Entrou na sala de aula com os braços recheados de livros e papeis. Depositou a pilha na mesa, enquanto berrava “bom dia” na vã tentativa de atingir a todos os ouvidos da sala.

Foi até o quadro negro e colocou a data, a instrução para a tarefa do dia. Perguntou se todos haviam trazido o texto que pedira: uma reportagem recente sobre o Senhor do Silêncio, um maníaco recentemente detido pela polícia. O homem tinha criado uma estranha seita de adoradores do silêncio. O texto era perfeito para trabalhar em sala de aula, mas já começava a esbarrar no barulho.

Os alunos da frente da sala pegaram o texto da pasta, os do fundo da sala não tinham notado a professora. Os do meio acordavam de um transe, com cara de bobos e perguntavam o que era pra fazer.

Com toda a paciência do mundo, a professorinha suspirou, pediu o texto, escreveu no quadro. Perguntou quem ia começar a leitura em voz alta.

“O que é pra fazer, sora?” “Tinha que trazer material?” “O texto sobre o Arcadismo era para hoje?”, chovem perguntas para as quais ela quer dar um merecido prêmio de falta de atenção. Na impossibilidade, mantem a compostura, respondendo em poucas palavras “Pegar o texto”, “Sim”, “Não, a aula de hoje é de português, não de literatura”.

Ao final de alguns minutos arrastados, todos estão com os textos e um fulano começa a leitura. Em alguns minutos, está terminado. Começa então a explicação e os questionamentos. A turma participa, a professora começa a se recuperar enquanto discute o texto com os alunos. E naquele momento, mesmo que nem todos os alunos estejam concentrados, ela sente o orgulho de ouvir as respostas e interpretações.

O final do período se aproxima e aos poucos a sala inteira pulula como se estivesse cheia de lebres saltitantes de mochila. A professora Tenta sustentar a paz até o final do período, finalizando a matéria e dando lembretes para a próxima aula.

Quando bate o sinal, a sala se esvazia em poucos minutos e a professora fica, a mão deslizando o apagador pelo quadro, enquanto o silêncio invade tudo ao seu redor. Pacífica, deixa a sala sem pressa e caminha pelos corredores fantasmas. Sem o som as paredes brancas parecem frias. Não há risos nem perguntas enquanto ela guarda o material no armário e deixa a escola. A quietude a inquieta pela sua frieza, e pensar que tantas vezes ela pedira: silêncio!

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