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Acordou certa manhã metamorfoseada em ser humano. Tinha um corpo estranho que não sabia o que fazer com ele. Uma voz esganiçada e um olhar perdido. Saiu do quarto e tinha uma família lá. Mas eles agiam como se não a vissem. Falavam com ela até mas com a humana que pensavam que ela fosse. Nunca notaram que ela era coisa outra lá por dentro.

Pelas ruas andava ainda com medo de ser pisada como nos tempos de inseto. Tinha medo das pessoas e não as compreendia. Perdia horas olhando para o chão procurando seus iguais. As vezes se esquecia o que era e deitava com eles no gelado de cimento e eles fugiam. Queria fugir do horror que era também mas não tinha mais frestas que coubesse.

Tentou aprender coisas de humanos. Era tanta esquisitice e tanta coisa a toa que faziam que a deixavam confusa. No fim não sabia mais ser coisa alguma. Era um corpo que não sabia usar com ela dentro que não lembrava mais ser. Seria qualquer coisa então diziam. Mas não havia coisa que a descoisificasse.

Foi ficando esquisita. Olha mãe aquela moça. Que estranha ela. Não é uma de nós mas também não pode ser uma de outros. Não tem outros para ser. Não tem para onde correr. Quando o chinelo levanta só pode correr até o próximo chinelo. Sempre tem alguém para atirar coisas e para apontar o dedo.

Tentou segurar em dedos, olhar em olhos, acreditar nas coisas. Todas humanas demais. Tentou falar com as vozes de dentro. Eram muitas e gritavam. Quem tinha razão ali dentro não sabia. Sabia que um dia foi inseto e que não teve voz dentro, que era mais simples a vida. O tempo não era essa cumpridura que nunca acaba e não se sabe tanto até doer por não saber mais.

Um dia parou. E foi despensando, dessabendo, desquerendo, desdoendo. Desfez o que nunca foi e teceu de fora para dentro uma teia de nada. E nadando nadando até o fundo fundou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagem: Metamorphosis by Cris Vector

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