O alarme despertou. Como todas as manhãs, ativei o soneca sem se quer abrir os olhos, e voltei a dormir aqueles indescritíveis e essenciais 10 minutos matinais. Sonhei que levantei atrasado para o trabalho, fiz o café me trocando na cozinha, e acordei de chinelo e meias no ônibus. Acordei no susto! Meu cão não veio se aconchegar, ele é o grande responsável pelos meus atrasos… Sentado na cama, como se tivesse despencado do ônibus, o chamei. Estava Demian dormindo feito um bebê pedra no tapete em frente à cama. O quarto não estava claro, como todas as manhãs… Olhei a janela… Olhei o celular… E fui confirmar o relógio. Eram 06h40. Eu estava, realmente, atrasado. Mas não tanto quanto o sol!

Abri a janela e uma pomba parada no fio parecia compartilhar minha indignação. Estava tudo escuro e os barulhos na rua pareciam tímidos, incertos. Saí. Ninguém parecia muito preocupado com o ônibus que não passou, com a meia porta aberta da padaria que não tinha pão ou com as estampas fofas do meu samba-canção. Minha rua estava ótima para o clipe d`O Dia Em Que a Terra Parou, do Raul ou meu sonho de greve geral até que a presidente reassumisse seu cargo democraticamente conquistado. Em tempo, #ForaTemer!

Com expressões impagáveis, as pessoas não sabiam nem formular as perguntas… Foi quando eu ouvi, de uma menina sonolenta que parecia ter sido arrastada da cama até a esquina para esperar a perua escolar (acho que foi a única ação rotineira naquela manhã de noite):

– Cadê o Sol, mamãe?

Eu desembestei a rir, numa crise constrangedoramente sem explicação. Eu entrei quando percebi que minha risada avassaladora incomodou mais que a ausência do Sol. Ria que entrei me mijando, com dor na barriga e nas bochechas… “Cadê o Sol?! Cadê a porra do Sol Demian?!!” Meu cachorro abanava o rabo como uma hélice de helicóptero, tão rápido que sua bunda parecia elevar-se em relação ao corpo. Eu ria, ele pulava e me lambia. Eu ria de cair no chão, de toda uma realidade perder a explicação… Toda uma realidade perder a explicação. Toda uma realidade perder a explicação?? Toda uma realidade ia sucumbir, cara! Sem Sol não dá, não!! Entrei em pânico! Peguei meu celular, já haviam centenas de mensagens. Centenas só da minha irmã?! Ela surtada:

– Dinho?!!  06h27

– Dinho, responde!! 06h28

– Dinho, cadê o Sol, porra?! Tô em pânico aqui…06h29

– Dinho..  06h30

– Teu sobrinho vai nascer… 06h38

– Eu to parindo… Ta doendo pra caralho… Vem pra cáááá 06h38

– Não vai ter hospital…. 06h38

– Nem médico… 06h38

– Nem sol… Não tem soooooooll 06h38

Já no carro, a caminho, indo, pensei… E escrevi:

– Mana… vai ser o primeiro carinha sem signo, meu!! 07h12

 

Anúncios