“Zumbi, zumbi!”, chamavam os meninos. “Ah, cuidado! Ele vai te pegar!” E fugiam do ser que avançava pelo corredor da escola.

Andressa, com nítidas olheiras, cabelo descuidado e meio despenteado, olhando meio para o nada e andando sem muita firmeza, até percebia a zoeira dos colegas, mas tentava ignorar. Precisava se concentrar no que realmente importava.

“Ai, que medo! Não deixa encostar em você, vai te infectar!”

Uma colega que estava encostada perto da porta se afastou da recém-chegada enquanto esta entrava, arremedando um medo de ser atacada.

“Aaah! Vai devorar meu cérebro!”

A menina avançava até o seu lugar, enquanto ouvia mais um menino zoando. Sentado em uma carteira próxima, ele levantava um caderno em defesa, como se estivesse protegendo a cabeça.

“Seu cérebro? Como se você tivesse alguma coisa aí dentro pra ser devorada, né?”

Outro colega, sentado próximo dela, acabou por zoar o zoeiro que se fazia de vítima.

“Olha só, parece que a menina-zumbi ganhou um namoradinho!”, respondeu o zoeiro-vítima.

“Que namorado o quê, seu besta!”, respondeu o defensor. “O que falei é público, cê não tem cabeça é pra nada.”

“Pô, tadinha, nem o namorado da zumbi quer assumir ela… Hihihi…” – Continuou o zoeiro.

“Vamos, fiquem quietos vocês”, bradou a professora, que tentava botar ordem na turma para começar a aula.

Menina dormindo

Depois de um tempo de aula, Andressa já estava praticamente dormindo na carteira. Mas acordou sobressaltada com um golpe de um pedaço de borracha batendo em sua cabeça.

“Boa! Isso ae, é acertar na cabeça pra acabar com o zumbi!”, uma menina comemorou baixinho, apoiando a arremessadora de borracha da outra fileira, que tinha acertado Andressa.

Levantando um pouco a cabeça da mesa da carteira, a menina atacada acordou sobressaltada. Mas acabou voltando a se debruçar na carteira.

A professora não tinha como não notar que a menina estava dormindo em sala. Mas ficava em dúvida sobre como proceder. Por um lado, ela não estava atrapalhando a aula mesmo. Por outro, era meio desrespeitoso dormir em plena aula… e era ruim para a própria aluna perder o conteúdo. Seja como fosse, a aluna estaria na escola à toa. Durante um exercício em que deixou os alunos, resolveu falar com Andressa. Percebeu o estado físico complicado da menina e falou:

“Oi… Você parece que não tá conseguindo ficar acordada, né? Não conseguiu dormir à noite, não?”

“Desculpa, professora…”, respondeu Andressa, bocejando. “Tá tudo bem. Vou me esforçar mais.”

A professora percebe que a menina não se sentia à vontade pra falar muito. “Bom, vai lavar o rosto pelo menos. Se quiser, toma um café ali na copa. Já que veio pra escola, tenta aproveitar um pouco, né?”

Andressa conseguiu passar por mais um dia de aula. Lá estava ela, a caminho do trabalho na loja do tio. Precisava de mais café.

Chegou em casa. Precisava dar uma limpada no lugar e cuidar da comida dos Miaus e dos Auaus.

Foi para o hospital. A mãe precisava de companhia. Ela não respondia muito. No máximo uns gemidos. Isso sim lembrava som de zumbi. Pegou um livro e foi ler para a mãe. Era uma história que a mãe contava para ela. Antes, quando a mãe ainda podia ler. Chamava-se “Violetas na Janela”, um livro espírita sobre uma jovem que morreu mas acabou reencontrando sua avó no plano espiritual, além de fazer outros amigos. Andressa lia para a mãe, ainda que ela não entendesse. E rezou.

Descansou ao lado da cama da mãe e cochilou na cadeira desconfortável.

Levantou-se assustada. Estava atrasada para seu trabalho noturno. Correu, pegou o ônibus, entrou no prédio velho e foi até a sua mesa para o atendimento. Gemia. E dava alguns gritinhos. De prazer fingido. Às vezes de sofrimento também. Este, um pouco mais sincero. Mas os homens que a ouviam pareciam gostar.

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