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Jacek Yerka

A fuligem que lhe grudava no corpo tinha começado a provocar coceira há algumas horas. Agora, sequer lembrava que sob a roupa rasgada possuía alguma pele. Tudo havia se tornado uma coisa só: tecido, pele, linhas, pelos, fuligem, feridas que cicatrizavam e que tinha adquirido nos últimos dias. Até mesmo a desolação do descampado, que um dia fora chamado de belo naquele parque do planalto ao centro do país, se tornava uma coisa só com sua alma.

O fogo tinha consumido tudo. Precisavam de espaço para a indústria, era o que dizia desde os folhetins até os maiores jornais da capital. Diferente dos pasquins que alguns ainda tinham coragem de colocar às portas das farmácias, padarias, praças – qualquer lugar em que uma alma transitasse –, os quais diziam e repetiam a calamidade nos interiores. Um interior de terras, pessoas, cultura…tudo mortos. Mortos devido a um progresso imposto por um governo cada vez mais tirano.

Falar contra a indústria que vinha crescendo desordenadamente era sinal de insurgência. Era sinal de atraso econômico. Enquanto no Jornal da Capital se estampava na primeira página as melhorias da vinda da indústria do vapor e das engenharias, no pasquim – que era prontamente recolhido quando descoberto (isso, quando a gráfica clandestina e seus donos não eram mantidos em prisões que ninguém sabia onde ficavam) – estampava-se crianças e velhos mortos ao lado de suas casas incendiadas.

O rapaz, que caminhava sem perceber realmente para onde estava indo, possuía olhos escuros como os tempos que chegavam; a tez um dia dourada de um pôr-do-sol de primavera perdera a cor pela fuligem e pelas agressões que tinha sofrido ao tentar defender seu povo. Ele havia sido o único a sobreviver em seu vilarejo pela vinda forçada da indústria e de um progresso que reduzia o ser humano a um reles número. Os que resistiam, morriam; os que aceitavam, tornavam-se mãos em uma escala de produção.

Talvez deixar-se morrer em uma terra que tinha sido sua fosse uma melhor opção. Deitar-se entre os seus, numa terra ressecada, e sentir a morte vindo pouco a pouco juntamente do esgotamento. Pois qual a razão em viver uma vida de sofrimentos, de progresso desmedido, de imposições que faziam a alma minguar a ponto de desaparecer e restar apenas um corpo oco, automatizado como aquelas máquinas?

Mas o rapaz não queria morrer. Ele sempre quis mais. Sempre sonhou mais. Alto. Além! Era um daqueles infelizes que aceitavam o cinza do progresso pela utopia de vê-lo se misturar ao verde e marrom da terra, mas sem agredi-la. Um sistema de soma, nunca de subtração.

Finalmente erguendo os olhos e permitindo-se ver, o rapaz percebeu que não caminhava mais sobre gramas queimadas, e sim em um verde cheio de vida que se coloria por pequeninas flores. Uma terra ainda virgem, sem fuligem e morte. A música que ele ouviu entrou com suavidade em sua alma, resgatando-a da desolação. As feridas novas arderam, a pele coçou, o tecido duro de suor e sangue incomodou. Pernas esgotadas ganharam novo vigor, fazendo com que os passos torpes se perdessem nas lembranças de morte que ele carregava até então.

A casa era simples, pequena, e a janela aberta que transmitia a música praquelas bandas tinha uma cortininha branca, cujo crochê da barra começava a desfazer-se, e dois vasos de margaridas amarelas a enfeitando. Era uma moldura perfeita para o quadro daquela família. Os olhos do rapaz foram primeiro para o homem que tocava uma viola gasta e cantava com a voz rouca, acompanhado pela voz perfeita da mulher. Pelo olhar que eles trocavam, eram inegavelmente apaixonados. Uma menininha dançava ao centro, girando e rindo; brincando como o rapaz há muito tempo não via.

No entanto foi a moça que trouxe a alma do rapaz definitivamente da desolação.

Quando você presencia uma morte cruel, sua alma muda. E você se torna capaz de enxergar essa mesma mudança na alma de outrem. E foi isso que o rapaz viu na moça. A mesma rachadura que nunca cicatrizaria. Mesmo que o sorriso e a dança lhe moldassem rosto e corpo, o olhar da moça era como o do rapaz. Medo e esperança reluziam nas íris doces como mel numa luta que dificilmente findaria.

No momento em que a moça o viu, o rapaz sorriu, e o cansaço o tomou definitivamente. Enquanto as forças o deixavam e a escuridão tornava-se presente, viu que a moça corria até ele. A grama o recebeu como uma cama macia e ele se permitiu descansar. Afinal, não tinha problemas em dormir debaixo daquela janela. Havia, finalmente, encontrado seu novo lar. E tudo ficaria bem. Mesmo que tivessem que lutar contra um progresso assassino. Mesmo que precisassem aceitar a morte no dia seguinte.

Mas não aquele dia. Aquele seria um dia de descanso, música e almas que se encontram.

 



Sobre o título, há, sim, uma alusão contrária ao famoso verso de  Fernando Pessoa “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

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