i_239

 

Nos dias lentos que se seguiram a meu exilio (nosso exilio, diria Aria, orgulhosa demais para aceitar que quaisquer pecados que ela tenha cometido ou não eram tão irrelevantes à Homocrata quando os de um besouro perante os sobrelordes), quando eu não tinha nada em que que me agarrar por conforto senão minha armadura viva, a cidade de Lagur começou a inundar a minha mente cansada de observar as ondas.

Lagur, cidade das águas, das intrigas, das nevoas. Lagur, segunda mãe para tantos criminosos e párias tribais. Lagur, erigida próxima demais dos territórios dos sobrelordes para o próprio bem. Lagur, terra onde minha existência sonhada iria tomar forma e deixar sua marca no mundo, ou se desfazer junto com minha vida em algum canal escuro.

As possibilidades me pareciam plausíveis e, em minha melancolia, desejáveis. O tédio e a nostalgia foram suplantados ante as perspectivas dos mil paraísos e infernos que ameaçavam se abrir a minha frente. Logo me vi incentivando esse naufrágio mental, torcendo para que de algum modo esses planos para a cidade fossem capazes de banir as memórias de Azamor e da existência de Orius, primogênito do clã Kraken. Um desejo fútil, entendo agora, diferente apenas em grau das orações dos pescadores por uma tempestade forte o bastante para varrer Ny’el sob as ondas. Um mortal não pode controlar seu próprio futuro, do mesmo jeito que ele não pode se livrar do seu passado.

Não sei se algum sobrelorde ouviu meus pensamentos bobos e fez questão de me corrigir, ou se foi um mero acaso dessa coisa caótica que os mortais ironicamente chamam de destino, mas em poucos momentos uma rapsódia de cantos de illhivelis e gritos humanos me tirou da meditação.

Suspirei fundo. Em outras condições, teria deixado os homens acertarem seus sacríficos com as criaturas, por mais que a ideia de ver servos de Lyngbakur cobrando tributo tão perto do meu antigo lar não me apeteça. Mas Aria não estava comigo. Eu tinha dito para Aria permanecer quieta na minha (minha) cabine. Ela todavia, tinha insistido em ficar brincando de neuromante na proa, como se a bijuteria dela realmente tivesse algum poder. E agora eu ia ter que subir para resgatar ela ante antes que alguém a machucasse.

Tateei minhas costas para ter certeza que o zíper na minha armadura estava devidamente escondido, amarrei a espada sem nome em meu cinturão e sai da cabine. Do lado de fora, vários humanos, majoritariamente fêmeas e filhões, se tremiam e rezavam no chão. Estava prestes a dar um esporo neles pela covardia quando um grande impacto fez o navio estremecer. Eu fui aos meus pês, e ouviu a cacofonia que dominava o ar do navio se enriquecer com risadas abissais. Eu corri para o convés, e me deparei com uma cena de pesadelo.

Em minhas longas horas de leitura da minha vida antiga, percebi que é comum que contadores de histórias florem as descrições do ambiente para garantir que ele se adeque ao temperamento dos eventos narrados. Nessas histórias inventadas por dinheiro casais sempre se encontram em lindos dias de primavera ou noites de lua escarlate, os mortos são entregues aos Wurms em dias nublados e monstros aparecem em noites escuras e tempestuosas. Todavia, eu não estou inventado nada dessa história e tão pouco estou atrás do ouro de nenhum de vocês. Então, podem acreditar em mim sem ressalvas quando digo que encontrei uma noite escura e tempestuosa quando sai dos porões do navio.

O céu estava completamente escuro, dominado por nuvens agourentas que choravam água e berravam trovões. O mar era uma fera negra infestada de ondas, e o vento frio uivava a nossos ouvidos. E ao longe, nadando na superfície e encarando a embarcação com olhos inertes e um bico que abria e fechava na expectativa do massacre, estava uma ziphius, acompanhada de um cardume fantasmagórico de nahvalures.

Humanos corriam a esmo pela embarcação, mexendo nas velas, na direção, batendo tambores, tentando, em suma, convencer a si mesmos que podiam fazer algo de útil. Outros só olhavam em silêncio seus algozes, rezando silenciosamente para sobrelordes que tinham mais o que fazer.

Cada face no convés traia uma história. A maria possuía a pele morena e cabelos lisos de comuns aos servos da minha terra, mas outras origens mais elusivas podiam ser traçadas. Um homem com a pele rósea e tatuagens azuis típico das ilhas barbaras. Havia até mesmo uma mulher cuja pele cinzenta e porte frágil traiam sangue nobre. Mas Aria, a jovem que parecia estar fadada a seguir meus passos desde aquela tarde fatídica em Azamor, não podia ser vista em lugar algum.

— Endecha! — gritei — Endecha!

Ninguém respondeu. Puxei um humano qualquer, o ergui pela camisa e tentei descobrir se ele sabia algo.

— Você viu uma garota nesse convés?

O homem apenas balbuciou algumas palavras sem nexo. Era culpa minha, com toda certeza.  Minha figura deveria estar assustando ele. Mas também, quem não ficaria assombrado com um verdadeiro colosso de mais de dois metros de altura, pele cor de bronze que brilhava ante os raios do sol e uma aparecia divina apenas parcialmente encoberta por uma armadura de couro que mal suportava os músculos que se flexionavam embaixo dela? Sim, meu traje pode ter me custado caro, mais caro do que até o vendedor imaginaria, porem ele valia a pena.

Nas águas cinzentas à nossa frente, as criaturas começavam a se aproximar. A ziphus, em especial, me olhava com os grandes dourados olhos dela. (Certamente elas devem ter me tomado por líder daquela embarcação). Entendi uma coisa importante: se elas desejassem simplesmente afundar o barco, os humanos a minha volta já estariam se afogando.

— Que idiota esqueceu de fazer os sacrifícios? — disse, em uma epifania.

Nenhum dos passageiros ou marinheiros sequer olhou para mim. Alguém mais ingênuo teria ignorado essa ofensa, racionalizando que o barulho ou azafama da situação os impediram de prestar atenção. Mas eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Todos tinham me ouvido e entendido a verdade inegável das minhas palavras, porém se recusavam a aceitar as consequências. O coração dos homens é covarde demais para aceitar os fardos da vida. Por isso os sobrelordes criaram nobres como eu. Só havia uma coisa a ser feita.

— Crias do traidor! — Gritei, não resistindo a alfinetar os illhivelis enquanto erguia o homem como se ele fosse um reles boneco de pano — Aceitem esse sacrifico e deixem essa embarcação em paz!

Desnecessário dizer que a essa altura os outros tripulantes já haviam saído do transe, e partiram para cima de mim — uma tentativa fútil de querer colaborar com meu sacrifício, creio. Independentemente disso, eu arremessei ele nas aguas calmas que rodeavam a embarcação.

O homem caiu desengonçadamente na água, e voltou à superfície aos gritos. Para minha surpresa, a ziphius não o engoliu, ou sequer mostrou interesse nele. Não, o leviatã simplesmente empurrou ele para longe. O humano ainda tentou nadar de volta para ao navio (a essa altura algumas pessoas no convés tinham arremessado cordas, certamente para rir da falsa esperança dele), mas se o grande mostro não queria nada com ele, o mesmo não podia ser dito cães de caça monstruosos dele. Um dos quatro nahvalurs pegou um impulso e o empalou com seu chifre espiral. Logo o resto do cardume se juntou e começaram a despedaçar o homem.

Enquanto isso, os outros tripulantes e marinheiros me cercaram, todos eles com caras nem um pouco agradáveis. Certamente, a inveja os fez esquecer da covardia. Cabia a mim refrescar a memória deles. Desembainhei minha espada e me virei para meus companheiros de viajem, pronto para arrancar a cabeça do primeiro que desse um passo para frente.

— É assim que vocês me agradecem pelo meu sacrifico? — disse, para então acrescentar, sussurrando — Maldita seja você, Endecha.

Não sei explicar ao certo o que aconteceu em seguida. Alguma força desconhecida me impulsionou — jogou, Aria insistiu sorrindo depois — nas águas cinzentas e paradas. Certamente meu próprio coração se cansou daquela enrolação e me fez dar um ir rumo as garras dos grandes monstros marinhos.

Sinto lhe informar, leitor, mas temo que você não sabe o que é um ziphius ou nahvalur. Entenda, os sábios tendem a descrever essas feras de forma a menosprezar o horror que emana delas em nome da neutralidade e os pescadores as exageram para soarem mais interessantes. Não, leitor, permita-me descrever essas feras para que você compreenda quão corajoso eu fui ao saltar sobre elas.

O ziphius é uma grande criatura marinha azulada que lembra um peixe gigantesco de mais de dez metros com cara de coruja. Minto, pois ele não tem escamas, e a comparação com coruja ocorre apenas devido a juba que rodeia sua cabeça, seus grandes olhos dourados (que me estavam fixos em mim enquanto eu caia) e sua boca em forma de bico. Ziphius, como todas as illhivelis, são feras cruéis que atacam quaisquer barcos que apareçam em sua vista. Por outro lado, as nahvalures (destino final de todas as servas de Lyngbakur que demoram demais para morrer, segundo me constam) lembram uma baleia reduzida ou um golfinho grande de cara achatada. As grandes características delas são a chifre curiosamente próximo ao do unicórnio que sai de suas bocas e a cor cinzenta da sua carne, evocativa de um cadáver ou de um nobre. As nahvalures são pouco mais que bestas, e acompanham outras feras marinhas como cães.

Um fato pouco conhecido sobre as Illhivelis é que elas são capazes de replicar grosseiramente a fala humana, do mesmo jeito que um homem pode quase pronunciar corretamente os nomes dos sobrelordes. Digo isso porque a criatura falou tão logo eu caí na água.

— Invasor — disse a fera, antes de avançar.

O combate aquático não era especialmente problemático para mim — eu era capaz de respirar sob as ondas, e meu traje tinha sido feito para manter o desempenho em ambientes bem mais hostis. Graças a ele, desviei por reflexo do ataque da grande fera.

Quando eu estava me afastando, uma coisa que eu já estava esperando a muito tempo aconteceu: minha espada se acendeu com um brilho esverdeado, que só ficava mais fantasmagórico naquele ambiente. Dei uma estocada rápida na cara óssea da fera, e o golpe foi fundo.

Aproveitei a distração para dar uma volta à superfície, antes que alguém começasse a suspeitar de algo. E, mais importante…

— Eu te disse que essa espada era mágica! — disse, como se minha companheira fosse capaz de me escutar, antes de ser puxado de volta para as profundezas.

A Ziphius tinha bicado minha perna, mas o traje o impediu de ferir a minha carne. Estava prestes a revidar quando os olhos de uma Nahvalur brilharam com a mesma luz esverdeada que tinha iluminado minha arma. A criatura então deu um impulso e usou seu chifre para ferir a mestra.

As companheiras da atacante sentiram uma presa vulnerável, e se juntaram ao ataque. A Illhiveli decidiu ali que já bastava, soltou minha perna e começou a tentar fugir, deixando um rastro de sangue atrás dela.

Nadei até uma das cordas que tinham sido jogadas para o outro homem, e voltei a embarcação para achar uma cena pitoresca. Aria estava no meio do convés, tentando recuperar o folego e recebendo palmas da tripulação. Provavelmente por ter feito um truque com a bijuteiria dela ou alguma baboseira do tipo.

— Então, não vai me agradecer por ter salvo você?

Ela simplesmente me olhou com uma cara de revolta e estranhamento.

Nunca entendi minha companheira.

 

Anúncios