“O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante.”

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Já estava ha horas andando a procura de água. O sol nem incomodava mais. Tentava ver entre os destroços e ruínas algo de humano. Era o único passatempo. Ontem havia encontrado um chinelo colorido. Parecia de mulher. Imaginou como seria uma mulher antes de tudo… como seria aquele chinelo colorido num pé limpo caminhando feliz por uma rua limpa.

Sua imaginação foi interrompida por uma visão nada comum na paisagem árida e silenciosa. Ao longe uma movimentação levantava poeira na estrada escaldante. Devia ser gente. Era incomum encontrar muitas pessoas juntas. Só um e outro escondido como rato entre escombros e cabanas feitas de restos de construção. O sol fazia a imagem ficar distorcida como se estivesse derretendo e ia se tornando clara ao passo que chegava mais perto.

Uma dezena de pessoas diante de um carro. Nunca tinha visto um em movimento, só carcaças amontoadas pelas ruas. Conversavam eufóricas com o motorista. Era um homem franzino com uma enorme cicatriz no queixo. Quando ria dava para ver que tinha poucos dentes na parte de tras da boca. Ele explicava às pessoas sobre algum lugar e algumas já estavam com um pé dentro do veículo como que para garantir sua vaga, sem se importar em terminar de ouvir.

Nada pode ser pior que aqui, disse um senhor com um braço só e feridas pelo outro. E foi empurrando a mulher à sua frente para que ela entrasse logo e o deixasse entrar. Depois de todos acomodados o motorista virou para tras e, com um sorriso que achava ser de um anjo salvador, jogou-lhes uma velha garrafa com água. Desesperados os passageiros a passaram de mão em mão controlando os goles de cada um para terem certeza que ninguém bebia nem uma gota a mais que o outro.

    • Como é teu nome?- perguntou o motorista ao observador.
    • Me chamo de Samuel.
    • Sobe aí, Samuel. Vou demorar pra voltar pra esses lados.

Subiu por curiosidade. Sentou entre uma senhora negra de bochechas manchadas e um moleque raquítico que não parava de sorrir e ofereceu o último gole de água. Fazia um dia inteiro que não bebia. Sentiu molhar cada centímetro por onde ela descia. O carro balançava muito e todos sacolejavam e se debatiam enquanto tentavam ouvir mais sobre o lugar para onde estavam indo. A voz do motorista era quase que totalmente abafada pelo som do motor velho. Só ouviam algumas palavras soltas que os faziam sorrir enquanto tentavam se segurar.

“Água”, “cama”, “comida”… Desceram todos quase que ao mesmo tempo ávidos por ver as promessas do condutor materializadas ali ao lado do carro, assim que a poeira baixasse. Viram um grande galpão e mais distante uns prédios parecendo novos. O condutor desceu do carro, ajeitou as calças e apertou a mão de um homem calvo que o recebeu com um sorriso, depois de olhar para a pequena multidão de passageiros maltrapilhos.

Foram todos conduzidos sem muitas palavras para o galpão. Samuel andava atras, como que querendo ser só coadjuvante. Mas estava ali e a pessoa o fazia perceber isso, empurrando delicamente suas costas. Lá dentro viu coisas inteiras que só conhecia aos pedaços. Ouvira falar que ainda existiam lugares assim mas não sabia se acreditava. O mundo havia acabado e deixado uns sobreviventes para morrer aos poucos. Só isso.

A sensação de um banho. Depois de beber um copo inteiro de água, senti-la escorrendo pelo corpo. A última vez que sentiu isso foi na última chuva. Não chovia muito então era muito raro poder tomar banho ou armazenar água para beber. Mas ali parecia não haver esse problema. Parecia não faltar água nem comida. Sentou em uma mesa comprida e limpa. Havia um prato e um copo para cada um. Todos comeram e beberam instantaneamente. Samuel olhou para o copo, cheirou mas não identificou do que se tratava. No prato havia algo parecido com uma sopa, meio avermelhada. Mastigou os pedaços tentando adivinhar do que se tratava, era macio e ao mesmo tempo fibroso. O importante é que saciava como nem sabia que era possível.

Deitou em sua cama onde havia um número. Em todas havia. Homens e mulheres foram colocados num mesmo pavilhão. Crianças foram levadas para outro. Ao lado de sua cama havia um mocinha dormindo. Tinha o rosto suave, a pele sem manchas de sol e parecia estar há tempos comendo e dormindo.

Raquel. Acordou assustado com a mocinha dizendo seu nome com o rosto bem colado ao seu nariz. Sem cerimônia ela sentou ao seu lado e pegou em sua mão. Ele sentou assustado e ela explicou que era assim que as coisas funcionavam. Se o colocoram ao lado dela era para que eles formassem um par. Olhou ao redor e viu seus companheiros de viagem conversando com outras moças e moços. Notou que as mulheres e os homens mais velhos não estavam no mesmo pavilhão. Lembrando bem, nem estavam na mesa de jantar.

Quando voltou-se para a menina ela já estava nua ao seu lado. E dizia “vem não temos tempo a perder”. Confuso e com a certeza de que era um sonho deitou ao lado dela e a deixou fazer tudo o que “era preciso”. E assim foi nas noites seguintes. Durante o dia ele e os outros homens trabalhavam incansavelmente numa terra seca que conseguia produzir pouco alimento. Dali vinham agora suas refeições. O que comera na primeira noite nunca mais viu.

Usava roupas com uma enorme letra Z nas costas. Todos os seus companheiros de trabalho e quarto também. Mas as pessoas que não trabalhavam na terra e nem dormiam juntas no enormes quartos não tinham a mesma identificação. Tentava entender quem era ali mas ninguém falava nada a não ser o que deveria fazer. Numa noite ouviu uma mulher chorando numa das camas. Imediatamente vieram duas pessoas ajudá-la. Traziam um carrinho com um tipo de máquina com uma redoma. Viu tirarem um bebê da barriga da mulher e colocá-lo na redoma. Saíram apressadas levando o bebê e deixando a mulher chorando. Percebeu naquele momento que nunca mais vira as crianças que viajaram com ele até ali.

Resolveu seguir as duas pessoas com o bebê. Entraram num carro, de uso permitido somente para quem não tinha o Z nas costas, que as levaram para um dos prédios em que nunca lhe foi permitido entrar. Por sorte, ou azar, naquele dia conseguiu sem que fosse visto. Entraram por uma porta onde se lia “bercário Z”. Tinha muitas crianças pequenas ali dentro. Todas dentro de redomas, com tubos por onde deveriam receber oxigênio e alimento. Assustou-se com uma voz atras de si:

    • “Vós sois os mortos”.
    • Como é?
    • Li isso uma vez num livro. O Z na tua vestimenta. Morto. zumbi…
    • Livro?
    • É, livro…- suspirou- já vivi muito. Sou do tempo em que os mortos não eram humanos…
    • Como assim mortos? Eu morri?
    • Morreu. Ou acha que isso é vida? Existir para fabricar carne? E depois ser a carne?…
    • Carne?
    • Nunca tinha comido, não é? O teu prato na primeira noite- apontou para uma criança- Brincadeira! -gargalhou.
    • Que susto…- tentou suspirar aliviado mas não teve tempo.
    • Essas são nobres. A que comeu era de alguma velha que não servia mais para nada. Apesar de a tecnologia ter diminuído a gestação para três meses ainda assim não é possível produzir em grande escala. Mas chegaremos lá…

Depois de vomitar por muitos minutos na terra seca ao lado do galpão, com a voz do homem com sorriso cínico ecoando em sua mente, sentiu a mão de Raquel em seu ombro. Olhou para ela, para sua barriga e voltou a vomitar. E quis correr, quis fugir, morrer…mas já estava morto. Sempre estivera.

Citação: George Orwel, em A Revolução dos bichos
Título:  George Orwel, em 1984

Imagem: Os Retirantes, de Cândido Portinari

 

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