fumo

Começara a fumar aos 12 anos. Cedo demais, diriam alguns, mas para ele isso nunca tivera importância. Experimentara o primeiro cigarro quando alguns amigos mais velhos tinham oferecido. E desde então fumava. 1, 2, 3 maços por dia agora. E mesmo assim tinha saúde de ferro.

Gabava-se disso para a mocinha do R.H., uma morena mignon com saia lápis e salto alto. Os dois estavam no parque próximo da área de entrada do prédio, ele fumando, ela teclando no celular como se não houvesse amanhã. Via a moça dar franzidinhas no nariz, mas ignorou.

Se ela fumasse apenas uma vez, entenderia o quanto era bom. E todas aquelas coisas sobre estragar a saúde eram pura balela, porque ele nunca tivera doença nenhuma.

A moça tossiu, olhou feio para ele. Deu alguns passos na direção de uma moita, parecendo tentada a se esconder no meio da planta.

Ele ficou quieto, colocou uma mão no bolso e manteve a outra no cigarro. Não teve mais ânimo de falar nada.

Por um tempo, pareceu que tudo se perdeu nos sons distantes do trânsito e dos passantes. Soltou um pouco de fumaça, vendo o mundo num véu cinzento.

De repente, saiu do seu transe, quando um barulho estranho, algo como um zumbido intermitente, começou a tomar conta da rua. Sacudiu a cabeça, jogou a bituca do cigarro no chão e amassou com o sapato.

Olhou para a morena do R.H. Ela também levantara os olhos do celular para olhar para o final da rua. Seus olhos de azeitona se arregalaram e depois de um instante, ela saiu correndo, estalando os saltos no calçamento.

O homem analisou a fonte do ruído que ouvira. Era um grupo estranho, umas dezenas de pessoas com pele muito branca e umas manchas de sujeira. Seria algum tipo de manifestação de mendigos? Estavam mais perto e pareciam desvairados. Os olhos eram vazios, como se estivessem mortos.

Com uma expressão de susto, compreendeu a situação improvável e virou-se para correr. Foram alguns metros, apenas, antes que o fôlego faltasse. Abaixou-se e colocou as mãos nos joelhos. Percebeu-se cercado. Mal conseguia dar mais um passo.

Gritou quando a horda se aproximou. As mãos de unhas pretas rasgaram os bolsos do paletó rasgaram os maços, espalhando os cigarros no chão. Empurrado pelas dezenas de mãos, caiu no chão.

Nenhuma das criaturas abaixou-se para segurá-lo, elas apenas continuaram andando, pisando-o, pisando os cigarros. E quantos todos passaram por ali em sua marcha, já não havia nada.

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