A terra seca ardia as solas dos pés descalços, que tanto já haviam andado e corrido, buscando no revezamento algum alívio. E agora estendido com os dedos no ar, exibia sua vermelhidão de terra e queimar, apoiados num tronco toco que sobrou de uma árvore seca. Seu corpo estendido no chão morto, rachado, machucado, protegido por um leve vestido florido, exalava terror e medo, numa respiração reticente, truncada, pesada. Ela não podia estar ali… Não podia parar e seu corpo lhe gritava o contrário. Não conseguia mais um passo… Apertou os olhos e deixou o zumbido ensurdecedor, que sobra na ausência das bombas, invadir sua cabeça e ampliar uma cegueira agora urgente!

… Abriu os olhos e viu o céu, num azul infinito, sem nuvens, sem pássaros e pôde sorrir sufocada em lágrimas.

Recuperou a respiração. Sentou. Olhou pra trás e não viu ninguém. A fumaça se esvaía e exibia esboços de uma aldeia assassinada. O silêncio agora tomava conta do lugar e deixava o medo assumir sua crescência novamente. Virou a cabeça subitamente, olhando para os lados, buscando atentar-se à todos os movimentos e sons que poderiam avisar-lhe para correr. Pegou o tornozelo com as duas mãos, trouxe o pé sobre a coxa e o encarou. Estava em carne viva e doía indefinidamente. Virou-se rapidamente e de quatro, correu para uma das cabanas atrás dela. O cheiro da fumaça densa lhe ardia os olhos, e suas mãos buscavam algo que protegesse os pés. Tropeçou num corpo sem perna… Uma velha sábia que passou a infância à azucrinar. Havia sangue em seu vestido de algodão cru, com franjas desfiadas à mão, numa tarde fresca de primavera que ilustrava os festivos momentos antes da colheita. Sua mãe lhe contara…

A terra seca já foi fértil e palco de danças em roda, sangue de sacrifícios e gozos festivos que fecundaram uma geração que sentiu o desvio do rio, a escassez do plantio e a institucionalização do amor e da gratidão. Ela, hoje com os pés feridos e aterrorizada com a capacidade sádica do ser humano, sente pertencer à última geração antes da moda virar uniforme, do asfalto asfixiar a persistente força da terra, da manipulação genética tomar lugar dos insetos da agricultura, de sentir pelos pés o preço de estar livre da indústria.

Estava em sua aldeia morta, cercada de seus pares mortos e lá sua alma, por instinto de sobrevivência, escolheu morrer.

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