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— Oi… Pode me dar o caderno de entretenimento?

A mulher ergueu os olhos do jornal e franziu o cenho pela perturbação. Já a garota apenas deu um sorrisinho sem graça, voltando a pedir:

— É só o de entretenimento. — E apontou o jornal. — Você tá tão concentrada na parte de Economia… É louvável, sabia? Quero ser igual a você, quando crescer. Mas é que eu preciso muito ver uma coisinha que fica no caderno de entretenimento, e eu logo vou ser atendida e vou poder te devolver. Se você não se incomodar, é claro, pois não quero interferir na sua leitura.

À medida que a garota falava, a mulher apenas mudou a expressão de irritação por ter sido perturbada em sua leitura para uma de exata certeza de que a garota à sua frente que era a real perturbada. Devagar, como se tivesse à sua frente uma alienígena que havia se perdido na fila da boa educação, a mulher retirou o caderno de entretenimento no meio do jornal e lhe entregou.

— Muito obrigada!

— Você está me passando vergonha, sabia, Ana? — murmurou Isabel para a amiga ao seu lado, que já abria o caderno de entretenimento como se sua vida dependesse disso. Com um dar de ombros e um ar de culpa, pediu desculpas para a mulher, a qual já tinha voltado a abrir o jornal e se escondia por detrás das enormes folhas.

— Querida, vergonha é roubar e não conseguir carregar. Ah, achei! — declarou Ana, feliz. Isabel espiou o que pedia tanta urgência da amiga e, ao ver, bufou, deixando-se cair no encosto acolchoado do sofá.

— Sério que era para isso que você estava parindo gatos? — Isabel continuou falando baixinho. Se Ana não se importava que a julgassem de louca em meio à sala de espera do consultório, Isabel, sim, se importava.

— Querida — repetiu Ana, sem tirar os olhos da lista de horóscopos —, mesmo sendo dona do meu destino, eu preciso saber o que os cosmos esperam pra mim. E também de mim.

— Com certeza eles esperam mais educação de sua parte. — E indicou com um aceno a mulher escondida atrás do jornal aberto.

Ana dispensou a censura da amiga com um gesto. Então soltou um risinho e se aboletou no sofá, toda cheia de si. Isabel sempre achava que a amiga alcançava o limite da maluquice quando ela via aqueles enormes olhos brilhando como se mil luzes se acendessem sobre sua cabeça. Thomas Edison teria inveja. Assim como qualquer personagem de desenhos animados.

— Eu sabia que precisava verificar! — disse Ana, excitada. A voz havia saído num sussurro como se contasse um segredo, e assim continuou quando ela leu a previsão do signo para aquela semana. — Abra os olhos para novas possibilidades. O mundo está te esperando, basta entender os sinais de Saturno que está em sintonia com Plutão. Hum… Isso não é muito bom. Intrigas, sabe? Mas isso nunca me assustou. Talvez seja preciso deixar o amor um pouco de lado para que sua vida se torne melhor, mas lembre-se que uma pessoa que te ama sempre estará te esperando. Ah, isso é melhor ainda. Te falei do Ricardo? Ele se declarou pra mim nesse fim de semana, mas acho que só porque eu fui chamada naquele concurso em São Paulo. Vou precisar me mudar no mês que vem, e agora ele vem com essa coisa de amor eterno? Acho meio forçado… Talvez aí seja a intriga e as possibilidades. Possibilidade de amor, mas também de trabalho. É um bom emprego. Vou ganhar bem, sabe, Isabel. E São Paulo é, o que, três horas daqui? Se ele me ama de verdade como diz, com certeza vai me esperar.

— Ana, por acaso você se ouve quando fala essas coisas?

O ar sonhador saiu do rosto de Ana, e a garota fez uma careta de desgosto.

— Beira ao absurdo, se quer saber — continuou Isabel. — Como você molda sua vida inteira no que um João Ninguém, metido a bidu, fala?

— Qual é o seu signo mesmo?

— E eu sei lá!

— Deixe-me ver… Primeiro de setembro… Virgem! Rá, sabia! Teimosa e cética definem Virgem. Está explicado. Vamos ver o que te guarda para essa semana.

— Eu não preciso saber as palavras que um maluco retirou de uma cumbuca pra escrever essas frases sem sentido.

— Vamos começar com vida profissional e financeira. Seu mundo financeiro está bem estável, porém pode sofrer uma reviravolta. Cuidado com as dívidas. Fique atento com a possibilidade de crescer, assim como o fato de que em seu setor alguém está prestes a lhe puxar o tapete. Você não vai ser promovida?

— O meu chefe me chamou, sim, pra apresentar um projeto sobre o novo condomínio, mas não tem nada a ver. Olhe como minhas “possibilidades” — Isabel fez chacota com a palavra — se parecem imensamente com as suas! Tudo genérico. Aposto que se você ler outro signo vai ser a mesma coisa.

— Claro que não… Amizades duradouras podem se quebrar por intrigas nessa nova fase da lua, uma vez que a aparição de Marte em seu ascendente vai interferir em seu humor drasticamente. Sim, se você continuar a me julgar, vou embora e nunca mais volto — completou Ana, séria, para depois rir quando Isabel a olhou assustada. — Estou brincando, bobinha. Agora, amor.

— Ai, meu Deus! — Isabel gemeu. Ana não lhe deu atenção.

Um amor do passado pode bater à sua porta; o que você tanto desejava pode estar junto dele. Ui, Isabel! EI! — Ana quase gritou, pegando a amiga pelo braço e seu sorriso aumentando exponencialmente. Todos na recepção olharam para elas, mas apenas Isabel pareceu constrangida com aquela atenção. — O Henrique não te mandou uma mensagem, semana passada, dizendo que queria te ver?

Isabel fez uma careta de desgosto e sentiu um estranho calor nas bochechas quando desviou o olhar da amiga antes de falar.

— A gente já se encontrou, sua besta.

— Sério? Quando? E o que ele queria?

Isabel rolou os olhos.

— Terça passada. Ele só queria as coisas dele de volta que estavam lá em casa.

— Mas aposto que… — Ana parou quando o celular de Isabel apitou uma mensagem. — Olha quem é!

Isabel suspirou. E ficou pasma quando viu uma mensagem de Henrique.

— Ele quer se encontrar de novo.

— Viu, viu, viu? — animou-se Ana.

— Pode não ser nada.

— Mas pode ser tudo! Quando?

— Amanhã.

— Saindo daqui, a gente vai passar na loja pra comprar uma lingerie.

— Ai, Senhor! Deixa de tontisse, Ana.

— E você para de criar esses lindos adjetivos pra mim. Vamos continuar, aqui: saúde.

— Probabilidade de gravidez com o amor que vem do passado — gracejou Isabel, embora tenha se mexido incomodada ao dizê-lo.

— Rá, rá, hilário. — Ana voltou os olhos para o jornal, localizou o signo de Virgem e começou a ler. — Cuidado com o estresse, seu inimigo número um.

É o inimigo número um de todo mundo, Ana.

Sua saúde está num período delicado, mesmo que você não saiba, então todo cuidado é pouco… Por que você está vindo ao médico hoje? O que você não está me contando, Isabel?

— É só rotina, Ana — Isabel quase riu.

— E por que você me chamou?

— Porque eu não queria esperar sozinha por quase duas horas. E já estou fortemente arrependida, se quer saber.

Para alívio de Isabel – que viu a boca da amiga abrir-se para desferir mais uma torrente de perguntas baseadas naquela previsão maluca –, a recepcionista disse que ela podia entrar. Por um momento, entretanto, enquanto era examinada pelo ginecologista, Isabel sentiu-se tensa, a ponto de sequer notar os incômodos que sempre a perturbava quando se deitava naquela maca desagradável e era revirada por um estranho que via uma vez no ano. Mas o exame prosseguiu como de costume e logo ela estava inteira e dignamente vestida e sentada em frente ao médico.

— Você está muito bem — o médico falou, dando-lhe um sorriso e voltando a digitar no laptop. — Vou pedir os exames de sempre, que você até sabe quais são, e vou incluir um de gravidez.

Isabel arregalou os olhos e sentiu o corpo absurdamente pesado.

— O quê? Pra quê? De onde você tirou isso? — quase gritou a última pergunta. Lembrou-se do horóscopo: sua saúde está num período delicado, mesmo que você não saiba.

O médico parou de digitar e voltou-se todo para ela.

— Acredito que você esteja grávida, Isabel. Parece que bem no início. Seu colo já está fechado e bem firme. Quando foi sua última relação sexual?

— Terça passada — a frase a assombrou, assim como o rosto ansioso de Ana, os questionamentos dela sobre Henrique, o que Isabel não disse…

— Nove dias… Tempo bastante pro colo responder. Mas o exame vai dar certeza.

— Certeza… — Isabel repetiu, ainda tonta. Sentiu o celular vibrar e, em gesto automático, pegou-o da bolsa para olhar. Outra mensagem de Henrique. Ele queria adiantar o encontro. Àquela noite. Tinha algo importante para falar. Bem, pelo visto Isabel também teria. Um amor do passado pode bater à sua porta.

Assim que voltou à recepção, Isabel foi até Ana. Pegou o caderno de entretenimento que a amiga estava prestes a devolver para a mulher da Economia e saiu do consultório. Ana estava logo atrás, perguntando o que estava acontecendo. Mas Isabel só tinha olhos para aquelas palavras. Amor do passado. Saúde delicada, mesmo que não saiba. Amor do passado. Saúde delicada.

Isabel amassou o jornal, transformando-o numa bola. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Não sabia se ria feito uma louca ou simplesmente encolhia-se e chorava.

Seu mundo financeiro está bem estável, porém pode sofrer uma reviravolta.

Oh, sim, pois com um bebê a caminho, tudo se resumiria a fraldas, pomadas, remédios…

Cuidado com as dívidas.

Que cresceriam, com certeza. Berço, enxoval. Chá de bebê.

Fique atento com a possibilidade de crescer – ah, ela definitivamente cresceria; ficaria imensa! –, assim como o fato de que em seu setor alguém está prestes a lhe puxar o tapete.

Puxar o tapete…

— Maldito esoterismo — e jogou a bola de papel no lixo, com Ana atrás sem entender patavina do que estava acontecendo. Mas Isabel sabia. E quando a amiga descobrisse, diria o que sempre repetia quando o assunto era aquele maldito mundo esotérico.

São os cosmos funcionando. O destino mudando. A roda-viva girando.

E Isabel praguejaria novamente.

Maldito esoterismo.

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