Por Michel Euclides (convidado)

Ela atendeu no segundo toque. Havia perdido o sono pela terceira vez naquela semana, mas seu médico vivia dizendo que, devido ao trauma, seu sono nunca seria normal.

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— Alô?

— Lúcia?

— É ela. Quem fala?

— Sou eu.

— Carlos? Não reconheci sua voz. Nem o número.

— Não estou ligando do meu celular. Preciso falar com você.

— A essa hora? O João Paulo tá aqui!

— Não, não, por telefone não! É que… eu não aguento mais, Lúcia! Precisamos mesmo conversar.

Silêncio. Ele pensou que ela ia deligar.

— Amanhã às nove, pode ser? No estacionamento do hospital.

— Está ótimo para mim – respondeu ele.

— Isso é loucura, Carlos!

— Não é, e você vai ver. Até amanhã.

Ela desligou. Ouviu um barulho no corredor e, ao se virar, viu que o marido a olhava.

— Perdeu o sono mais uma vez, querida?

Lucia sorriu e colocou o telefone sobre a mesa.

— Não foi nada, meu amor. Volte a dormir.

Ele caminhou até ela e, num gesto rápido, pegou o aparelho.

— Quem era? A essa hora?

— Ah… era engano – disse. – Atendi porque podia ser algo com o papai. Ele está meio ruim esses dias. Você sabe.

Ele fez que sim. Colocou o telefone na base, pegou a mão dela e, sorrindo, disse:

— Vamos dormir. Vai ficar tudo bem.

 

 

*   *   *

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O celular vibrou às oito e meia. Uma mensagem.

 

Carlos, nosso encontro ainda está de pé?

 

Era Lúcia! Digitou:

 

Às nove, no estacionamento, como combinamos. Você vem?

 

Após alguns segundos, a resposta:

 

Mal posso esperar.

 

Sentia-se dividido. Revê-la depois de tudo… quanto tempo fazia desde o acidente? Três anos…

As coisas que fizera… no começo havia sido pelo dinheiro. Mas depois, quando percebera a tristeza e a confusão dela, jogada no meio daquela grande mentira… e parte daquilo era culpa dele!

— Não consigo amá-lo, doutor – dissera Lúcia, após um reencontro difícil com o noivo. – Há algo nele que me trava.

— Dê tempo ao tempo – respondeu. – Você vai lembrar.

— E se não conseguir?

— Vocês vão redescobrir o sentimento – falou, mas não havia firmeza em sua voz. E ela percebera.

 

 

*   *   *

 

 

Ele entendeu que estava apaixonado nos últimos dias dela no hospital. Passavam muito tempo juntos, e riam muito. Começou a se atrasar para os plantões ao perder a noção do tempo.

Estar com ela iluminava seu dia.

— Gosto muito de você – disse ele numa daquelas manhãs, ao percebê-la triste e confusa.

Ela sorriu e ajeitou o cabelo.

— Eu também – disse.

Ela recebeu alta, mas eles se viam uma vez a cada semana, para exames de rotina. Depois começaram a se ver todos os dias, e logo estavam envolvidos. Ele sabia que era errado, mas quando estava com ela esquecia de tudo.

Menos da mentira. Essa só aumentou, comendo-o como um câncer. Havia noites em que acordava suado e chorando, gritando o nome dela.

Não conseguia mais aguentar a culpa.

— Mas isso vai acabar logo – sussurrou, e sorriu lembrando do perfume dela.

 

 

 

*   *   *

 

 

Às oito e cinquenta e cinco estava no estacionamento. Acendera um Marlboro, e era incrível o poder da nicotina em ajudar. Sentia-se mais focado e seguro.

— De hoje não passa – pensou.

Ele viu o carro dela entrar no estacionamento. Como era pontual! Não contava as vezes em que ela se irritara com seus atrasos.

Acenou. Ela virou o carro em sua direção e ele sorriu

Lúcia não diminuiu a velocidade. Estaria ela sentindo alguma coisa? Era improvável, depois de tanto tempo e de todos os exames que fizeram…

Foi rápido demais: ela deve estar só brincando e, de repente, estava sob o carro, a visão escurecendo, a dor e a consciência se dissipando numa quentura lenta.

 

 

 

*   *   *

 

 

Havia muita gente no estacionamento quando ela chegou. Atrasara-se dez minutos – Que ódio! – por que estava sem carro. A bateria da moto do João Paulo pifara, e ele saía mais cedo que ela. Nada mais natural que emprestar seu Celta.

Ela se aproximou da multidão e viu o carro vermelho afastado da confusão. Onde estivera antes, o corpo de Carlos jazia numa poça de sangue, braços e pernas virados para os lados errados.

Sentiu as pernas falharem e alguém a segurou.

— Tá tudo bem, moça?

— Não – disse, mas mal ouvia sua própria voz.

No meio do tumulto, reconheceu a voz do marido.

Ele estava sentado numa cadeira branca, e dois policiais o interrogavam. Ele parecia calmo. Olhou mais uma vez para o carro e viu o para-choque amassado e manchado de sangue.

João Paulo olhou para ela e sorriu. O policial perguntou algo que ela não entendeu, mas a resposta dele foi cristalina:

— Foi um acidente. Ele estava no meu caminho. Foi apenas um acidente.

Um dos policiais anotou a resposta, o outro começou a dispersar a multidão. Uma ambulância pequena se aproximava, as sirenes desligadas. No chão, Carlos e o sangue dele.

Foi apenas um acidente.

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