Ilustração do autor

 

Se você passar por essa porta nunca mais será o mesmo, vaticinava a sua maneira, o velhinho que tomava conta da entrada. Era um espaço circular, uma espécie de clareira no meio do nada, como diriam vocês da cidade de São Paulo, no fim do mundo, longe de tudo que podemos chamar de espaço urbanizado.

Reparando bem podia-se vislumbrar alguns vestígios ocultos no mato. Percebi que aquela porta, sustentada por um batente cravado no chão de terra batida, outrora poderia ter sido circundado por algum tipo de construção.

Jorge, com seu pensamento metódico, nunca diria habitação, pois era mesmo difícil conceber uma construção ali, muito menos adivinhar a sua finalidade. Os únicos vestígios de civilização eram as pequenas e escassas cidades da região, que ficavam a quilômetros de distância dali e umas das outras, o que transformava a porta num grande mistério.

Avaliando a situação, Jorge admitiu estar perdido, a gasolina não era suficiente para prosseguir sem orientação, mas disse isso com muita calma, argumentando que ainda restava o carro como abrigo, seis pacotes de bolacha redonda sem sal e alguns reservatórios de água. Nem deu tempo de dizer que eu sei me virar na mata e que não era isso exatamente o que me preocupava.

Jorge disse isso anotando numa agenda e procurando algo nas dezenas de caderninhos e nas velhas agendas. À primeira vista pareciam preenchidos a esmo, mas ele jurava ter uma lógica embutida neste processo.

Outra coisa que Jorge admitia em sua personalidade era uma obstinação curiosa. Na minha terra, esse tipo de atitude era popularmente denominada teimosia de mula, e quem tem esse aspecto arraigado na personalidade sabe do que estou falando, é uma pessoa que empaca numa única ideia e segue em frente com ela até ver no que dá.

E deu nisso… Nessa situação totalmente atípica que Jorge tentava se acostumar antes de arriscar qualquer tentativa de decifrá-la. Entretanto, sou eu agora que deduzirei outra característica de Jorge, ser capaz de manter a calma em situações adversas, mas inepto para enfrentar as pequenas coisas do dia a dia sem desespero.

As minhas inferências têm uma razão de ser, e a essa altura preocupo-me se dei a impressão de serem as mesmas oniscientes nesta breve narração. Por certo, as suas dúvidas serão as mesmas ou menos acentuadas que as minhas, afinal, eu de certa maneira estou imerso nesta pequena trama e você aí de fora talvez perceba algo que eu ainda não percebi.

Tampouco conheço Jorge Armando Santana, quem sabe você que acompanha esse relato o conheça. Uma certeza que carrego é a pequenez do mundo relatada por tanta gente, onde no meio a bilhões de pessoas no planeta encontramos por acaso alguém conhecido numa viagem, por exemplo, na Malásia em Kuala Lumpur, você a negócios e outro sujeito que há anos você não via, só passeando. Certamente, ao encontrá-lo você diria a frase chavão – Fulano, você por aqui, como o mundo é pequeno! Ele sorriria e quem sabe diria – Com certeza pequeno demais!

Sou apenas um pesquisador que inadvertidamente pegou uma carona numa pick-up cabine dupla com placa de São Paulo, na saída de um posto além de Itacoatiara na AM-010 e, exausto adormeceu. Até a pouco, nem o nome dele eu sabia. Ele não havia dito e também não perguntei, acho que a única frase emitida neste encontro aconteceu antes de embarcar nesta viagem, e fui eu que a pronunciei.

– Seu moço, meu nome é João Monteiro da Silva, pesquiso a flora da região, pode me dar carona para umas paradas ali em frente? Ele assentiu com a cabeça e indicou o banco de trás, pois o da frente estava cheio de caderninhos, agendas, sei lá. Pensei em ser agradável e puxar conversa, mas hesitei e acabei pegando no sono. Acordei quando o carro parou na clareira.

Dei uma volta na região. Não havia sinal de desmatamento ou que aquele terreno plano era um pasto, aparentemente não havia ninguém por perto, exceto o velhinho. Ele parecia falar português, mas com o sotaque de Portugal misturando latim, algumas palavras da língua indígena aruaque e uma intrigante frase em palavras estranhas, Een goed begin is het halve werk, que depois Jorge diria ser holandês.

A porta estava entreaberta, mas não havia sentido algum abri-la totalmente para passar para o outro lado, pois não haviam paredes. Jorge começou a rir. Primeiro um riso contido, até tentou disfarçar balançando a cabeça e colocando a mão frente à boca, mas não aguentou e gargalhou. Neste momento o velhinho desandou a dar risadas também.

Porém sua risada era intermitente, parecia que ia num crescendo, mas no meio falhava. Como se ele mesmo estranhasse estar rindo sem saber o porquê e o riso você sabe, pior que coceira, acabei rindo também. E o motivo era uma conhecida canção para crianças.

Uma música de Vinicius de Moraes. Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada… Cantamos a canção inúmeras vezes rodeando a porta como se fosse uma hipnótica cantiga de roda, e com as mãos íamos marcando com palmas, um ritmo que a princípio parecia ser da música.

Não era. Era o nosso bater de palmas num ritmo muito peculiar. Depois de algum tempo, notei que o ritmo era puxado pelo velhinho sentado de cócoras ao lado da porta. Logo que Jorge também percebeu esse fato, parou e se afastou da porta murmurando algo parecido com o linguajar do velho homem.

Se eu fiquei com medo? Respondo com uma pergunta, medo de quê? Do desconhecido? O senhor parecia um daqueles mendigos simpáticos que falam sozinhos, isentos de toda agressividade, e a frase em português que repetia sempre que via um dos dois olhando para porta, as vezes soava como um alerta, outras como um convite. Se você passar por essa porta nunca mais será o mesmo, vira outro.

Eu, como pesquisador, estava acostumado a entrar na floresta sozinho atrás de descobrir espécimes novos, mas aquela situação era por demais estranha, que se eu tive medo nem saberia dizer, pois a curiosidade era tamanha que, com certeza, esqueci desta sensação.

Depois da dança Jorge ficou calado e agora ele se perguntava, – Vira outro como? De não voltar a ser o mesmo que antes? Esse outro é um outro ou já faz parte de nós mesmos? O senhor está me entendendo? Perguntava agora ao velho. E a resposta era ininteligível, palavras esparsas no meio de uma ladainha que parecia uma reza ou um tipo de pajelança. Por essas bandas nada de estranho nisso.

Insistente, Jorge reelaborava de diversas maneiras a mesma pergunta, o velho ironicamente dava a mesma resposta embalada na singela melodia de era uma casa muito engraçada… Jorge resolveu experimentar, ou seja, partir para a ação depois das exaustivas perguntas ao bom velhinho que também não se cansava de responder sempre da mesma maneira.

E a mula do Jorge empacada na pergunta, iria desencadear um processo até se converter num gesto impulsivo que pareceu desacelerar o tempo. Este fato inusitado criou um momento de atenção silenciosa minha e do velhinho, que parou imediatamente de cantarolar a resposta, observando a mão de Jorge na maçaneta arredondada da porta.

Aquele gesto levou apenas uma fração de segundo, mas parecia que havia distendido o tempo quando Jorge abriu e cruzou a porta, e em seguida parou. E o velhinho depois de levantar, começou a esticar as pernas, olhou para o lado oposto a Jorge e disse algo apontando na direção em que olhava.

Não entendi suas palavras, mas deduzi que ele iria empreender uma viagem porque mais nada o prendia a esse lugar. Sem mais, partiu. Quando eu pensei em chamá-lo, Jorge estava ao meu lado e se apresentava. – Desculpe, você se apresentou ao entrar no carro e eu grosseiramente fiquei calado.

– Meu nome é Jorge Armando Santana. A única coisa diferente era um brilho em seu olhar, algo semelhante ao que eu havia percebido no velhinho. Jorge foi para o carro, retirou seus cadernos, dividiu a água e os pacotes de bolachas e em seguida esticou o braço e me deu a chave do carro.

Eu sorri discretamente percebendo a situação, aceitei as chaves e agradeci. Jorge certamente percebeu uma leve inflexão na minha voz e também sorriu. Se ele não era mais o mesmo, como dizia o velhinho, pensei na hora que seu nome poderia ser Jorge ou não. Mas deixei de lado essa questão da identidade e pensei que devia decidir se iria ou não embora sozinho.

Olhei em volta e vi Jorge abrindo uma velha agenda. Depois achegou-se ao meu lado e começou a ler – João, veja isso, no dia 7 de abril já havia anotado, qualquer caminho é válido quando o que importa é a viagem e não aonde se quer chegar. Lembrei de minha mãe que sempre dizia, viajar é preciso, viver não é preciso, parodiando Fernando Pessoa, de quem ela também repetia, tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Neste momento duvidei de sua sanidade e perguntei se ele não queria vir junto. Sua resposta foi acocorar-se ao lado da porta no mesmo lugar do velhinho, dizendo – Se você entrar naquele carro agora, você nunca mais será o mesmo. E cantarolou em latim era uma casa muito engraçada.

Notando minha cara de assustado, ele deu uma bela risada e ao levantar explicou – Brincadeira… Mas como toda brincadeira tem um fundo de verdade, lembre-se de que você já entrou naquele carro uma vez.

Apontou e disse – Siga naquela direção entre as grandes árvores que em algum momento verá a estrada, e à direita ou à esquerda chegará a algum lugar conhecido. Não perca tempo, logo irá escurecer. Lembre-se do provérbio holandês que o velho falava, Een goed begin is het halve werk, um bom começo é metade do trabalho. Abstive-me de perguntar que trabalho seria esse. Era tarde, ele tinha razão, eu devia partir.

Esta região não conheço bem, então arrisquei dobrar à esquerda no afã de chegar ao meu destino: ao rio Urubu, mas acabei chegando ao mesmo posto em que peguei a carona. Quando parei percebi que Jorge tinha razão, eu também nunca mais seria o mesmo. Quando abri o porta-luvas para pegar um pacote de bolachas achei o documento do carro, sua carteira de motorista e o RG, todos em nome de Antônio Matos dos Santos e não Jorge. Na Malásia, em Kuala Lumpur, o mundo é pequeno, lembra? Talvez você o conheça, mas agora o que isso importa?

 

Dedicado a minha mãe, Ceres.

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