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João acordou com uma forte dor de cabeça. A luz que se filtrava pelas persianas do quarto era ofensiva, e o barulho do despertador juntou-se à náusea que crescia dentro de si. O rádio-relógio sobre a cômoda marcava seis da manhã.

Deitou de lado e vomitou no tapete.

— Deus, eu não deveria ter bebido tanto…

Caminhou até o banheiro com dificuldade, segurando-se nas paredes. Ligou o chuveiro e a água fria trouxe uma nova dor, ainda mais fina e intensa. Mas era necessário. Não poderia faltar à reunião.

Após o banho sentiu-se melhor, mas enquanto escovava os dentes, vomitou mais uma vez. Lavou o rosto, enrolou-se na toalha e seguiu para trocar de roupa.

Ao entrar no quarto, apanhou o celular para ver a hora: seis e trinta e dois. Havia uma mensagem não lida:

“A noite foi maravilhosa. Tão boa que eu gostaria de estar no seu lugar. ”

Lembrança vaga de uma linda moça loira de olhos castanhos e cheiro de jasmim. Trouxera-a para casa, mas não lembrava de muita coisa.

Começou a se vestir, mas ficou tonto e, enroscado na calça à altura dos joelhos, caiu. Bateu a testa na quina da cômoda e apagou.

Despertou com mais uma dor.

Levantou-se devagar com um grunhido, ajeitou a calça e foi até o banheiro. Havia um corte sobre a sobrancelha esquerda, e muito sangue. Lavou a testa e estancou o sangramento com uma toalha. Colocou um pedaço de esparadrapo sobre o ferimento e percebeu que seu olho começava a ficar roxo.

— Que ótimo. Parece que não vou poder ir ao trabalho mesmo.

Apanhou o celular sobre a cômoda e discou para a empresa. Já passava das sete, com certeza alguém atenderia.

— Estúdio 8, João, bom dia!

— Desculpe, quem fala? – perguntou João.

— Aqui é o João, senhor. Em que posso ser útil?

Aquilo deveria ser alguma brincadeira.

— Olha, camarada, não sei quem é você, mas aqui é coisa séria. Com quem estou falando?

— Aqui é João Nunes, senhor, gerente de Mídias. Em que posso ajudá-lo?

Aquela voz… era a dele! Deveria ser algum tipo de pegadinha.

— Olhe, rapaz… seja lá quem você for, aqui quem fala é João Nunes. Passe o telefone para a Patrícia, por favor. E quando eu chegar aí, você vai estar encrencado.

— Senhor, deve estar havendo algum engano. Eu sou o João Nunes – disse o outro ao telefone.

— A Patrícia, por favor – disse João, sentindo a cabeça latejar. O corte ardia, e sentia o lado esquerdo de seu rosto inchar. Ouviu vozes e o telefone passando de mãos.

— Patrícia, bom dia, em que posso ajudar?

— Patrícia, graças a Deus! Quem é o idiota se passando por mim ao telefone?

— Desculpe, mas… quem é o senhor?

— Por Deus, Patrícia, sou eu! João!

— João? Que João?

— João Nunes! Patrícia, que brincadeira é essa?

— Desculpe, senhor, mas acho que a brincadeira é sua. O João Nunes está aqui ao meu lado, e ele também não está gostando disso. Passe bem!

Patrícia desligou o telefone. João ficou com o fone no ouvido, perdido entre a dor e a confusão. O que estava acontecendo?

Trocou de calça, colocou uma blusa e sapatos limpos, apanhou a carteira e as chaves do carro.

Ao entrar no automóvel, percebeu o inchaço no rosto e o olho arroxeado. O relógio do painel marcava sete e quarenta.

O trânsito não fluía. A dor não passava. João estava confuso e cansado.

Ao ligar o rádio, ouviu a voz suave e estranha de Jim Morrison cantando “The End”.

Que hora para tocar The Doors.

Demorou quase uma hora entre buzinas e freadas até finalmente chegar ao edifício em que ficava o Estúdio 8. Era um bonito prédio de três andares na Avenida Santos Dumont, com uma fachada antiga de tijolos vermelhos e janelas de vidro.

A cabeça parecia estourar enquanto seguia para a portaria. Sabia também que não estava com o melhor aspecto do mundo, mas tinha de entender que brincadeira era aquela.

— Bom dia, Márcio – disse ao recepcionista.

— Bom dia, senhor João. Não tinha visto o senhor sair… Ei, o que houve com o seu rosto?

— Eu Caí. Como assim não tinha me visto sair?

— O senhor chegou cedo hoje, disse que ia preparar o encontro com a Patrícia e o Seu Diogo. Mas… a reunião já começou há uma hora!

— Não podem começar sem mim!

— Não começaram, senhor! Eu o vi entrar na sala com eles!

Impossível! Aquela farsa terminaria ali.

— Já entendi – falou João. – Vocês tiraram o dia para me sacanear. Mas chega disso!

— Senhor João… acho que o senhor não está bem. Está muito pálido… não gostaria de sentar um pouco e tentar melhorar?

— Me deixe em paz, Márcio.

João foi até o elevador sentindo-se cada vez mais fraco. Sua mente estava pesada e lenta. A dor de cabeça misturava-se à do corte, e seu olho esquerdo ameaçava fechar por completo.

Olhou-se no espelho enquanto subia: estava irreconhecível. A barba por fazer, o rosto inchado e arroxeado, a roupa suja e amarrotada… Era esse o Gerente de Mídias do Estúdio 8?

Chegando ao terceiro andar, cambaleou para fora e caiu de joelhos. A sala de reuniões tinha paredes de vidro, e lá dentro três pessoas discutiam as pautas da semana. Patrícia: Gerente de Marketing; Diogo: Presidente e Proprietário; e João, o Gerente de Mídias.

Ele estava, ao mesmo tempo, dentro e fora da sala!

Após um instante de confusão, sentiu – ouviu? – um forte estalo dentro de sua cabeça e um zumbido insuportável em seus ouvidos. Uma forte dor irradiou-se da base do pescoço em direção ao resto do corpo. Tudo ficou escuro.

Despertou. Via apenas com o olho direito. Não conseguia sentir seu corpo. O gosto de sangue tomava conta de sua boca.

— Quem é ele? – essa voz. Patrícia?

— Não sei – esse era o Diego. – O que ele disse, Márcio, antes de subir?

— Ele… é… não sei direito – respondeu o porteiro. – Pensei que fosse o senhor João, mas achei estranho, pois tinha visto ele subir mais cedo para a reunião!

— Márcio, você não deveria ter deixado esse homem subir – disse outra voz. Era ele, João! Mas vinha de outra pessoa! Tentou mover a cabeça para olhar quem falava, mas não conseguiu. – Espero que isso sirva de lição.

— Desculpe, senhor João – disse Márcio. – Não vai acontecer de novo.

— Muito bem – disse Diego, o chefe. – Alguém ligue para a polícia. Ou uma ambulância, não sei. Seja lá quem for, está quase morto.

— Vou fazer isso agora. Com licença – falou Márcio, e se retirou.

— Podem ir – O impostor. Eu. Incrível a semelhança da voz. Cada inflexão, a maneira pausada de falar… – Eu faço companhia a ele.

— Você tem um coração de ouro, João – disse Patrícia. – Vamos deixar para continuar a reunião à tarde?

— Por mim tudo bem – falou o falso João.

— Certo então. Vamos, Patrícia – disse o chefe, segurando-a pelo braço.

Fez-se silêncio na sala. Mas João sabia que não estava só.

— Ora, se não é o João – disse a voz. Sua voz. – Aposto que você não lembra de mim. Apesar disso, não deixo de estar surpreso com sua… força de vontade. Parece que demos azar, não? Eu não deveria ter atendido o telefone àquela hora. Você teria apagado em casa sozinho, e as coisas teriam sido mais fáceis. Mas… c’est la vie, não é? Cá estamos.

Havia agora apenas a voz. Fria, mecânica.

— Falta pouco agora, João. Quando a polícia chegar, ou a ambulância, você já estará morto. E eu terei tomado definitivamente seu lugar. Mas não fique triste! Eu me lembrarei de tudo o que você sabe. Eu serei você – ao menos por um tempo. Até me entediar.

Respirar estava cada vez mais difícil. Manter o foco era também muito complicado. Mas ele queria entender.

— Você deve estar se perguntando: “Por que eu? ”. Não há motivo especial. Apenas achei você bonito. E quando saí de sua casa hoje pela manhã não quis acordá-lo. Mas mandei uma mensagem. Você a recebeu?

Uma fraca lembrança. Um perfume de jasmim. Cabelos loiros e olhos castanhos. Era difícil lembrar. Não conseguia se concentrar. A dor diluía-se em ondas. Uma sensação de paz começou a tomar conta dele.

— Foi uma noite maravilhosa, João – disse o outro, aproximando-se de seu ouvido. Mas a voz agora era feminina, rouca e sensual. E soava cada vez mais distante. – E eu realmente gosto de estar no seu lugar.

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