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Ai das que carregam no ventre seus filhos e daquelas que amamentam naqueles dias! Porque haverá grande aflição na terra e ira contra este povo”. Lucas 21:23

Ela chegou no meio da noite, anunciada pelo badalar dos sinos de alarme e pelo chiado do vapor, exatamente como a menina tinha avisado.

— Mãe… — murmurou a garota, fazendo tentativas fracas de sair da cama improvisada que só conseguiam apertar as bandagens pelo seu corpo e o coração de Nova.

— Calma, Calma… — disse a guarda, passando as costas da mão naqueles cabelos brancos sujos de terra e sangue coagulado. — A Tia Nova está a… — Começou ela, apenas para ter a frase morta quando pelo trovão de um tiro fora do posto de trocas.

A garota começou a chorar e se virou para Nova, a fazendo sentir como se o olho restante da menina estivesse fitando a própria alma dela. As palavras “Vai ficar tudo bem”, dançaram nos lábios de Nova, mas no final a guarda apenas fez o sinal de mais no peito, deu um beijo na testa dela, apanhou sua besta de farpas e saiu rumo à porta de madeira e ferroseda do lugar sem dizer nada. Não seria certo mentir para uma criança.

Era uma questão de linhas, pensou ela enquanto puxava uma seringa contendo uma solução de catalizadores colérico-melancólicos. Linhas que não deviam ser passadas nem nas situações mais ferozes. Porque elas eram riscos na areia: cada pisada as apagava um pouco mais. E uma vez perdidas… Não restava nada da humanidade além das trevas e escombros que Nova fitou ao abrir a porta.

— O posto está fechado! — disse ela para o vazio, tremendo um pouco sem saber porque. — Seja lá o que for, volte amanhã!

— Ladra! — respondeu uma voz rouca na escuridão. — Devolva minha filha!

Nova suspirou fundo, enfiou a agulha no braço, e deu um assobio. Isso não ia acabar bem, mas ela ia garantir que fosse rápido.

Com o sinal, os perma-lumes vieram. De dentro do posto, do chão, dos arbustos e de toda parte os insetos humoristicamente modificados emergiram, alçaram voo e se acenderam, inundando a área com uma luz esverdeada que dava um ar fantasmagórico à tudo que tocava.

A solução que corria pelas veias da guarda aumentavam sua capacidade de reação, mas também aprofundavam suas emoções. Nova sentiu, mais do que nunca, a desolação daquela terra, e a pequenez da daquele bastião do progresso que a companhia tinha encarregado ela de defender. O posto era só uma coisinha pequena cercada em meio à carcaça de uma cidade morta. Por onde ela olhasse havia casas tradicionais que já foram o lar de gerações, mas agora só abrigavam ratos, ervas daninhas… e monstruosidades como a que a encarava.

— Você me ouviu! — rosnou a mãe da menina, uma mulher de uns trinta e poucos anos trajando um exoesqueleto enferrujado — Não me faça gastar balas!

— Eu estava vasculhando as redondezas em busca de espécimes para mandar de volta para a capital — disse Nova, olhando para frente — Então eu a achei. Meio roída, se afogando no próprio sangue, fraca demais até para chorar. Os arcanjos me perdoem, mas quase vomitei. Eu jurei para mim mesma que iria matar seja lá o que tivesse feito aquilo com ela. Então a primeira coisa que fiz depois a trazer para cá e estancar as lacerações foi perguntar que bicho a tinha deixado daquele jeito. — Nova parou, e ficou olhando para seu reflexo. Uma representante da civilização com fogo e rocha correndo nas veias contra uma selvagem envolvida por água e aço.

— Eu estava grávida durante a guerra. — disse a mulher — De quatro messes quando vocês jogaram uma bomba-sanguínea aqui. Meus amigos morreram. Meu marido morreu. Meu filho morreu. Mas ela… Ela viveu. Acho que é como aqueles hemovoros… Ela sempre vive, desde que a cabeça fique no lugar… E sempre me salva. Seja dos venenos, naquela época, seja da fome agora.

— Não importa — disse Nova. — Eu já vi muitos monstros nessa terra amaldiçoada. Coisas que assustariam a própria Tiamatu. Mas você. Você conseguiu passar de todos eles. Eu devia te matar, mas a menina está com pena. Vá embora e…

Antes que Nova pudesse terminar, a mulher gritou e, em uma explosão de vapor, deu um salto para o telhado do posto.

— Quem é você para falar de monstros!?! — disse ela, enquanto Nova corria para dentro — Você é uma hadense! Seu povo envenenou minha terra!

Com mais um soco, a mulher abriu um buraco no teto e entrou no posto. Nova tentou a atirar uma farpa envenenada, mas a oponente se jogou contra ela antes, levando a luta para o corpo-a-corpo. A guarda era mais rápida, mas não tinha como competir com a força bruta da armadura. Então ela olhou para a criança.

— Me ajude! — Disse nova, apenas para ver ela temer enquanto a mãe se aproximava —Espere! Para trás! — Gritou ela, apontando a besta para a menina.

— A nobre hadena usando uma criança como escudo humano — sorriu a mulher — Mas não ache que isso vai me fazer te…

Antes que ela pudesse terminar, Nova apertou o gatilho, e um grito encheu o posto. A guarda aproveitou a distração, a guarda atirou de novo, e o silêncio dominou o lugar.

— Monstros… — Disse ela, deixando a besta cair junto com as lágrimas — monstros por toda parte…

Victor Burgos

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