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Tenho seis horas e quarenta e cinco minutos. É pouco tempo para lembrar de tudo. Muito tempo quando tudo o que se pode fazer é lembrar…Tenho muito tempo. Poderia falar com você pelo whatsapp…Lembra que eu não gostava e você me chamava de mulher das cavernas? Agora eu uso. Poderia te contar que uso outras coisas também. Que cortei o mato do quintal e deixei crescer o cabelo. Que voltei a ler e que estou pensando em voltar para a academia. Mas é pouco tempo.

São mudanças pequenas eu sei. Mas que vou precisar para me sentir outra de alguma forma. Ser quem eu era fica faltando um pedaço. Quando me conheceu me faltavam muitos pedaços. Em você também faltavam. Você estava perdido e por isso se agarrava a mim também, como diz a música. Nossos pedaços pareciam inteiros juntos.

O ônibus parou numa cidadezinha qualquer. As pessoas fazem fila no corredor para descer. Eu prefiro ficar aqui. Sempre preferi ficar sozinha, você sabe. Pela janela vejo uma criança brincando sozinha na plataforma enquanto a mãe fala ao celular. Ela brinca de subir e descer da plataforma suja. Para ela só existe aquele momento e aquele degrau.

Queria que tivesse sido assim. Que tivesse existido só nós dois e aqueles degraus. Se eu pudesse voltar atras…nada mais me importaria. Não deixaria nada e nem ninguém inferferir. A mãe puxa a criança pelo braço quando vê um ônibus se aproximando para estacionar. Ela é arrastada sem entender porque acabou a brincadeira. Como eu fui. Quando vê o veículo enorme tomando seu lugar consola-se e acha outro divertimento.

Terei que colocar outras coisas em seu lugar. Terei que me consolar, me divertir… Mas cada coisa divertida que verei, antes de rir pensarei em como você gostaria de rir daquilo também. Lembrarei da tua risada larga, pura, ecoando pelo quarto quando a gente falava bobagem. Aí vai me escapar uma risadinha abafada lembrando de cada graça tua e vão pensar que estou rindo do presente. Rio do passado, que era tão engraçado com você…Choro do presente, que sem você está difícil de aguentar.

O ônibus saiu lentamente da rodoviarizinha. A criança me acena. Eu aceno de volta. Me ajeito no banco e percebo que estou com vontade de fazer xixi. Você me chamaria de bobona -porque- não foi- ao- banheiro quando- podia? E eu faria cara de quem sabia o que estava fazendo. Aperto as pernas e penso em segurar até a próxima parada. Nem sei quando será. A gente nunca sabe quando será a próxima parada…Nunca sabemos se quem viaja ao nosso lado vai descer logo, se quer mesmo estar conosco ou se só sentou ali porque o acento era de dois lugares.

Nunca soube o que queria de mim. Primeiro achei que só queria se esconder de si mesmo. Depois acreditei que éramos almas gêmeas, gostava de acreditar nessas coisas com você… Te dizia que era como se te conhecesse da vida toda e era verdade. Nem tinha medo que me deixasse, parecia irreal demais. Mas você me deixou. E sinto raiva, sinto medo. Sinto medo do que será de mim sem você nesse mundo que ficou colorido só depois de ti.

Meus amigos dizem que pareço bem até. Acho que nunca mais ficarei bem. Talvez volte a ficar bem como era antes de você. Um bem sem ter conhecido o bem de verdade. Não, agora será pior, porque conheci e sei que não terei de volta. Espero que esteja bem onde estiver. Consegue ficar bem sem mim? Me dói pensar que consegue.

Pela janela vejo as paisagens mudando. E a vontade de fazer xixi aumenta. Talvez eu devesse me mudar. Talvez devesse ir ao banheiro do ônibus mesmo. Nunca consegui me equilibrar naquelas cabines sacolejantes. Lembra quando você bebeu demais e tentou fazer xixi no banheiro daquele hotelzinho na serra enquanto eu te fazia rir? Gostamos tanto daquele hotelzinho que queríamos mudar para lá… Você disse que poderia passar o resto da vida olhando para aquela serra e para mim.

Quando foi que olhar para mim deixou de ser tudo o que queria? Quando foi que as luzinhas que dizia sair de mim se apagaram? Por que você se foi? Não, nunca vou te perdoar. O banheiro está ocupado. Espero na frente da porta me contorcendo toda. Como um minuto demora quando se está apertada! Como uma vida demora quando o amor foi embora!…Cada minuto parace uma eternidadade. A gente sempre falava do tempo, que parecia parar quando estávamos juntos. Seis horas pareciam seis minutos. Agora seis minutos me parecem seis horas. Seis horas sem tua pele, sem teu cheiro, sem tua risada ecoando pelo quarto, é muito tempo.

Apaguei todas as tuas fotos. Fiquei com tanta raiva que queria rasgar todas as tuas lembranças. Mas cada fibra do meu corpo se lembra de cada segundo. Por um segundo não faço xixi nas calças. É um alívio pela metade fazer nesse banheiro. Não satisfaz, parece que fica um prazer contido. Como amar você, nunca me satisfazia…lembra? Me chamava de ninfomaníaca. Eu nunca te disse que não era não. Era só de você que nunca me satisfazia. Uma noite inteira era sempre pouco.

Volto para o meu banco mais ou menos aliviada. A paisagem já mudou. Parece que até o ar mudou. Mas por dentro nunca vou mudar. Seja mais leve você dizia. Não há de onde eu tirar leveza agora. Talvez você esteja leve onde estiver. Eu sempre fui densa, intensa e era o que nos mantinha no chão. Você que nos fazia voar. Prefiri vir de ônibus do que voar, prefiro sentir a viagem, ver a paisagem passar pela janela, ver cada cidadezinha. Quero ver cada lugarzinho por onde passo e imaginar como seria estar ali com você. São tantos os lugares que nunca fomos, tantas coisas que não fizemos juntos…

Agora não há mais o que ver da estrada. Parece que chegamos. Chegamos ao fim. É, Belo Horizonte… Não tenho mais horizonte. Não tenho para onde olhar e ver um caminho a seguir. Ninguém me espera na rodoviária. Desço devagar a escadinha, impacientando meus companheiros de viagem. Quero sentir cada passo, é a primeira vez que venho a Minas. Sonhei tanto com isso, mas não assim, não sem você.

Nunca me apresentou tua família. Talvez quisesse e não tenha dado tempo. Talvez nem quisesse. Nunca perguntei. Mas agora estou me sentindo menos parte de tudo. O taxi me leva ao hotel que você me falava. Talvez esse quarto seja um dos que já ficou. Talvez nessa cama…Preciso tomar banho logo. Já está quase na hora. Vou pôr aquele vestido que me deu e que nunca usei.

Cheguei um pouco atrasada. Já está no fim o cortejo. Por que cheguei tão tarde na tua vida? Por que demorei tanto para te encontrar? Me chamava de tartaruga…sorrio chorando quando lembro de você me respondendo assim quando eu te perguntava isso. Não sei se teria adiantado. Se fossem quarenta anos ao teu lado teria parecido pouco também. Você é que não devia ter tido tanta pressa de ir. Bobão, faz tudo errado sempre.

Espero de longe todos se despedirem. As lágrimas escorrem por baixo dos óculos escuros. Depois que todos se afastam vou até você. Te dou a derradeira lágrima na flor murcha que trago nas mãos. É só o que posso te dar agora. Queria me jogar sobre as flores e pedir que não vá, mas você já foi. Agora só me resta seguir sem você. Para onde eu ainda não sei. Mas sempre terei Minas…Minas onde planejamos envelhecer juntos, onde nunca viemos juntos e de onde você nunca mais sairá, assim como de dentro de mim.

 

 

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