Macabéa estava sentada na praça e sentia pela primeira vez um frio que a colocava como figurante de uma obra de Dostoiévski.

– Dostô o que?

(Era de Rodrigo esta referência.Ele pincelava palavras que pudessem descrever a subjetividade desta temperatura, que angustia o peito mesmo no calor do Rio de Janeiro. Clarice parecia cansada demais para cutucar suas próprias feridas e coloca-las em sua personagem primeiro).

Macabéa viu a mercedes passar, e nem seu vermelho aquecia aquele desesperançoso olhar . Era um frio urbano, metropolitano, de excesso de gente ocupada, que corre e está sempre atrasada. Vinha do gelo das relações automáticas, da trava da espontaneidade, do medo do desprogramado, da desproteção e da ânsia de ser amado.  E ela se viu só, ali, esperando o homem loiro que a cartomante tinha lhe jurado…

A noite, de olhos fechados na sua cama dura, sentiu-se presa numa espécie de armadura. Sentia medo do que tinha encontrado ao sair de sua casa pobre, mas segura. Macabéa abriu os olhos e lembrou de todas as pessoas… A que amou, a que perdoou, a que acolheu, a que se escondeu quando precisou. Fechou os olhos e uma lágrima escorreu, lembrando das pessoas, as ruins e as boas. Quase sem querer, não mantinha as imagens definidas… Elas se difundiam e confundiam, e sua história fazia-a duvidar do que queria… Questionava sua própria bondade e desacreditava na alheia maldade. Para todo mal havia um passado de dor, mesmo naqueles que lhe causaram o mais frio horror!  Nem Rodrigo, nem Clarice daquela sensação tomava nota, mas a bondade de Macabéa fazia dela uma idiota!

Dormiu sem tentar e de manhã, ao despertar, seus movimentos não respondiam à expectativa do corpo, seus membros já não eram poucos. De barriga pra cima, Macabéa não conseguia se olhar, não se virava e só suas patas pareciam tentar! Se debatendo na cama percebeu sua lateral, era quase em escama sua nudez natural. Suas asas nas costas serviram de impulso, suas antenas pareciam buscar um curso… Caiu de barriga e sentiu-se segura! Perdeu o polegar e usava todo braço pra caminhar, não controlou sua velocidade e começou a voar! Antes de bater na parede, sua barriga tomou a frente e suas asas e patas, como num acordo, lhe fizeram um suave pousar. Andava de lado, tentou ir devagar… Podia ver o chão quando no teto pôde chegar. Desceu pelo armário e mesmo de porta fechada se pôs entrar, buscava o espelho manchado, queria se olhar! Mesmo no escuro, parecia tudo enxergar, e aquela condições foi lhe dando motivação até para o emprego largar!

A luz do dia insistia em penetrar, e Macabéa tomou coragem, saiu do armário para se enfrentar! Passou por baixo da porta, chegou ao azulejo frio do banheiro e subir na louça foi mais difícil não escorregar. Resolveu arriscar, pôs a barriga  liderar o voou ousado à se encarar. Na frente do espelho, suas antenas inquietas, seu peso tão leve, suas asas marrons e antes da sua inteira imagem, pôs-se a se acordar! O chamado da enfermeira, o alarme a soar, não arrancaram Macabéa de sua cama a espreguiçar. Antes de aceitar que lugar de gente boa é seguro no hospício, ela há de ser barata em todo seu resquício.

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