PIRANHA-PART-TWo-THE-SPAWNING

 

— Eu tinha catorze anos — respondeu ele, com um sorriso no rosto. — A idade ideal para se ter naquela época, em minha singela opinião.  Velho o bastante para entender o que estava acontecendo, jovem o suficiente para o mundo ruindo aos meus pés.

Eu respondo que não me senti lá muito calmo quando ouvi as notícias.

— Ah, Chico, você não conta — responde ele. — Aposto que você só soube o que estava acontecendo quando o plantão interrompeu sua novela. Eu estava acompanhando tudo desde os primeiros boatos. E fiquei que nem um verme na cova quando confirmaram as notícias — riu ele.

Eu abaixo o rosto e me concentro em escolher algo do cardápio.

— Não me olhe assim — disse ele — Eu também perdi pessoas que ama… Eh, meio que amava durante a epidemia. Meu tio morreu logo na primeira onda — uma horda o atacou quando ele estava fumando. Eu também fiquei me cagando de medo naquelas primeiras semanas, quando os jornais ganharam fortunas prevendo o fim do mundo e todo mundo decidiu que aquela era a hora de acertar as contas com aquele espertalhão que ficava buzinando no engarrafamento.  E até parece que você não se adaptou bem a isso.

Eu continuo mantendo uma expressão de poucos amigos. Eu começo a me perguntar porque chamei ele para esse restaurante, e respondo que não houve muito ao que se adaptar.

— É. Acho que essa é a pior parte. Tirando os carinhas que morreram de susto coletivo no começo, esse negócio de ter que andar com um pé de cabra à noite e o aumento dos custos nos ritos funerários — responde ele, nodando o clima pesado — a coisa toda foi meio anticlimática, não foi?

Eu faço a escolha por nós dois, já que ele está suando frio toda vez que olha o cardápio.

— Mas então… Como é esse prato que você pediu?

Eu sorrio e peço para ele me falar mais sobre as terríveis perdas dele.

— Eh… Sabe uma coisa que me deixa triste? Todos os filmes que eu amo perderam a graça — disse ele, olhando para baixo — Não dá mais para ver a noite dos mortos vivos ou The Walking Dead a sério. Imagina só, a humanidade derrotada por um bando de bêbados podres! Eu não sei o que aquele pessoal tinha na cabeça. — Quer dizer, eu sei exatamente o que eles tinham na cabeça — Pessimismo e donzelice. Mas sei lá, ainda parece uma…

Eu sorrio. A mera visão prato foi o bastante para fazer ele calar a boca.

Os chefs do mundo notaram uma coisa importante: a infecção confere um sabor muito especial à carne dos seus hospedeiros, especialmente aos tecidos neurais.

Eu pego minha faca, enquanto ele olha paralisado.

As propriedades conservadoras do Vírus Romero ofereceram uma oportunidade única de rever o antigo… “contrato” entre homens e animais de abate: Eu vou te proteger de predadores, te dar abrigo e te alimentar até a hora que eu precisar da sua carne virou Eu vou te proteger de predadores, te dar abrigo e te alimentar até a sua hora. Depois eu pego sua carne. Alguns ativistas adotaram uma dieta negrofaga como forma de choque, de lembrar à população sobre o horror que não chegava às suas mesas. Mas para o choque deles algumas pessoas – inclusive eu – levaram a proposta a sério. Nascia a dieta necrofaga, baseada em se alimentar apenas de seres que já chegaram naturalmente ao fim da sua vida.

Entre nós dois está um tábua com três piranhas zumbis pescadas naquela manhã, todas elas já em um estado de desvida. Os peixes mortos-vivos tentam se debater a esmo no prato, apesar de seu estado semi-fatiado, não pelo puro impeto zumbi de ir atrás de carne fresca. Ele estende  estendo a mão, mas uma delas consegue morder de leve. Tudo bem. Um pequeno preço para se ter piranhas zumbis para o jantar.

Anúncios