Desde pequena eu sempre me senti fora do meu corpo correto. Eu gostava de brincadeiras, roupas e tive ídolos diferentes do que se esperava de mim. Como se minha consciência tivesse sido sugada por algum aspirador sobrenatural ou buraco negro, e tivesse sido enfiada via outro buraco em outra pessoa, em outro corpo, em outra vida. Como se tivessem me trocado na maternidade, de algum jeito maluco trocando o corpinho de um bebê com o de outro. Não sei. Só sei que queria matar quem me fez isso.

mulher de costas triste
(Crédito das fotos desconhecido)

Seja como for, não sei ou não tenho como sair deste corpo. O máximo que pude fazer, com muita coragem, há uns três anos, foi tentar adequá-lo para se parecer o máximo possível com o que eu sei ser de verdade. Isso foi extremamente compensador para mim mesma, pois agora me olho no espelho com alívio e orgulho. Vejo minhas fotos de antes e depois com alegria ao ver como pareço agora.

Mas não foi fácil não. Foi e é caro. Trabalhoso. Invasivo. E todos me olham o tempo todo. Me vigiam. Me condenam. Recriminam-me por eu tentar parecer quem sempre senti ser. Sou alvo de piadas maldosas o tempo todo.

O mais ridículo é testemunhar a hipocrisia constante dos homens que, em público, diante dos amigos, me atacam, com todo o escárnio, para não serem julgados eles mesmos pelos outros. Porém, às escondidas, tentam ficar comigo. Por quê? Você me pergunta, por que os atraio assim? Até, com uma frequência significativa, mais do que se atraem por outras meninas que aconteça de estarem por perto, ou me acompanhando?

Não posso dar certezas. Não sou eu quem decidiu que fosse assim. Mas talvez por que eu goste de me arrumar bem, de parecer e ser mesmo muito feminina. E os homens gostam disso. Talvez eu tenha isso bem desenvolvido — e com segurança e muito bem resolvida a respeito, agora. Apesar de viver uma vida no corpo errado.

Eu ficava contente por essa atração que eles têm por mim. No início, isso era uma coisa espetacular. Até uns antigos colegas diziam “como eu mudei”!… E aqueles que tiravam sarro de mim na escola — que eu me vi forçada a abandonar, tamanha era essa infernal falta de aceitação, inclusive na hora de usar o banheiro — , ou mesmo meus primos, que tentavam me levar em puteiro pra “aprender a pegar mulher e virar homem de verdade”… todos esses, anos depois, passaram a tentar me conquistar, ficar comigo, me levar em motel.

E é claro que, dependendo de como fosse a abordagem masculina, eu gostaria sim. Eu gosto de homens. Desde pré-adolescente, sempre gostei. E gostaria muito de me casar com meu príncipe e ser feliz, como nas historinhas de contos de fadas, que terminam dizendo que “eles viveram felizes para sempre”. Mas me desiludi. Porque nenhum me assume diante dos outros, ou numa relação mais séria. Tem que ser às escondidas. Só me experimentar, como fetiche, aventura, sei lá.

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Por mais que se atraiam por mim à primeira vista, eles parecem ter medo de parecerem gays por ficarem comigo. Ficam com aquele pé atrás, quando ouvem a minha voz. Quando percebem algo de diferente em mim. E lá vêm acusações e brincadeirinhas de que sou “trap” (armadilha). De que não sou “uma moça”, não. Mas eles não deviam ter esse medo de parecerem gays; pois, se atraíram-se por mim, foi pela mulher que eu sou; não pelo homem que não sou — a despeito do que se diga. Atraíram-se pela feminilidade que transpareci, talvez até mais do que em outras mulheres que conheceram.

Lembro com dor de quando estive apenas tentando me divertir e namorar na balada, como qualquer jovem; mas depois o cara, quando percebeu qual era originalmente meu corpo biológico, me espancou até praticamente me quebrar o nariz e costelas; tive que ir pro hospital. Quem conhecia o rapaz, imagino que iria zoá-lo pela vida toda por ter ficado comigo. Mas parece que ter me espancado salvou um pouco sua reputação de “macho”, ganhando com isso apoio dos colegas.

Tudo o que eu queria era que reconhecessem que sou uma mulher. Não inferior ou menos mulher que qualquer outra. Não uma piada; não uma aberração. Reconhecessem apenas que sou Sabrina; percebessem que, se me apresento como mulher, vestida de mulher, se meu nome é de mulher, então me tratem como mulher, com o respeito que — espero — tratariam a qualquer uma delas. A despeito do que você ache que eu pareça. E a despeito de qual seja o meu nome originalmente ou ainda registrado no meu documento de identidade — que não te interessa; se eu o abandonei, é porque não o quero.

Pode parecer bacana me ridicularizar, confortante e “cool” ser visto perante a sociedade tirando sarro de mim, me chamando de certas coisas; se você é homem, isso te deixa mais aliviado em relação à sua insegura masculinidade, apesar de me desejar, é isso? Se você é mulher, se afasta de mim só pra não ter concorrência? Pode ser bacana fazer piadas com gente como eu. Mas você não ia gostar se estivesse no meu lugar.

Você me acha estranha? Ache. Mas guarde sua estranheza pra você. Assim como suas perguntas sobre o que tenho debaixo das pernas. Como você se sentiria se um recém-conhecido fizesse perguntas sobre o tamanho do seu pênis, se você for homem; ou sobre sua vagina ou seios, se mulher? Deixe-me em paz. Quero apenas viver minha vida, sobreviver — com o que, imagine você o que me restou — e ser feliz.

mulher andando pro mar

(Em homenagem à Vivian Vieira e Viktor Shinoda)

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