Esse tal de Guimarães Rosa (argh) sempre tinha sido símbolo de uma chateza absurda pra mim. Era um dos livros que tinha que estudar no vestibular, logo, era chato. Ainda mais quando me dei conta que ele escrevia de um jeito todo maluco. Credo.

Vamos pegar uns exemplos do livro “Grande Sertão: Veredas”, pra você ter uma ideia da coisa. E porra! Só pelo título já dá pra ter noção da brincadeira, né? Nem é só o sertão que é grande, o livro também é grande mesmo, mais de 600 páginas! Como é que obrigam a gente a ler uma coisa dessas? E ainda por cima, NEM TEM CAPÍTULOS! Como é que o cara, na sua sã consciência, faz isso com a gente? Nem uma ajudinha pra dar uma respirada! Tem que ler tudo alucinado, sem saber direito nem onde parar!

Bora lá então pra uns trechos desse livro sacal: “De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava.” Heim? Como assim, fazia e mexia? Fazia o quê? Mexia no quê? Esse cara não sabia regência de verbo não? E pensar não pensava? Uai, se é pra falar que não pensava, era só escrever “não pensava”, que ridículo!

E mais: “Vivia puxando difícil de difícil, peixe vivo no moquém: quem mói no asp´ro não fantasêia.” Puxar difícil de difícil? Heim? Como se puxa um “difícil” de um outro difícil? “Difícil” nem é substantivo pra poder puxar, como se fosse uma corda, eita! E o resto da frase nem dá pra comentar que é sem noção de nada! Realmente, a única coisa que dá pra entender aí é que o cara tava “fantasiando” muito. Pra falar mais direto: Tinha é bebido, se drogado, sei lá!

Olha essa outra então: “O diabo existe e não existe. Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias.” Quê??? Como assim, o diabo existe e não existe? Que blébléblé é esse? Pô, essa contradição não quer dizer nada! E “dou o dito”! Melhor dizer “digo tal coisa”, sei lá. Não se “dá” uma fala. Se fala e pronto! E esse tal de abrenuncio então? Que é isso? Nunca ouvi falar.

— Marcos! – alguém falava comigo, numa voz de homem de já certa idade. E tinha botado a mão no meu ombro esquerdo.

— Quêeeeee? – gritei assustado, virando-me pra olhar rápido e sacudindo os braços. Eu sabia que não tinha ninguém em casa. E… mesmo que tivesse, seria a minha mãe. Meu pai já tinha morrido fazia alguns anos. Mais ninguém morava comigo. – Quem é você?

Observei a pessoa, que tinha um sutil sorriso matreiro. Porra. Peraí. Era um cara num paletó, óculos grossos e calvo. De gravata-borboleta (afe… credo). Calmo e elegante. E de boas, como se estivesse no próprio quarto. Só tinha levantado a mão com que tinha me cutucado. Eu devo ter também assustado ele com meu escândalo – atitudes naturais para ambas as partes, claro.

Rosa no Guache MK.19.abr.2016

— Então você não sabe mesmo quem sou eu? – respondeu ele, tranquilo e como se estivesse se divertindo com a situação.

— Eu… bom. Putz. — Tava tremendo, sem saber direito o que responder. Aliás, nem devia responder nada. Tinha um invasor no meu quarto. Como ele veio parar aqui? Não podia ser. Mesmo assim… Soltei, meio assombrado: — Tenho a impressão de já ter visto a sua foto por aí. Mais de uma vez. Você… é famoso, né?

— É mesmo? — E soltou uma risada. E continuou, calmamente. – É verdade. Sabe, apesar de eu ter depois ficado até acostumado com a maneira bonita como as pessoas acolheram o meu trabalho… No começo eu tinha ficado entusiasmado e até sem jeito com tudo isso… Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza.

— Saco. Nem começa com esse papinho. — Eu protestei, indignado. — Você não existe. Você é só uma alucinação da minha cabeça.

— Pode ser que eu seja uma alucinação da sua cabeça. Pode ser que não. Eu mesmo quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. — e terminou com uma piscadinha, o desgraçado.

— Para, para, para!!! — Respondi, com uma careta, raivoso. — Tá, não tem como eu não reconhecer essa sua gravatinha-borboleta brega e esse jeito esquisitinho de escrever. Ou de falar, no caso. Mas como é que você veio parar aqui? Você… até já morreu faz tempo!

— Tudo é a ponta de um mistério, Marcos, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Até quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.

— Que o quê! Larga mão! — segui protestando. — Como assim, não acontecer nada é também um milagre?

— Explico. O amigo aí sentado, por exemplo, que sabe das coisas e estuda, suponho nem tenha ideia do que seja na verdade… um espelho, por exemplo? Certamente, para além das noções de física, com que se familiarizou às leis da óptica, desde a época de colégio e cursinho, correto? Refiro-me ao transcendente. Quando você olha no espelho, isso é a entrada para a curiosidade sobre você mesmo. Uma viagem nem sempre agradável e para a qual ousadia é preciso.

— Uma viagem? Tá ceeerto. Tô numa viaaaagem mesmo. Tá, desisto. Tá tudo fora do lugar. Não tem como eu entender nada mesmo.

— Meu caro, não se cobre tanto. — Respondeu meu visitante, puxando uma cadeira da mesa próxima e sentando-se, como se realmente estivesse em casa, apesar de eu não ter dito a ele para se sentir em casa. — Sei que você deseja compreender o mundo de maneira completa. Perfeita. Mas isso é apenas um ideal, uma fantasia. A dimensão humana é de “anjos caídos” e não de “anjos celestiais”.

— É. Eu sei. Especialmente no meu caso. Aliás, por que é que você, quer dizer, o senhor, se interessaria em vir aqui falar comigo? Sou só um universitário tosco.

— Sabe, eu me interesso muito por coisas vivas! Não posso assim viver apenas na literatura. E tenho uma verdadeira repulsa física pelo lugar-comum — o que nunca se confunde com a simplicidade, lembre-se disso.

— E… — cobro melhor explicação. Francamente, eu não estava achando isso nada simples de se entender.

— Você é certamente vivo, Marcos. Eu, de certa maneira, não estou mais. Assim, só posso viver através de pessoas como você. Quando escrevo, e sempre que escrevi, foi pela necessidade de capturar essa vida. E aqui estou eu, prosseguindo com essa minha necessidade.

— Tá… Beleza. O senhor veio me sequestrar ou me matar então? — perguntei com ironia.

— Talvez sequestrar ou matar seu ranço criativo, jovem amigo. — E, depois de um risinho, ele prosseguiu: — Olha, vou te contar direitinho. Sempre senti a necessidade de enriquecer e embelezar a nossa língua. Isso veio exatamente a partir desse meu gosto pelo vivo e por fugir do lugar-comum, que lhe contei há pouco. Isso inclui torna-la mais plástica, mais flexível — e mais viva.

— E por isso o senhor escreveu desse jeito maluco todo que eu tava lendo? Inventando palavras do nada? Como isso é embelezar a língua?

— Eu te asseguro, Marcos, que nunca foi meu objetivo inventar palavras a meu bel-prazer ou fazer simples erudição. Ora, o que sucede é que eu me limitei a explorar as virtualidades da língua, tal como era falada e entendida em Minas, região que teve durante muitos anos ligação direta com Portugal. Aliás, você notou que o nome do livro que tem em suas mãos é “Grande Sertão”? Isso não parece lhe dizer alguma coisa?

— Saco… Tá. Saquei.

— Eu quero aproveitar tudo o que há de bom na língua portuguesa, seja do Brasil, seja de Portugal, de Angola ou Mo­çambique, e até de outras línguas. Pela mesma razão, recorro tanto às esferas populares como às eruditas, tanto à cidade como ao campo. Se certas palavras belíssimas como “gramado”, “aloprar”, pertencem à gíria brasileira, ou como “malga”, “azinhaga”, “azenha” só correm em Por­tugal… Será essa razão suficiente para que eu as não empregue, no devido contexto? Porque eu nunca substituo as palavras a esmo. Há muitas palavras que rejeito por inexpressivas, e isso é o que me leva a buscar ou a criar outras.

— Ahn. Ainda não decidi se o senhor é um cara maluco demais… ou quem sabe entende coisa demais.

— A propósito, teve uma palavrinha aí que você estranhou na hora em que eu tava chegando, né? Mas nesse caso, nem inventei não. Pode ser que você nunca tenha ouvido falar, mas muita gente diz e já disse-que-disse. “Abrenúncio” é só um jeito de dizer “Deus me livre”, “sai, demônio”.

— Acho que tava na hora de eu dizer ela agora então… — respondi, meio aflito. Ao que ele riu de novo e comentou:

— Eu bem entendo esse seu desejo… Se fosse eu no seu lugar, provavelmente eu também diria! Sou religioso e supersticioso.

— …Você sempre ficava papeando com as pessoas assim como tá comigo? Parece que gosta tanto de uma vida social que não se contenta em ficar quietinho, como deveria estar agora, né? — agora eu é quem resolvi brincar um pouco com a assombração, fazer o quê?

— Olha, meu jovem questionador… — ergueu as sobrancelhas, matreiro, e coçou o queixo um pouco antes de continuar. — Pra falar a verdade, eu vivia agarrado com minhas ocupações diplomáticas e literárias. Quando andava de ônibus, estava sempre planejando algum trabalho. Por sinal, uma vez me perguntaram como eu conciliava tudo isso. Ora, tirando muito do tempo de divertimento. Sacrificava os fins de semana, feriados e ficava acordado até tarde à noite.

— Eta. Que dura dedicação… Muito workaholic você.

— Tudo bem. — respondeu, amável. — Escrever, para mim, é como um ato religioso. Seja como for, detesto vida social. Gosto muito das pessoas, mas lenho horror à vida social. Não tenho paciência para aturá-la. Não gosto de frequentar a vida social, tenho logo vontade de escrever. Concatenando ideias. Até entrevistas, não gosto de dar, raramente as concedi.

— Poxa! Nem entrevistas? Que puta chato você — lasquei na sinceridade.

— É. — agora enfim pareceu um pouco encabulado. — Tenho sempre a sensação de que não disse o que queria dizer, ou que disse mal o que disse, ou que criei maior confusão; e não estou assim tão seguro do que procuro e do que quero. Com você abri uma exceção…

— Pois é, né? No fim ganhei uma entrevista espontânea surpresa — falei, de modo pomposo, na brincadeira.

— É que hoje estou por aí. Ganhei o privilégio de fluir pela linguagem na cabeça de todas as pessoas que me leram e me leem. Até de quem, a princípio, tem birra. E essas pessoas têm todo o direito de ter birra. A birra é transformadora também — em alguns casos. O mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando.

— Isso até é, né. Olha, desculpa se eu meti bronca demais no seu livro, no seu jeito de escrever… Mas é que… Sabe…

Ele fez sinal de negativo com a cabeça, de boas.

— Já falei, não tem problema ter birra. Só repare que.. — arregalou os olhos, levantou os ombros e falou: — Viver para odiar uma obra ou uma pessoa é o mesmo que passar uma vida inteira dedicado à ela. E você é jovem. Aproveite para mergulhar nas obras que puder ler e criticar mesmo. Estude, aprenda, aplique-se à disciplina e à paciência. E desenvolva-se, cada vez mais.

— Pode deixar! Vou tentar aprender cada vez mais, me lembrando das suas palavras!

— Mas não se preocupe tanto assim com o escritor. Pense na obra. O autor é sempre bananeira que já deu cacho. Diria apenas a você que procure ler os livros. Os livros, em si, é que são importantes. Os autores, não. O autor é uma sombra, a serviço de coisas mais altas, que às vezes ele nem entende.

— Tá ok, entendi, seu Rosa… Mas, putz… Agora me deu uma dúvida muito importante: Eu vou poder voltar a falar com você assim de novo?

— Já tá dando saudade, meu caro? Digo-te que Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria… Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos… Essa… a alegria que ele quer.

Não consegui mais responder. Fiquei emocionado. Baixei o rosto, envergonhado e comovido. Engoli em seco. E não importava mais se aquilo era de verdade ou de mentira. Porque viver é etecetera. Mas sei lá, eu ensimesmava. Não olhei mais pra ele, porque não tinha mais coragem de saber quando ele ia embora. Não sei quando o seu Rosa deu partida. Se revoou, nem deu au revoir. Porque, de verdade verdadeira, ele não tinha ido embora. Só tinha chegado em hora desmarcada.

*

[Este mosaico abobado comeu e bebeu à farta especialmente das seguintes fontes:

O Mistério do Espelho, no Blog do Moreno

Poemas de Guimarães Rosa

A Última Entrevista de Guimarães Rosa, na Revista Bula

Graça Coutinho Entrevista Guimarães Rosa, no site da Letras/UFRJ

Entrevista para a menina Lenice Guimarães de Paula Pitanguy, prima de João Guimarães Rosa ]

*

[Pintura de Guimarães Rosa no guache de autoria do mesmo autor deste texto, MK.]

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