Um semana… Uma semana de silêncio.

Uma semana que seus olhos passeavam pela janela e contemplavam a luz do sol sobre o gramado verde, com o azul claro e forte do céu definindo as formas das nuvens, como numa tela viva. Passava tempo demais observando as nuvens se movendo para que conseguisse calar sua mente. O quarto do hospital já parecia seu quarto pessoal; papeis jogados pelo chão, cadernos e canetas pelas mesas, livros e seu computador. Escreveu muito neste tempo… Sua única forma de comunicação! Seu corpo doía e suas caminhadas eram limitadas…

Di tirou um nódulo significativo da faringe. Sua fala já estava comprometida e a prejudicou no trabalho. Aguardava na fila para cirurgia já havia algum tempo, e a recomendação médica enquanto isso era de falar o mínimo possível, mas Di é locutora da rádio local! Reconhecida pela voz e irreverência, sua saída do programa 66km levou boa parte da audiência e rendeu boas cobranças dos ouvintes. Transferida para administração até que resolvesse sua questão, a rádio fez o possível para não perdê-la. Mas ela não o fez.

A radialista muda se sufocava por dentro, não dava conta do trabalho proposto e abandonou a rádio num impulso agressivo, arriscando anos de amizade e profissionalismo que conquistara. Após a cirurgia recebeu mensagens de texto e a única visita tímida e presencial foi da colega que assumiu seu programa. A garota saiu de lá fugindo do celular que voava em direção à sua cabeça! Todas as palavras que não podiam sair, pareciam transformadas em pedras e balas à quem se aproximasse.

Durante uma semana após a cirurgia, Di olhava as nuvens que se dissipavam e sentia que sua ira se desmanchava igual. Dia após dia aquele silêncio obrigatório transformou-se em um espaço de acolhimento dentro dela. Não odiava mais e sentia a necessidade de rever seus colegas, esperava que eles compreendessem, que pudessem tirar aquele sentimento de culpa que pairava como uma nuvem densa. Seria meu sol interno, pensou. Algo que a aquecesse de novo… Voltou o olhar para os papeis e pegou um dos cadernos, releu seus escritos e acompanhou seu processo da revolta ao silêncio pacífico, analisou o peso da caneta e das palavras sobre o papel e se emocionou com as escolhas tenras que formavam seus últimos textos. Havia poesia ali… Na sua história, na sua superação, nas relações. Estava feliz!

 

Seu sorriso solto bombeavam a água salgada que acumulava em seus olhos. Três batidas na porta as derrubaram, e limpando o rosto, autorizou a entrada. Dr. Almeida lhe dera alta. Sairia pela manhã. Ouviu as recomendações, o processo delicado de recuperação e as possíveis reações; ouvi-as atenta e feliz. Queria sair, e mesmo baixinho precisava pedir desculpas durante os abraços que devia… Devia a si mesmo! Voltou a olha o céu.

A tão esperada manhã, que já contava com a bolsa arrumada, papeis acumulados na lixeira e cadernos empilhados dentro da sacola de pano, a acordou com um estrondoso trovão. A janela de cortinas abertas permitia às sombras das nuvens escuras e carregadas que avançasse sobre a cama, fantasiando as 08h matinais como 20h corridas do dia. A escuridão que o mundo lhe propunha para sair de seu universo silencioso era assustadora!

Enquanto encarava os desenhos sombrios que emergiam em sombras no quarto, outra trovoada lhe arrancou um grito de susto. Uma grave vibração em sua garganta traumatizada agulhou a cicatriz da faringe. Levou as duas mãos ao pescoço, e nem que quisesse sua voz aparecia. Tentou se acalmar para chamar uma enfermeira e foi surpreendida com um clarão de um raio próximo. Outra pontada! Tossiu sangue. Suas lágrimas de desespero diluíam o vermelho escuro sobre o lençol e lhe prendiam o olhar tenso, emoldurado pela escuridão do quarto e apoiado pelas mãos que lhe seguravam a garganta.

Naquele momento, todo o peso do silêncio condensou de novo. Di tinha medo e se perguntava se sua culpa abriu as portas para aquela tempestade ou se foi a tempestade que não a deixou esquecer a culpa. Que mundo deixou para sua volta?

 

 

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