Não me lembro desde quando comecei a brigar comigo mesmo, mas tenho certeza de que esta treta me acompanha desde que comecei a tentar ser um ser humano melhor. Num momento histórico onde todas as podres raízes da condição humana começa a aparecer, e fazer-nos perceber que nosso comportamento afeta direta ou indiretamente as outras pessoas, ainda mais àqueles que compõe os dois extremos da condição social: Os (poucos)  que têm muito e os (muitos) que têm pouco. Porque nosso comportamento “natural” sempre favorece os que têm muito e fodem os que têm pouco! Um olhar entrega meu machismo; uma frase, meu racismo; uma brincadeira, minha homofobia; uma festa, meu especismo… Uma vida, meu preconceito enraizado sem tempo de ser analisado por mim antes dos olhares que vigiam os opressores de suas condições privilegiadas nesta sociedade capitalistamente naturalizada! Me coloco como vigia desde que me sinto vigiado até no banheiro. Minha primeira masturbação foi quase escondido de mim mesmo, de olhos fechados… E com a mão melecada pedi perdão àquele que me vigiava do alto, de longe, só me julgando, condenando meu prazer errôneo e sujo. Me olhava como que num buraco de fechadura, num olho mágico… Maior que isso, há buracos de acesso à minha vida por todos os cantos, mesmo quando sem parede ou sem canto, se fazia um buraco no céu com um olho em mim e o outro que se virava pra cuidar dos outros seis bilhões na época, fora os animais de outras espécies que depois foram por mim incluídos neste vigiar desdenhoso, que só olha e nada faz. Daí cansei, matei deus até ele vir me matar! Enquanto isso, àqueles não vigiados por ninguém continuam a lucrar e fazer a gente vigiado a obedecer com medo de se julgado por um destes buracos que exibem nossos passos o tempo todo pra alguém que nunca ninguém conhece, mas tudo sabe de todo mundo! Quando você acha que dá pra respirar e se perder num bar, a bebida de milho e arroz transgênico abre os buracos de novo com as pupilas da verdade pra te lembrar que você não deveria estar onde você está, gastando um dinheiro que você não tem, explorando a menina que trabalha a noite e mora pra lá do Grajaú, te faz sentir o cheiro da carne que queima na esquina e vai virar jantar. Daí você paga com o que o banco vai te cobrar triplicado, olha pra quem dorme na rua e sente culpado por ter uma cama quente e seca te esperando. O buraco abre na calçada e depois que matei deus, já são mais de seis olhos que competem pra onde eu devo olhar pra continuar sendo saudável, social, agradável e pagar as contas em dia. Eu fico pensando se ninguém tá vendo estas porras deste buracos todos, cheio de dedos duros de pouco ação e olhos secos, porque se eu fosse mais de mim mesmo, eu espetava um palito de churrasco e cutucava estes buracos até descobrir o que tem do outro lado, que deve ser um porre ressacozo de inutilidades que fazem estes malditos ficarem o tempo todo arrombando minha atmosfera pra saber se a cueca que eu visto foi fabricada pela mão de obra de crianças órfãs do outro lado do planeta, e perguntar porque eles não vão vigiar os filhos do capeta que fazem o trabalhador comum, que só quer curtir um futebol de domingo, sem ir à missa de manhã, carregar a culpa da maldade, do sadismo, da indiferença que deveria estar pinçado feito nervo em cada espaço de articulação que estes malditos, que não sujam as mãos pra nada, nem de terra santa, porque compram a fome dos que sofrem na ação e as concluem como num desafio desonesto na tentativa de ser reconhecido como ser humano?! Porqueeeeeee… Eles não vêem os buracos!! Quem vê os buracos, o tempo todo, é aquele que se importa e se fode porque não pode fazer muito mais do que morrer engasgado com a indignação de viver numa realidade arbitrária e impositora que te faz fazer merda pra poder ser legal, com mais um monte de perdido fazendo merda pra poder ser legal, com mais um tanto de narcisista que fazem merda pra poder ser legal, com os poucos burgueses que mandam fazer as merdas pra eles darem as festas mais legais que todo mundo quer participar, porque é vendida como as festas mais legais entre tanta merda que a gente vai acostumando a aceitar…

E acho que a hora que estes buracos todos fecharem eles calam meu coração! Porque eles só estão fora, aqui dentro… hã! Aqui dentro, não!! É por não ter buraco no meu coração que minha cabeça vê as lacunas que fragilizam a contemplação da vida. De todos!

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