Ele rodeava o sol. Era o primeiro de sua raça a conquistar tal façanha, inimaginável e absurda, seja para um ser humano comum, seja para um imortal como ele — paradoxalmente, ainda pior para esses pálidos imortais. Todos antes dele fugiam do grande astro como se fosse a pior ameaça. Como uma bomba atômica. Literalmente, pois seu efeito era a desintegração.

Mas ele ousou mais que todos. Ele evoluiu mais que todos. Todos os terráqueos. Todos os vampiros. Seja Drácula, Nosferatu, os purpurinados ou os galãs entrevistados.

Ele uniu os conhecimentos sobrenaturais com os científicos. Demoníacos e sagrados. Uniu a herança do Dr. Frankstein, de criar vida a partir dos mortos à de Dr. Jekyll, com o poder de transmutação do bem e do mal. Sacrifícios foram necessários. Metade da população humana e metade da população de entes inumanos se foi para angariar a energia de morte necessária para sua vida renovada. Ainda que aos pedaços. Compunha-se e recompunha-se a partir dos pedaços de cada ser, seja maligno ou benfeitor.

Sua personalidade agora era, alternadamente, a de cada um dos seres sacrificados por seu sonho: conquistar o Sol. Assim, desintegrava-se como era o natural para sua raça, a cada amanhecer exposto; porém, recompunha-se imediatamente e continuamente.

Dominou a Nasa, agência espacial norte-americana, para que os enviassem para seu destino. Julgaram-no louco, mas ele partiu assim mesmo. E foi rumo ao grande astro. Até que concluiu que não seria suficiente a tecnologia humana. Mas uniu-a aos seus conhecimentos ancestrais e de todos os imortais — ou nem tanto — que havia incorporado. E a propulsão da nave elevou-se como nunca.

Até que o veículo artificial não resistiu mais ao calor do Sol. Sobrou apenas o vampiro. Entrou em órbita. E ficou feliz por sua conquista. Por 1 minuto, quando toda a energia vital angariada não pôde mais resistir à proximidade do deus do calor. E assim caiu o Ícaro do século XXI e todo seu poder e pesquisa acumulados.

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