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Era terça-feira. Dia chato, noite chata. Passara o dia na escola, aulas, reunião de professoras…eram todas mulheres. E parecia que as mulheres mais sem graça resolveram dar aula naquela escola. Não se encaixava nas conversas, não se sentia bem junto delas. Abriu uma cerveja e sentou no sofá com o notebook no colo.

Pensava em mudar de profissão. Tinha vinte e quatro anos, tinha o direito de mudar de ideia, a vida toda pela frente… Nada de interessante nas redes sociais. Só gente chata, conversa fiada, perda de tempo. Viu que uma de suas colegas insossas postou sobre um site de namoro. Que tipo de pessoa entra em site de namoro?

Vinte três horas. Nada de sono e o tédio se instalou de vez. Entrou no site por curiosidade. Só homens de meia idade parecidos com seres de outros planetas, com conversas surreais. Melhor assistir novela. Mas antes de sair resolveu dar umas risadas. Chamou um senhor grisalho no chat. Ele atendeu desesperadamente. Disse que estava esperando por ele em sua casa naquele momento. Deu o endereço e desligou o notebook.

Não sabia o significava aquilo. Riu apertando os lábios e o notebook contra o peito. Devia ser por puro tédio. Precisava de uma emoção naquela terça interminável. Levou a garrafinha de cerveja à boca e terminou de beber num gole só, enquanto dançava pela sala de calcinha e blusa de alcinha.

Interfone. Era o porteiro anunciando uma visita. Sem pensar disse de uma vez “deixa subir”. E correu até a porta. O coração acelerou, sentiu suor nas axilas e até uma tremidinha. O cara estava lá na porta já, apertando a campainha e com cara de “o que será que me espera?”. Observou-o por poucos segundos pelo olho mágico. Até que era atraente. Não, a situação era atraente.

Com o mesmo impulso que escreveu aquelas palavras no site, abriu a porta com uma das mãos e com a outra agarrou o desconhecido pelo colarinho e o puxou para dentro. Bateu a porta atras dele e antes que ele terminasse de abrir a boca para falar alguma coisa, levou a outra mão à sua nuca e pulou em seu abdomem, enroscando as pernas em volta de seu corpo e cruzando os pés acima de seus quadris. O homem só teve tempo de segurá-la pelos quadris e responder ao beijo.

Meia hora depois estavam no sofá de bruços tentando recobrar a respiração. Ele se virou de lado e pela segunda vez na noite abriu a boca para dizer alguma coisa. Ela levou o dedo indicador aos seus lábios e com os dela fez sinal de silêncio. Não conheceriam a voz um do outro. Nem o nome. Apontou a porta e o ajudou a recolher as roupas pelo caminho. Enquanto se vestia no corredor, de meias e olhando para os lados receoso, ela bateu a porta em sua cara.

Foi para a cama rindo e dormiu até as seis da manhã. Que tipo de pessoa entra em sites de relacionamento? Riu. Trabalhou excitada naquela quarta-feira. Sorriu para todos, foi afetuosa com os alunos e até riu das piadas jurássicas das colegas. Quando chegou em casa só teve tempo de jogar os livros no chão e abrir o notebook. Dessa vez escolheu um homem mais velho.

Ele tentou falar o tempo todo e ela teve que usar um lenço para tapar sua boca. E teve que ser mais incisiva para faze-lo ir embora assim que terminou. Precisava amordaçá-los logo na entrada. Fez isso na sexta com o negro de trinta anos. No sábado o japonês obeso adorou o fetiche. Mas foi no domingo que sentiu mais prazer. Um senhor grisalho, de boca carnuda, assim que terminou de se vestir na porta, virou-se para ela e enfiou uma nota de cem em sua calcinha.

Na segunda-feira nem foi mais trabalhar. Tinha encontrado sua profissão. Era isso que faltava em sua vida. Essa emoção nova a cada noite. Prazer e dinheiro. Dormia feliz e acordava cheia de expectativa. Nunca mais passar o dia aguentando lamúrias de professoras frustradas e choro de criança. Que tipo de pessoa entra para o magistério?
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