Por Paulo Lai Werneck (convidado)

buracocomalien
Ilustração do autor

 

Acordei e fui tomar meu café na mesa da sala. Sentei como sempre faço, de costas para a janela, frente a uma grande estante de livros, notei naquele momento um buraco na madeira da minha estante, eu nunca havia notado este buraco, um buraco estranho que transpassava a madeira, pensei logo nos cupins, ou melhor, nas brocas que são afeitas aos buracos maiores como era aquele que eu observava.

Levantei e fui ver o buraco de perto, era diferente, não parecia de bicho, nem real. Tinha uma vibração, parecia uma imagem, peguei uma caneta e a introduzi no buraco. Era real. Não sei porque, mas voltei a ficar preocupado com a broca, o estrago é muito maior que o dos cupins. Pensei melhor, dá essa impressão, mas o estrago do cupim também é devastador para a madeira, embora silencioso.

Foi o tempo desta elucubração e voltar a olhar o buraco, ele não estava mais lá. Sentei novamente e percebi que na minha camiseta, no braço esquerdo tinha o mesmo buraco, não entrei em pânico, pois o buraco era insólito demais para uma reação tão primária, coloquei meu dedo como um São Tomé e constatei que também transpassava o meu braço. Não senti nada.

É óbvio que não tenho sangue de barata, mas antes que a sensação de pânico chegasse à medula, notei que ao desviar o meu olhar para a parede, lá estava ele, o buraco. Ah, o olhar! Experimentei olhar para a mesa e nada, ainda continuava na parede.

Tinha acordado com uma preocupação, ler o texto da segunda-feira no blog do Enlace Literário, deixei o buraco na parede e fui para a mesa do computador.

Abri o blog no link do texto Meta morfose, que foi o que eu deixei no desktop, e avancei para o conto da segunda, o Revivente, mas o buraco, novamente o buraco, agora na tela do meu computador, vazando o texto, vazando o monitor. Deixei para ler depois, mas se não me engano, li algo sobre a Lei de Murphy.

Isso! Lei de Murphy, será que tem o dedo dela nesta situação? Parecia que não, a Lei de Murphy é estatística ou probabilística se quiserem, os de bem com a vida a tacham de pessimista, os cientistas procuram uma equação para prová-la, os filósofos por seu lado, dizem que ser filósofo, é a comprovação de que existe a Lei de Murphy.

Lembrei de quando eu era moleque e peguei a geleia de framboesa importada que minha irmã ganhou de sua madrinha, o pote não era grande. Após passar manteiga numa bela fatia de torrada, lasquei-a toda por cima numa generosa camada. Caiu no chão, virada para baixo, claro.

Cumpria a Lei de Murphy, até em seus requisitos humorísticos que hoje andam por aí, dizem que a probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional ao valor do tapete.

No meu caso, caiu no carpete da sala, por um lado foi bom, pois a minha tentativa desesperada de retirar a vermelhidão cranberry do carpete, havia se alastrado numa soberba mancha, o carpete foi todo retirado, mas eis que surgem os velhos e bons tacos.

Minha irmã por outro lado tinha uma interpretação diversa, caiu virada para o lado da geleia, porque a geleia era dela, bem feito! Ou seja, aconteceu como um castigo e não por ser um fato físico probabilístico.

Pode-se pensar que seria como arriscar, com 50% de chance de acerto, dizer o sexo do bebê antes do ultrassom? Ledo engano, para a torrada com manteiga e outros breguetes, estima-se 81%, caso siga os mesmos parâmetros de um teste feito em laboratório, mas mesmo que não os siga, seguramente não será 50%.

Deixando a minha infância e esse famoso axioma de lado, pois no caso, não há aqui, ao meu ver, o certo e o errado da situação.

Não era um buraco físico, daqueles de rua, tipo cratera no asfalto, onde os carros experimentam solavancos ou as vezes graves cortes em sua camada de borracha, muito menos um buraco de bueiro aberto.

Não era um buraco que criava mirabolantes túneis multidimensionais e para a minha tristeza também não era uma espécie de Aleph. Era apenas um buraco, um buraco não físico, seria um buraco alucinógeno, como o da Alice?

Com certeza não era um buraco escatológico, ainda bem. E com mais certeza não era um buraco negro, era somente um buraco vazado, quase que um buraco tecnológico, seria um buraco de raios X intermolecular transmutacional autônomo?

Ou uma brincadeira daquele nerdinho, a peste do filho do seu Alberto do 4º andar, a quem eu fui obrigado a dar aulas de pintura alienígena?

É a vida não está fácil, nada de impressionismo, expressionismo abstrato, ou qualquer outro ismo na pintura, somente aulas para cenários de fundo de games de ficção científica e seus diversos aliens retro-pré-históricos.

Será? Procurei primeiro, olhar discretamente para os objetos ao meu redor, pois se fosse uma pegadinha, eu poderia estar sendo filmado. Bem, acabei dando uma ajeitada no cabelo e depois fiquei discretamente traçando linhas imaginárias nos locais onde vi os buracos, para inferir a localização de tal aparelho.

Ao entrar na sala novamente deparei com o buraco no chão, dava direto na sala do apartamento abaixo do meu, lógico. Por ele vi um homem tentando levantar uma mala pesada, não conseguiu. Acabou arrastando a mala e lembrei do filme do Hitchcock, seria este um buraco indiscreto?

Certamente era bobagem da minha cabeça, mas fui verificar se a porta estava trancada, estava. Espiei pelo buraco do olho mágico, vi o pestinha rabiscando aliens por toda a parede do outro lado do hall, dane-se, hoje não era dia de aula.

Voltei ao buraco que me sugava a atenção, a imaginação e a capacidade de pensar lógica e linearmente. Eu precisava me concentrar, mas estava envolvido numa espécie de entorpecimento mental, geralmente quando sinto isso, vou para frente do espelho me olhar, olho no olho, encarar frente a frente os fatos.

No espelho do armário do banheiro havia um buraco, dava bem no vidro de pílulas. Havia ainda uma ou duas pílulas para dor de cabeça, paciência, não estou com dor de cabeça, estou apenas esburacado. Ri sozinho.

Neste momento virei a cabeça e vi no espelho, muito engraçadinho, pensei, esse buraco também tinha senso de humor, agora transpassava minha cabeça de lado a lado, do hemisfério esquerdo para o direito.

Uau! Era justamente a ponte que eu precisava, fiquei com vontade de introduzir um pen drive com milhares de livros, mas pensei no ridículo da ideia.

E se não houver uma conexão USB cerebral? Sabe quanto está custando um pen drive de 1 tera? Pois se fosse arriscar, eu não ia colocar apenas um punhado de gigas. Peguei o celular para fazer uma ligação, sabe lá para quem e dizer o que? Buraco, um tipo diferente de buraco, desisti.

Precisava comer para não dar hipoglicemia, comi duas barras inteiras de chocolate, numa delas estava lá o dito cujo, mandei ver assim mesmo. Fui dormir um pouco e recebi o troco, acordei ao ser engolido por um buraco.

Pronto era apenas um sonho! Mas essa hipótese foi imediatamente refutada pelo buraco no vidro da janela fechada por onde um vento frio entrou assoviando.

Adotei a seguinte premissa: da mesma maneira que ele se instalou por aqui, ao verificar que não tem nada que interessa a ele no meu apartamento ou em mim, irá embora assim como chegou, naturalmente.

Tive então a ideia de assistir TV para relaxar e esquecer do assunto. E eis que ali se encontrava o buraco, mas agora dentro de um outro buraco de trocentos e tantos canais, pelo qual exercitamos a ilusão de ver as vezes do outro lado, a realidade e em outras, imaginando preencher o buraco existencial de nossas vidas. Essa última parte disse em voz alta, encarando o espertinho.

Dito isso, pensei que me livraria dele, porque eu com a minha perspicácia o havia desmascarado, mas não, hoje está fazendo quatro dias que ele me acompanha, assim silenciosamente, sem nada pedir, sem nada a oferecer, quem sabe, eu seja exigente demais em procurar alguma explicação, talvez seja apenas um buraco e nada mais.

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