes e desconfiança marcam a minha vida agora. A discussão foi ardente, durou dias. Quando parecia que tudo ficaria bem, ela resolveu começar com suas crises. Acontece que eu tinha motivo pra ficar bravo. Ela não tem. E a injustiça disso tudo gritava em minha cabeça, me mostrando que eu já tinha aguentado tudo que precisava.

Ah, não foi fácil não. Ela me ligou por madrugadas, implorando por uma volta que não ia acontecer. Minha mãe me ouvia brigando com ela pelo telefone, e no fundo sei que sorria. Ela me dizia, menino, um dia Deus vai te mostrar que essa garota não é procê.

Bom, não sei se foi Deus, mas alguém me mostrou mesmo. E hoje meus sonos são pesados e meus sonhos são leves e eu pareço flutuar. É bom finalmente poder fazer o que bem entender, sem satisfações ou cobranças. Confesso que nunca me senti assim antes, preso. E agora que senti, estou feliz por ter me livrado.

Alguns dias depois de termos terminado, fui passar o fim de semana na casa de um casal de amigos meus de faculdade. Eu acompanhei o relacionamento dos dois desde o seu tenro começo e agora eles estão morando juntos. Eu acho perdi a fé em amor e essas coisas, mas casos como esse me fazem repensar meu ceticismo. Eu me surpreendi comigo mesmo lá. Demos festas, bebi, ri alto, conversei muito. Quando estou nervoso, ansioso ou meio fora do controle, tendo a temperar minhas ações com mais emoção. Pelo menos, minha ex-namorada sempre me disse isso. Minha primeira ex. Não a segunda. Rebeca sempre teve o dom de me conhecer bem. Sempre que brigávamos, ela me dizia coisas sobre o meu jeito que eu não queria ouvir, mas sabia que era verdade. Quando alguém te conhece tanto, pode ser constrangedor, porque às vezes você mesmo quer esquecer que é assim. Eu me surpreendi e me arrependi pelo meu comportamento naquele fim de semana. Nunca fui de beber, nunca fui de paquerar moças em lugar algum, mas certos acontecimentos evocam meu pior lado. Ver mais um relacionamento meu afundar, me faz querer desapegar de pessoas e me apegar mais ao meu instinto, meu lado animal. Aquele que não se importa com mais ninguém além de si e não liga de fazer coisas vergonhosas aos olhos alheios. Quando olho as fotos daqueles dias, vejo um sorriso tão grande que parece quase indecente, um olhar que não é mais meu e uma alegria que só pode ser devido à presença de amigos. Mas quando volto para casa e ando sozinho pelos corredores e entro no banheiro e olho para meu reflexo naquele espelho manchado, vejo um Alan que é quase difícil de reconhecer. Parece ter um rosto tão pesado, uma boca que não sabe mais mostrar os dentes e um olhar caído como de quem vive com sono. Um rosto de velho, que dá vontade de suspirar. Eu geralmente o faço, enquanto viro as costas e me afasto dali com meu costumeiro orgulho, que é forte demais para admitir que ali por dentro tem algo doendo.

Talvez se eu fosse mais sincero comigo mesmo, percebesse que sinto falta da Rebeca. Que talvez não tenha dado certo com a Milene não por ela ser muito controladora ou ciumenta, mas talvez porque simplesmente não fosse ela. Entende?

É claro que não entende, nem eu entendo. Não dá pra entender depois de tudo que aconteceu. E é por isso que eu fico puto. Por isso que meu orgulho me faz pressionar os lábios e franzir a testa, pois não quero admitir que existe uma parte minha que a quer de volta. E eu odeio essa parte. Odeio essa fraqueza que toma conta dos meus pensamentos, enquanto eu devia apenas estar curtindo meus vinte e poucos anos, minha liberdade, meu fim de faculdade… mas de alguma forma, ainda estou preso ao passado.

Mas pelo menos, a escolha de tomar uma iniciativa é minha. E mesmo que meu corpo e alma clamem por uma reaproximação de Rebeca, não cederei à minha cabeça nostálgica para voltar atrás.

Se ela faz parte apenas do meu passado agora, é porque não foi boa o bastante para o meu presente. E eu mereço uma pessoa ótima, uma boa namorada. Como ela foi. Mas sem os erros finais. Sei que erros são inerentes a qualquer ser, mas alguns seres são mais nobres que outros em perdoar, assim como alguns erros são intransponíveis.

Por isso humildemente aceito minha condição de ser inferior, que não é capaz de transpor suas próprias barreiras para perdoar. Confesso que sou duro, teimoso, que não sinto no íntimo o desejo de deixar as mágoas para trás. Mesmo que seja para minha própria felicidade, mesmo que ela seja a única com quem consigo visualizar meu grande sorriso de novo, olhos grandes brilhando duma alegria há muito esquecida.

Mas chega de falar besteira. Tem a festa de calouros agora e eu tenho muitas risadas altas para dar, muitos copos para entornar e muita gente pra conhecer.

Porque é isso que pessoas felizes fazem.

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