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O dia amanheceu, os passarinhos cantaram e os grilos silenciaram. E nas casas todos abriram os olhos e se espreguiçaram. E as bocas abriram mas nada saiu de nenhuma delas. A mãe não conseguia dizer bom dia para o pai e nem o filho pedir mais cinco minutinhos na cama.

Olhavam abismados uns para os outros e tentavam tirar lá do fundo uma palavra, uma só palavrinha. Mas elas haviam sumido. Moravam ainda dentro deles, todas elas, enfileiradinhas, mas não saiam mais. Correram para o médico. E no caminho viram pessoas correndo de um lado para o outro. Agitavam os braços e faziam caras de terror, mas não se ouvia nem os gritos e nem o choro.

O médico não podia ajudar. A cidade toda estava lá e não podiam ouvir a secretária dizer quem era o próximo porque ela também não tinha mais palavras. E todos queriam ser curados mas não podiam ouvir o que o médico não conseguia dizer.

Tentaram escrever, mas também não saiam palavras dos lápis. E na escola não teve lição e nem recreio. Todos sentados, sem saber o que fazer. A professora até chorou. E na saída não teve correria nem gritaria.

E o mundo foi ficando calmo, quando todos perceberam que se agitar não fazia as palavras voltarem. E foram todos para casa pensar em como trazê-las de volta. E, enquanto pensavam, começaram a dizer coisas boas com o olhar e a dizer coisas ruins franzindo os rostos. E foram se lembrando de olhar uns nos olhos dos outros como há muito não faziam.

Irmãos que estavam brigados não tinham mais como viver de rosto franzido porque doía. E deixavam o rosto relaxar e aparecer um sorriso. E no sorriso um do outro lembravam de como se se amavam. Namorados faziam as pazes, sem as palavras duras para ficar entre eles. E guerras foram adiadas para quando pudessem dizer o porquê delas.

E foram inventando palavras novas, sem som e sem letras. Palavras de sentir. Os olhos viraram bocas e viraram ouvidos. E os dedos lápis, a riscar um na pele do outro os sentimentos.

Imagem: guilhermealencardesenhos.tumblr.com

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