Ilustração do autor

 

Uma vez perguntei a um amigo, se ele tinha vontade de ser outra pessoa, alguém famoso. Eu estava sentado no chão vendo alguns discos de vinil, só para dar uma ideia de tempo, em alguns anos entraríamos na era do CD.

Ele parou ao meu lado, esperou eu olhar para cima e perguntou: – Não, por que? E você quer ser ele? Apontou. Eu estava segurando um disco do Lou Reed, mas eu não queria ser Lou Reed, queria ser Van Gogh. Antigo isso não é?

Ser Van Gogh, naquele tempo já era unanimidade, artista famoso, etc. todos queriam ser, mas será que iriam querer a sua angústia? Ser o Van Gogh angustiado, não correspondido, achando-se ora exitoso, ora fracassado numa possível crise de bipolaridade? Para quem você iria enviar sua orelha? Quem hoje em dia seria o seu Gauguin? Que luz você iria descobrir no sul da França, já estando nos trópicos?

Desde que saí daquela conversa o (((– Não, por que?))) ainda ecoava, quando descendo a escadaria do metrô da Sé, encontro com uma pessoa igual a mim, idêntica, como se fosse eu mesmo subindo a escadaria. Lançarei mão aqui de um recurso muito utilizado em contratos e/ou textos afins. Eu designo, Pessoa igualzinha a mim, doravante e em qualquer situação, Eu mesmo.

Porém o Eu mesmo estava de maleta tipo 007, sapato preto, terno e gravata, tinha cabelos curtos, enquanto eu era uma espécie de rebarba hippie, ainda muito comum no início dos anos 80. Eu mesmo subia de cabeça baixa, parou para ver as horas, mas o contra fluxo o obrigou a olhar para o lado. Foi neste exato momento que o Eu mesmo me viu.

Lembrei imediatamente de Borges, do conto O outro, do Livro de Areia. Entretanto o Outro do Borges era diferente do O outro publicado aqui no Enlaces Literários, um Outro usurpador, embora os dois sejam igualmente contos. No caso de Borges, ele encontrava o seu Outro, num banco de jardim de uma praça na Inglaterra, de uma calma que daria inveja a nossa praça da Sé.

Num outro conto, Borges começa utilizando um artifício, dizendo que apesar de ser um acontecimento fantástico, no caso, era um acontecimento verídico. O meu caso é verídico, embora também ache a situação um tanto quanto fantástica.

Desde que vi Eu mesmo subindo a escada, assim num repente, fiquei atônito e ele não fez por menos, estava tão admirado que ainda não havia abaixado o braço do relógio, mantendo a posição de ver as horas.

Eu havia lido algo a respeito, por isso recomendo ler contos fantásticos ou de ficção científica. Era alguma coisa relativa aos perigos de tocar no seu duplo, com certeza eu não iria arriscar tocar no meu duplo. Me aproximei, contornei o corrimão central, dei um passo, ele recuou outro. Parece que ele compactuava com o meu receio e não arriscaria a me tocar, mesmo que a curiosidade estivesse extrapolando a razão naquele momento.

Borges imaginou uma saída possível, o encontro dele, o Borges mais velho com o Borges mais novo no banco de uma praça em Cambridge num mesmo sonho. A mesma dúvida que surgiu em Borges, iria aparecer numa música de Raul Seixas que utilizava um texto de Chuang Tse. Esse bem humorado sábio chinês que havia elaborado a seguinte situação: Se era um sábio chinês que sonhava ser uma borboleta ou se era uma borboleta sonhando que era um sábio chinês.

Mas eu não poderia recorrer a isso, tinha certeza que eu não estava sonhando, elucubrava isso quando o Eu mesmo recebeu um encontrão no ombro e de quebra um xingamento. Não revidou como seria o nosso costume, pensei eu, com certeza, Eu mesmo estava ainda embaraçado com a situação.

Eu mesmo subiu alguns degraus e parou. Subi e parei também. Parecia ser um sinal para que o seguisse e foi o que fiz, até que saímos e fomos sentar no primeiro banco livre. Estava meio sujo, mas eu fui sentando direto. Eu mesmo retirou um jornal da sua maleta, coincidentemente ou não, era o jornal que eu lia na época, o Jornal da Tarde, diagramação diferenciada, etc. e sentou-se.

Neste momento senti que Eu mesmo era como eu, compartilhava de uma impossibilidade de falar espontaneamente com estranhos. Mas se Eu mesmo era o meu Outro, não deveria ser tão estranho assim. A questão era então a de sempre, talvez Eu mesmo me achasse estranho. Eu me achava estranho.

Quando eu finalmente ia perguntar, Eu mesmo fez a mesma coisa. Nos calamos, era muito mais embaraçoso do que pensávamos. O silêncio se fez necessário. Observávamos o fluxo, as pessoas nos olhavam como quem olhavam gêmeos. São idênticos, ouvi uma mãe dizer para a filha, mas mãe aquele outro lá tem um cabelão. Era eu a versão gêmea de Eu mesmo, uma versão hiponga, desleixado e metido a artista.

Isso me fez relembrar da minha decisão do que não fazer da vida. Não trabalhar num banco ou em qualquer outra coisa burocrática, não usar terno e gravata e jamais cortar o cabelo. Estranhamente na época eu não tinha barba, hoje em dia a situação obviamente se inverteu.

Eu mesmo por outro lado, apenas consultava o relógio, colocou o resto do jornal dentro da maleta e abriu o caderno principal, foi natural eu pedir o caderno Divirta-se, apontando o dedo para a perna dele, pois ele estava sentado justamente nele. Ele nem se alterou, não levantou. Apenas fechou o jornal que tinha em mãos e me mostrou a metade da capa, estava começando a ver a tal capa e aconteceu o inusitado.

– Borges! Exclamou o Eu mesmo levantando-se para dramatizar melhor a situação, espantou-me ser brusco e não o drama, que era exatamente como eu sempre fazia.

– Você lê muito Borges! Falou o Eu mesmo em tom de repreensão, quis retrucar mas ele continuou – Sabe quanto tempo eu levei para esquecer Borges? Eu sou um bancário sim senhor. Mas isso você já sabia, não é? Vi a sua expressão quando eu abri a minha maleta.

Agora fui eu que fiquei indignado, já em pé, perguntei, sem deixar de fazer drama, pelo contrário, aumentei a dose, colocando as duas mãos na cabeça. – Como você pode fazer isso conosco?

Eu mesmo me interrompeu dizendo com despeito: – E não era só Borges não, que pegava, eu nunca mais entrei num sebo, se você quer saber.

Para me defender, com as mãos para trás abaixei o corpo até estar perto de seu ouvido e disse num tom firme, porém baixo: – Olhe, eu não leio só Borges.

Eu mesmo virou bicho e foi categórico: – Ah, não, nem vem! Para cada livro diferente, você relia 5 Borges. Ou seja 1 passo para frente e 5 para trás.

Nos calamos, voltamos a sentar e olhar para baixo. Rimos ironicamente juntos, balançando a cabeça como quem diz não. Eu disse: – Eu não poderia ser você nunca!

Eu mesmo retrucou: – Nem eu seria você, aliás o que anda fazendo, além de expor-nos ao perigo? Mostrando novamente a capa do jornal.

Respondi perguntando primeiro: – Não dá para ver? Um pouco de nada e ao mesmo tempo tentando fazer um pouco de tudo.

Eu mesmo repetiu a fórmula e respondeu perguntando: – Imaginei. Quem quer abraçar o mundo faz exatamente assim, mas você viu a capa do jornal, não viu? Não está fácil, se ficar o bicho pega, se correr o bicho come!

Repliquei: – Eu sei você deve ter horário, entretanto neste aspecto nada mudou, ainda fica repetindo ditados populares para encerrar uma conversa, mas vou lembrar você de um conto do Borges.

– Qual conto, o outro? Perguntou Eu mesmo, assim meio jocoso.

– Sim, esse mesmo, se você não gostava como você se lembra? Perguntei usando o mesmo tom.

– Lavagem cerebral! Eu mesmo disse rindo e continuou falando: – Você quer uma moeda como no conto do Borges? Moeda eu não tenho, mas tenho isso! Esticou o braço oferecendo o jornal. Dava para sentir que o Eu mesmo se orgulhava da sua solução, afinal todo jornal tem a data.

Como são as coisas, eu nem lembrava desse detalhe. Perguntei para o Eu mesmo se ele não queria levar nada para certificar-se de que essa situação era real. Com a sua recusa, resolvi propor o que Borges propôs ao seu Outro, amanhã voltarmos aqui no mesmo horário.

Ele consentiu, pegou a maleta e quase de costas falou: – Mas você traz o jornal, ok?

Eu não fui, é claro. Não há como saber se o Eu mesmo tenha ido. Eu no caso quero aqui publicamente agradecer o autor do conto anterior, pela possibilidade deste enlace, colocando de vez um ponto final nesta história, que eu nunca pude contar a ninguém.

Se houvesse celular com a função de máquina fotográfica nos anos 80, uma selfie, eu e Eu mesmo, tudo estaria resolvido. Naquele tempo existia Polaroid, mas quem andava assim no dia a dia com uma a tira colo? Ou melhor, não era para qualquer um ter uma máquina Polaroid para sacar um instantâneo naquele momento, talvez o Eu mesmo que era bancário pudesse.

Confesso que não pensei nos pequenos estúdios fotográficos que existiam nas ruas adjacentes a praça da Sé, pena, até que seria uma solução.

Com o jornal daquele dia na mão, me pergunto, aonde andaria Eu mesmo? Será que neste momento, Eu mesmo não estaria naquele banco da praça da Sé em que sentamos, balançando a cabeça e decidindo novamente que caminho ele iria seguir? Eu com certeza escolheria ser eu mesmo.

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