sunrise-city

Passamos a madrugada inteira conversando.

Fora tudo tão rápido! Como é possível se encantar tanto assim com alguém que se acabou de conhecer?

— … foi quando eu percebi que nasci para dançar — disse ela.

Eu não conseguia falar. A luz do poste fazia os fios desalinhados de seu cabelo castanho brilharem como um halo de fogo. Seus olhos pareciam escuros na penumbra. De que cor seriam sob a luz do sol?

— Levi? Tá tudo bem?

Ela sorriu e eu sorri de volta, sentindo o calor se espalhar pelo rosto e me odiando por ser tão transparente. Estávamos sentados sobre a mureta de concreto que separava a cidade do mar. As ondas rugiam lá embaixo, a maresia deixava tudo úmido, o ar pesado e cheiroso.

— Tá — falei. — É que você é bonita demais.

Foi sua vez de ficar vermelha. Mas eu falara a verdade, um velho hábito que já me garantira amantes e inimigos — nem sempre na mesma medida.

— E você é muito gentil — disse ela.

Mirna se abraçou, e só então percebi minha estupidez.

— Você está com frio!

Tirei meu casaco e coloquei sobre seus ombros, um gesto cansado e gasto, mas que já estava ali e agora eu não podia fazer nada além de cobri-la. E foi enquanto eu tentava fechar o zíper que nossos rostos se aproximaram e nos beijamos.

A pele dela estava fria, mas pude senti-la esquentar enquanto nos abraçávamos. Sua boca tinha um gosto doce e metálico.

Ela tinha cheiro de flores.

Senti seus lábios descendo pelo meu rosto em direção ao pescoço. Não pude conter nem o gemido nem o arrepio.

Senti-a ronronando em meu pescoço, mordendo a pele com força apenas o suficiente para mostrar a fina divisão que existe entre a dor e o prazer. Agarrei-a com mais força ainda, cheirando seus cabelos, passeando as mãos sobre seu corpo com a gentileza de um adolescente.

Estávamos envolvidos por uma sacralidade telúrica, os corpos se movendo com uma sincronia abafada e surda, uma vibração urgente, a pressa, a posse…

E então ela me soltou. A corrente quebrada, o ritual interrompido, todos os sons mudos pela surpresa.

— Não posso fazer isso — disse ela.

— Fazer o quê?

Ela se afastou mais. O sol nascia a leste, revelando uma Fortaleza que despertava. O negro abria as portas ao laranja e a um ensaio de azul.

— Preciso ir. O sol… eu…

— Ei, espera! Onde você vai?

Ela estava pálida, com olheiras escuras e os lábios brancos. Tremia.

— Preciso ir. Desculpa…

— Quando posso te ver de novo? Mirna?

Ela saiu correndo, parou e soltou um beijo pequeno no ar. E então foi como se desaparecesse.

O que eu fizera de errado?

Sentei-me na mureta mais uma vez, sentindo-me tonto e desapontado. As estrelas morriam, uma a uma, com a claridade do amanhecer. Apesar da tristeza, por algum motivo eu estava feliz.

O sol nasceu, e as lâmpadas da orla foram se apagando, uma a uma, como as vidas das pessoas.

Carpe diem, que seja. Memento mori também.

Era bom estar vivo, poder gostar de alguém e se quebrar sem muito motivo. Mesmo que seja apenas em uma noite.

Eu ainda sentia o gosto dela. Procurei meu celular e lembrei que ele ficara no bolso do casaco.

— Que haja outras madrugadas, então — sussurrei para o vento, para as ondas e para o sol dourado que se erguia sem promessas.

Anúncios