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A embarcação era pequena diante do tamanho infinito do oceano. Em alguns momentos, Caleb chegava a se sentir esmagado pela imensidão enquanto navegavam mansamente, a rede estendida na água à espera dos peixes.

Naquele final de tarde, no entanto, o céu escurecia e o vento trazia nuvens carregadas, escuras e ameaçadoras. Pouco a pouco, o mar se perturbava.

Tempestades não eram novidade para ele, mas um incomodo sentimento o atormentava, enquanto recolhia o equipamento e se preparava para seguir na direção do porto. O pai pilotava com a concentração e a calma de sempre, imperturbável, e isso lhe dava alguma tranquilidade.

A pequena embarcação pesqueira avançava com dificuldade, pechando em ondas fortes. Logo Caleb percebeu que não escapariam ilesos.

O céu enegreceu completamente. O mar revolveu-se num padrão desconhecido ao pescador. E o pai, junto à direção, arregalava os olhos de pavor. Jamais na vida, Caleb vira o pai temer o oceano.

Jogado de um lado para o outra na brincadeira violenta das águas, o barquinho ia chacoalhando seus dois tripulantes. O pai pegou-se no terço que sempre trazia no bolso. Caleb pegou-se no pensamento de que a tormenta passaria.

Por entre o negrume do temporal, de repente viu um contorno ainda mais escuro. Pensou esperançoso que o desenho fosse de um farol e a promessa de terra fez seu coração apaixonado pelas águas vibrar. Pela primeira vez queria fugir do objeto de sua paixão.

Conforme a barca se aproximava tropegamente, a figura foi se aproximando e um relâmpago iluminou-a o suficiente para sufocar a respiração de Caleb. Os traços na escuridão criaram um monstro, cujo pescoço gigantesco terminava em uma cabeça de olhos amarelos e maldosos.

Um estrondo sacudiu o mundo, vindo do coração daquela tormenta. Um segundo relâmpago fez brilhar a bocarra cheia de dentes da besta, que moveu-se na direção do barco, fazendo-o se sacudir ainda mais.

O pai rezava, os olhos fechados. Caleb encarava o pesadelo incorporado a sua frente, sentindo de repente que não havia possibilidade de fugir.

O vento uivava e o monstro rugiu, o pescoço se curvando em sua direção. Os dentes erraram por centímetros e por mais que fosse absurdo, sentiu alívio por isso. Foi buscar força na reza do pai. Pai não havia mais.

O vermelho obscurecido que manchara o chão logo foi lavado pela água que dominava o convés. Caleb já não sentia. A morte chegava na forma daqueles dentes.

O revolver do mundo naquela tempestade finalmente destruiu o que restava do barquinho. Caleb dançou com a morte nas águas, o corpo sendo conduzido. Entre o relampear, viu adiante o terço do pai, igualmente preso pelos caprichos das ondas.

E enquanto dançava, ora mergulhado, ora atirado para a superfície, começava a se perguntar se a tempestade abrira portas aquela fera ao mundo ou se a besta fora quem trouxera a tempestade, das profundezas.

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