Ilustração do autor

 

Eles não são vampiros, apesar de não conseguirem enxergar suas imagens no espelho, mas não se assuste, este depoimento está longe de qualquer desvio da realidade. O que Sandra e Rafael têm em comum? A distorção da imagem real de si mesmos. Utilizo essas imagens de seres fantásticos para firmar um conceito e talvez pelo fato da vizinhança me considerar uma bruxa.

 

Se fosse, seria uma bruxa boazinha, uma fada moderna, uma mulher que vive a realidade cósmica dos elementos. Seja em nosso planeta e por todo o universo, as energias estão disponíveis a todos. Mas vamos voltar a Sandra e Rafael, o que eles veem no espelho não é o que os olhos deles veem. Será que eles não se enxergam devido a uma distorção proveniente da vaidade? Ou de uma necessidade de pertencer e ser aceito nos ambientes que valorizam a vaidade ao extremo?

 

Ela é anoréxica e ele vigoréxico. Os índices no mundo da moda são os mais altos no caso da anorexia, mas saindo deste ambiente, não deve chegar a 2% das meninas, seja por ter certa predisposição ou por serem afetadas pelo ambiente ao qual elas desejam pertencer. Por outro lado, o percentual masculino é muito pouco no caso da anorexia, porém um aumento nestes últimos anos deve servir de alerta a um distúrbio conhecido, mas normalmente não nomeado, a vigorexia, ou anorexia inversa.

 

Saturno deve cruzar a casa de leão em conjunção com Marte e isso basta para determinar que o meu dia seja cheio de surpresas e percalços. Ou seja, altos e baixos, dos baixos preciso me proteger, assim vou reunir numa bolsinha de couro que levo comigo: uma pedra verde, um raminho de arruda e um objeto pessoal que não posso revelar o que é.

 

Quando ainda restam dúvidas, jogo o I Ching, aí posso sair de casa com mais tranquilidade, a não ser que o desígnio seja ficar imóvel. Por certo vocês devem estar estranhando o fato de relatar problemas de caráter psicossomáticos e agora essa carga de esoterismo. Vou aproveitar e me apresentar: meu nome é Graziella Marealta, tenho 62 anos e sou terapeuta corporal alternativa.

 

Rafael já havia aparecido muito antes do grau de vigorexia tornar-se elevado, vinha em busca de alívio dos exercícios, como se eu pudesse substituir ou complementar suas aulas de alongamento, as quais na verdade ele detestava. Gostava de dedicar-se aos exercícios pesados a fim de obter resultados mais rápidos. Fatalmente escorregou para os suplementos alimentares e anabolizantes: as bombas. Seu carma não deveria levá-lo a esses extremos. Talvez seja Plutão retrógrado ou alguma linha da Lua que devo ter esquecido de cruzar no seu mapa astral.

 

Lancelot era o cão de Sandra. Diante do pedido de uma menina tão carinhosa, seu pai não conseguiu negar a compra. Era um legítimo galgo, cresceram juntos. Ela tornou-se uma adolescente esbelta. Eram os dois, o suprassumo da cidade, em termos de elegância, sendo que ela ouviu desde pequena que sua beleza devia ser admirada pelo mundo. Revistas, concursos locais indicavam ser este o caminho, mas quando Lancelot sumiu, sua auto-imagem sofreu uma grave alteração.

 

Lancelot estava sempre ao seu lado, seja nas provas de roupa, nas sessões de fotos ou em seu quarto, ouvindo as histórias que ela contava sobre como seriam suas viagens pelo mundo. Inclusive já haviam sido fotografados juntos em várias ocasiões, mas agora nada mais importava. Criou uma obsessão de manter-se em forma, não podia engordar uma grama, pois tinha medo de que quando Lancelot retornasse não a reconhecesse.

 

Abri as cartas do tarô, joguei runas, separei chás e ervas, experimentei misturas, revi as cartas e não havia nada que indicasse se havia morrido, sido raptado ou simplesmente sumido pelo mundo afora. Seu pai ofertou-lhe outro galgo com um pedigree impecável, mas claro, não era Lancelot. Só Lancelot a conhecia, só ele poderia salvar a princesa de sua prisão na masmorra do castelo da anorexia.

 

Rafael e Sandra, diante do espelho, viam o oposto, onde tinha menos parecia mais, onde havia mais parecia menos. Nas estatísticas existem mulheres vigoréxicas, senhoras anoréxicas em busca da juventude perdida e homens maduros bombados, porém o problema é seguramente recorrente nas pessoas jovens.

 

Lancelot não podia ter outro nome, a não ser a do cavaleiro galante da corte do rei Arthur. Segundo Sandra, seu porte indicava sua nobreza. Com tradição no país do reino de Camelot, que remonta há um século antes de Cristo, a corrida de cães era o único aspecto que Sandra não gostava. Sabia que Lancelot gostava de correr. Isso fazia parte do seu código genético, por isso os passeios diários eram no parque mais próximo, aonde toda a tarde ela depositava esperança de encontrá-lo perto da fonte.

 

Ninguém poderia prever que o encontro na ante-sala do meu local de trabalho, no qual tenho três salas distintas que se chamam respectivamente: planetário, prisma e energética corporal, conduziriam o desfecho dessa história. Todos sabem que não sou médica. Não me coloco como tal, possuo apenas certificados de cursos de práticas alternativas, ainda do tempo em que a acupuntura era vista como charlatanismo.

 

As lendas sobre sua origem dizem respeito a guerreiros feridos com flechas, que ao atingirem pontos de energia acabaram por curar um mal correspondente a esse ponto. A partir dessa constatação, foi constituído um mapa com mais de mil pontos energéticos do corpo. Essa imagem alegórica contribuía para a falta de aceitação por parte da medicina ocidental. Hoje em dia a ciência admite esses pontos e a circulação da energia pelos mesmos meridianos relatados há mais de 2000 anos atrás pelos chineses.

 

Sei que um exemplo assim contundente, não corrobora todas as outras correntes que surgem aos milhares, envoltas pela exploração comercial, do marketing abusivo quanto aos miraculosos resultados. Há mais dúvidas sobre tudo do que certezas. A própria ciência tenta explicar o mundo, mas muitas de suas teorias também são contraditórias. Agora mesmo surgiu uma possibilidade que pode mudar tudo, os físicos dizem, se a velocidade da luz puder ser ultrapassada… Entre esse extremo e o meu mundinho esotérico Rafael e Sandra trocaram olhares na sala de espera que ainda eu não pude decifrar.

 

Sandra também foi enviada pelos pais, embora continuasse sob um tratamento médico que ela recusava, confiaram a esta bruxa seu maior tesouro. Nossa primeira conversa foi na sala do planetário que consistia num teto abaulado, imitando o céu visto aqui da América do sul. Uma tentativa simplificada de cópia de uma carta celeste que ganhei de presente de um antigo admirador que trabalhava no Planetário de Berlim.

 

Entramos na sala circular com a luz acesa em um barrado que esconde as estrelas no teto, porém a luz, ao fechar a porta devido a um mecanismo eletrônico, começa a diminuir e no teto surgem as estrelas desenhando o céu. Cada um reage à sua maneira. Sandra que estava visivelmente aflita por adentrar num local estranho, deitada, parecia encontrar um lugar de paz no mundo, enquanto seu olhar vasculhava o teto caminhando entre as inúmeras estrelas.

 

Outro dia, Rafael acompanhou sua saída atentamente, no entanto ela pareceu nem notar a sua presença. Ele perguntou-me o que ela tinha. Respondi que era seu espelho ao contrário. Ele aceitou a resposta sem questionamentos, talvez por ainda ignorar seu próprio problema. Entramos na sala Prisma, onde lanço mão da cromoterapia: a utilização de luzes coloridas com fins terapêuticos, onde adiciono aromas, caso seja necessário. Aqui trabalho com a sua ansiedade, procurando substituir os movimentos repetitivos dos exercícios musculares pela calma e graciosidade do Tai Chi, utilizando sobre um fundo azul-violetado uma luz solar de manhãs de inverno, onde apesar da baixa temperatura, o calor da luz chega proporcionando conforto num belo tom de amarelo.

 

Na verdade, ultimamente tenho questionado alguns métodos de leitura esotérica. Não os invalido, mas diria que quase estou descortinando outra faceta deste mundo que confirma o passado e delineia o futuro. A minha conclusão depois de anos de prática e leituras, trocas de ideias em workshops, blogs, e-mails, cartas, e toda sorte de coisas é que depende, muitas vezes, de uma frágil interpretação de intrincada simbologia. Ouso dizer que chego, invariavelmente, a conclusões que não parecem derivar dos resultados codificados nos símbolos. Parece mais uma transmutação deste pensamento simbólico em uma intuição, uma exortação quase que externa a nós, às vezes totalmente independente, isso é o que procuro agora entender.

 

Sandra, outro dia, pediu para entrarmos novamente no Planetário. Deitou-se em um lugar que parecia pré-determinado. Quando a luz apagou, pediu apontando para que eu olhasse e dissesse a ela se eu via três estrelas formando uma linha onde a estrela central estava um pouco à frente, eram as Três Marias na constelação de Orion. Ela considerava um sinal de Lancelot, porque ele tinha uma coleira assim e estava com ela quando sumiu. Ela levantou e pediu um copo de água. Quando saímos da sala, lá estava Rafael sempre adiantado, impulsionado pela ansiedade e disse a ela num rompante – Lembro de você e do seu cachorro no parque. Todos os dias vocês passavam pelas barras, onde eu ficava. Ele sempre chegava na frente correndo e parava, me olhava por alguns segundos, procurava ver se você estava vindo e voltava a correr.

 

Não havia nenhum clima para um romance, imaginei que filhos únicos que eram olharam-se como irmãos, embora não tivesse certeza disso. Três semanas depois, nem sombra de Sandra ou de Rafael que não chegou cedo como de costume. Preocupei-me, pois os familiares sempre avisam caso eles tenham que faltar a sessão. Esperei mais 20 minutos, não liguei para os familiares, pois não queria transmitir meu nervosismo nesta hora.

 

Ao virar deparei com um brilho no vidro da janela tive um daqueles insights: era uma imagem dourada de amarelo do nascer do sol atrás de duas sombras. Desci do carro e avistei no parque ao lado das barras, dois vultos ensaiando movimentos de Tai Chi. Contra a luz amarela, os contornos de seus corpos não mentiam, era um teatro de sombras real. Um espetáculo bonito e comovente, embora um pouco bizarro devido as silhuetas de seus corpos tão díspares, mas que no momento eram tomados de uma radiante beleza.

 

Foi o início de um tempo de descobertas para ambos, de momentos felizes e sem angústia. Uma melhora advinda do respeito mútuo, da perseverança em conjunto e da superação real. Infelizmente a família de Rafael via esse relacionamento com outros olhos e isso ocasionou, depois de alguns meses, seu brusco afastamento de Sandra. Com a mudança de cidade, Rafael acabou sucumbindo na sua luta contra o espelho retomando o consumo das bombas e suplementos de maneira desenfreada. Com tristeza recebi de sua mãe a notícia de seu falecimento.

 

Sandra recuperou-se, trabalha numa agência de viagens e com frequência, pede para deitar na sala Planetário para dar uma olhadinha nas Três Marias e todo dia de manhã iluminada, podemos vê-la ao lado das barras em movimentos graciosos de sua esbelta silhueta contra a luz dourada do sol a espera, quem sabe, de seu verdadeiro Lancelot.

Anúncios