De repente, o mundo estava mudo. Ou ele é que não ouvia mais nada? Acordara e o som havia sumido.

Não saberia mais o que eram os cantos dos passarinhos que anunciavam o começo do dia? Não haveria mais sinfonia das orquestras na Sala São Paulo?

Achou a princípio que era algo a ver com gripe. Mas não passava. Desesperado, foi ao médico. Ele explicou que parecia um caso de surdez súbita bilateral, mas não sabia precisar a causa do problema. “Oh, grande explicação. Ajudou muito, doutor.”

O mais importante era saber: “Haveria tratamento para aquilo? Alguma cura, chance de reversão?” O doutor não sabia dizer. Apenas que havia necessidade de mais exames diagnósticos.

Os exames foram feitos, e mais outros, e a causa do problema persistia misteriosa. Enquanto isso, era preciso seguir a vida. E até que, no fim das contas, havia suas vantagens nesta nova vida…

Não saberia mais o que eram as gritarias dos pais escandalosos dentro de casa. Também não haveria mais funk tocado à toda nos arredores de sua casa. O silêncio povoaria seu espírito e seria seu melhor amigo.

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Começou a conversar com o Silêncio, em seu próprio e particular idioma. Passou a tentar compreendê-lo. Fez amizade com ele. Trocou ideias. Passou a compreender seu sentimento de rejeição, de abandono. Todos querem ouvir música. Conversar, na linguagem matraqueante e barulhenta de praticamente todas as línguas da Terra. Todos fazem barulho. Gritam para chamar a atenção para seus produtos na rua. Buzinam. Fazem ruídos com seus jogos eletrônicos. Com seus motores. Todos afogam o Silêncio. Parece que, se não há som, você é um incapaz, um introvertido, um ignorante.

Ao entender o Silêncio, passou a ter compaixão com ele. E parou de ir ao hospital em busca de seu diagnóstico, que nunca chegava, e de seu tratamento. Percebeu que tudo indicava estar destinado para ser o porta-voz do Silêncio no mundo. E começou a sua missão. Ele não ouviria mais. Era amigo do Silêncio. Mas tantos outros ainda estariam violando e contribuindo na violação dos sentimentos de seu mais novo amigo.

Passou a imprimir muitos dos adesivos de hospital “Silêncio”, com a clássica figura da enfermeira fazendo “shiu” com o indicador na frente da boca. E os espalhou pelas ruas, pelos postes, pela cidade.

Passou a capturar as pessoas e amordaçá-las, de modo que não fizessem mais barulho, ao menos com sua voz. Mas percebeu que não conseguiria mantê-las assim o tempo todo; elas não seriam funcionais. Desse modo, aprendeu onde eram as cordas vocais e deu um jeito em cada uma.

Danificou veículos automotores. Fraudou shows de bandas – dando preferência para aquelas cujo som tinha lembranças mais negativas.

Mas sua jornada não podia durar para sempre. Era apenas um contra o mundo, ou alguns, pois até chegou a arrebanhar alguns fiéis esclarecidos e inspirados em seu culto ao Silêncio. Mas não era o suficiente contra as forças do Ruído. As pessoas não entendiam. Não tinham compaixão pelo Silêncio. Só ele. E uns poucos inspirados.

Mas foram presos. E ficaram isolados, com seu majestoso e triste Silêncio, cujo império não pôde se ampliar tal como era planejado. Mas ele voltaria. Estaria espreitando nos retiros de Silêncio e meditação.

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