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Já no carro, a caminho, indo, pensei… E escrevi:

– Mana… vai ser o primeiro carinha sem signo, meu!! 07h12

Mas a mensagem não foi. Achei curioso, principalmente depois do rio de mensagens que minha irmã tinha enviado. Apertei para enviar novamente, e de novo. Por fim desisti daquela tentativa infeliz de troca de dados – malditas operadoras que só funcionavam à vontade do capeta! – e voltei ao antigão, o SMS mesmo.

E foi quando mais coisas estranhas – como se o sol não ter nascido já não fosse estranho por si só! – aconteceram.

O celular apagou. Assim, sem mais nem menos. Distraído, precisei frear bruscamente quando virei à esquina e tinha uma fileira de carros parados. Inexplicavelmente, meu carro também morreu. Sem engasgar, sem dar mostras do motivo. Meu carro novinho em folha, financiado às duras penas; câmbio automático, lindo, de última! Mortinho da Silva. Aí foram as luzes dos postes que estouraram. Nesse ponto, sequer os cachorros que começaram a latir, ou a revoada de pombos que saiu das árvores que enchiam a avenida, me espantou. Mais pessoas saíam de suas casas, as mesmas expressões incrédulas e cheias de dúvidas. Deixei o carro, parado no meio da rua, e não mais senti a crise de riso de minutos antes. Perguntei-me se Demian também estaria latindo alucinadamente, ou perseguindo a cauda, ou se enfiando no espaço entre a máquina e o tanque, na lavanderia.

A preocupação com minha irmã veio em seguida. Será que o bebê já tinha nascido? Será que esse apagão geral a prejudicaria? Rezei para que pudesse ser parto normal e que tudo corresse bem. Olhei para os lados e não havia uma pessoa que soubesse explicar o que raios estava acontecendo. Primeiro o sol que não nasceu. Agora um blecaute geral.

Andei rápido, quase correndo, uma vez que o hospital era longe. E ao alcançá-lo, quase uma hora depois, já estava ofegante, com as pernas e as costelas doendo, e ainda com mais medo. Afinal de contas, a porcaria do sol sequer tinha dado o ar da graça!

O pior de tudo – sim, sempre existe um pior para ferrar com a gente – era que eu assistia a muitas séries de ficção científica. O dia em que a Terra parou – agora não a música do Raul, mas o filme mesmo, aquele ruim com o Keanu Reeves – era um deles. E eu pensei que, literalmente, o planeta tivesse parado para receber o apocalipse. Mas se tivesse parado, a teoria dos cientistas teria se mostrado. Tudo voaria pelos ares, era o que eles diziam. Terra, água, prédios, pessoas… Só que tudo estava no lugar. De certa maneira, é claro, mas estava! Ainda assim, a terra tinha parado. Só poderia ser isso.

Olhei para o céu escuro, depois para o hospital também às escuras. A porta de vidro, automática, tinha sido quebrada para permitir passagem de pessoas que se acidentaram. Atropelamentos com pessoas distraídas pela falta de sol, marca-passos que estranhamente pararam de funcionar, queda dos elevadores do próprio hospital. A recepção estava um caos, então, como eu já conhecia aquele hospital por ser a segunda vez que minha irmã paria ali, subi para o terceiro andar. Olhei de quarto em quarto, até ouvi-la gritar o nome do Artur, meu cunhado. Cheguei bem na hora em que meu sobrinho vinha ao mundo, daquela maneira natural que por um instante me fez pensar que não deveria ser tão natural assim (sério, como uma criança passa por um espaço tão pequeno?). As enfermeiras e o médico deixaram o quarto muito rápido, cabendo ao residente finalizar os procedimentos.

De olhos muito abertos e vendo minha irmã segurar aquela criança como se nada mais importasse, me aproximei da cama.

— Mana, o sol…

— Nasceu — ela me interrompeu, ainda aninhando o bebê. — Nasceu, Dinho.

— É, é, tô vendo. Mas o sol, mana. O sol…

— Nasceu.

Minha irmã me olhou e sorriu, mostrando o bebê em seus braços. Mas não era uma criança que ela tinha nos braços, e sim algo horrível envolto em mantas.

— Nasceu meu sol, Dinho — ela disse.

E foi isso que vi. Um sol amarelo, de cabelos alaranjados que pegavam fogo, mas sem queimar a manta. Quis gritar. Porém, ao olhar direito para aquele bebê-sol só uma coisa me veio à mente. O maldito sol dos Teletubbies!

— Caralho! — gritei. Na escuridão. Ouvindo meu despertador mais uma vez. Tateei. A janela. Eu precisava da droga da janela!

Finalmente a encontrei, abrindo, e sendo recepcionado por um céu azul, pálido, amanhecido. E, mais importante que isso, um sol que, tímido, se mostrava atrás das nuvens que carregavam muita chuva.

O celular apitou mais uma vez. Era minha irmã. O bebê ia nascer. Mas não tinha problema. Havia sol. O horóscopo estava salvo. E o rosto do meu sobrinho também. Só meu governo que ainda não…

Apresentação1

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