confeitaria-mag-clarice-lispector-hora-da-estrela-michelle-henriques
Ilustração da capa de “A Hora da Estrela”, Editora Rocco

— começou Severina, para então deitar a parte superior do corpo na mesa do refeitório — Você nunca ia ver o Jorge Amado fazendo uma coisa dessas.

— Bem, veja pelo lado bom — comecei, entre uma garfada e outra no almoço insosso que era servido na firma. — Pelo menos não foi o João Guimarães Rosa.

Minha colega suspirou e ergueu a cabeça com cara de quem ia dar um esporro, mas antes que Severina falasse algo, ela o fez.

 — A vida é um soco no estômago — disse Clarice Lispector.

— Se pelo menos ela falasse algo de útil! Mas ela só fala…

— Estou consciente de que tudo o que sei não posso dizer, só sei pintando ou pronunciando, sílabas cegas de sentido. E se tenho aqui que usar-te palavras, elas têm que fazer um sentido quase que só corpóreo, estou em luta com a vibração última.

— Esse tipo de coisa — terminou Severina, que então fechou os olhos, deu um suspiro, e voltou a comer como se nada tivesse acontecido. Eu olhei para a minha amiga, olhei para a Clarice Lispector em pé atrás dela, olhei para o resto do pessoal do escritório, olhei para minha amiga de novo, olhei para meu almoço e olhei para o meu relógio. É, ainda faltava um bom tempo para o fim do horário de almoço me salvar daquele pesadelo.  honestamente, não sei porque ela achava que eu — ou qualquer outra pessoa — poderia ajudar ela. Mas eu ia tentar

— Meu primo teve um encontro parecido com o Rosa no mês passado, e assim que ele se abriu com ele, o cara foi irritar outro. Esses bullies somem assim que você para de levar eles a sério — disse, fitando os olhos da Lispector

— Honestamente, não sei porque achei que você poderia me ajudar — falou Severina. — Eu já tentei isso na onda dela, mas não deu em nada. Acho que é meu destino ficar presa a ela.

Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher… — disse a Lispector.

— Fico feliz que o pessoal da firma está levando isso na esportiva — Se alguém mais naquela cantina se importava com a Clarice Lispector, eles estavam fazendo um ótimo trabalho em disfarçar.

— É — disse ela, olhando para cima. — Nenhum desses desgraçados está se importando.

— Ferreira Gullar está possuindo meu gato tarde sim, tarde não. Já tenho por problemas literários demais — respondeu um funcionário de passagem.

— Ué, mas o Ferreira Gullar ainda está vivo — disse.

— Diga isso para ele — responde meu colega, antes de ir sentar em outra mesa.

— A palavra é o meu domínio sobre o mundo­ — interrompeu Clarice Lispector, querendo retomar o foco da conversa.

Em resposta, Severina tirou uma maçã da bolsa.

Era uma maçã vermelha, de casca lisa e resistente. Pegou a maçã com as duas mãos: era fresca e pesada. Colocou-a de novo sobre a me… — começou ela, apenas para se agachar quando Severina atirou a maçã nela. Ela então ficou nos encarando, ligeiramente irritada por ter tido sua narrativa interrompida.

— Eu não sei se consigo aguentar isso — falou minha amiga, esfregando a testa.

— Também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha – com persistência, continuidade, alegria.

Ah, tenho certeza que você vai se acostumar — respondi — Onde está seu amor a literatura?

Quando se ama, não é preciso entender o que acontece lá fora, porque tudo passa a acontecer dentro de nós — disse a Lispector.

— Meus Deus do céu, acho que eu vou estourar meus tímpanos só para… — começou Severina, para se silenciar em uma epifania súbita — Ei, essa citação é do Paulo Coelho!

— Yolo! — disse a Clarice Lispector, que então saiu correndo e pulou pela janela.

 

Anúncios