-Não ia sobrar mais ninguém!

– E todo mundo virava zumbi!

– E iam comer uns aos outros até não sobrar mais ninguém!

– Dai eles iam começar a comer os cachorros e os porcos…

– E logo iam ficar sem comida… E iam morrer!

– E ai iam ter que comer as arvores até virarem outras coisas…

– Uma mutação genética! Dai não ia sobrar mais ninguém!!

Uuunheeeeeeeeeeeeeeeeee

Ao som do toque de recolher, os dois meninos subiram correndo pra sala de aula, como se escapassem das demais crianças que corriam sem leis, como num formigueiro recém pisado.

– Eles vão comer seu cérebro!!

– Não! Eu tenho a estaca de prata! – Erguendo o braço miúdo para o céu!

– Ahahahaha eles não morrem assim! Mas eu vou te salvar!

Então ele virou e fingiu atirar nos pequenos que não sabiam, mas eram zumbis terríveis e famintos! Entraram na sala e se esconderam atrás das carteiras, carregando suas armas imagináveis e conferindo se o corpo estava sem ferimentos.

– Você está bem?

– Sim, e vc?

– Ferido na perna, mas posso correr!

As demais crianças entravam na sala. As meninas conversavam como gente grande, os meninos as empurravam, destrambelhados, exibindo a falta de noção do espaço que o corpo ocupa. Enquanto se sentavam, os guerreiros contra os zumbis subiram na mesa e começaram a atirar.

– Morram!!! Tá tá tá tá

– Atrás de você!

Atrás dele estava Marina, a professora. Com os cabelos pretos e cortado em chanel, exibia uma franja que se apoiava nas sobrancelhas grossas. Como que em câmera lenta, ela sorriu um sorriso iluminado, largo o suficiente para exibir todos os alinhados dentes superiores e balançava a cabeça negativamente para os dois sobreviventes.

– Desçam daí… Chega de matar os coleguinhas!

Ambos desceram e se olharam, sentaram à mesa e aproveitando a distração da professora, combinaram:

– Ela não morre, certo?

– Nunca…!

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Guardaram as armas, curou-se a ferida e desapareceram com todos os zumbis. A sala clareou e o tempo era outro. Não havia mais pressa, nem risco de vida… As unhas amarelas da professora alinhavam o avental azul e pareciam dar movimento aos animais risonhos e floridos que moravam lá. Os corações acelerados já não eram de fuga, mas de entrega; as mãos suadas e tremulas já não eram de horror, mas da palavra impronunciável! A mira não era pra caça, era o único ponto reluzente naquele calabouço…

– E se ela quiser nosso cérebro?

– Ela quer!

– Os dois?

– Tomara que ela coma o meu antes…

– .. eu espero minha vez.

Apertaram as mãos como homens acertando o contrato social. Viraram pra frente e apoiaram a cabeça nas mãos e nos braços enquanto Marina explicava a atividade. Só pra eles… Os demais, jaziam mortos ao chão que começava a agramar de um verde dominador, que engoliria os corpos até que a professora chegassem perto deles… para devorá-los!

 

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