Ilustração do autor

 

E lá vou eu novamente. São oito anos levando coisas para o apartamento e agora, em um dia, tento resolver o assunto. Faça sol ou faça chuva, o dia já está marcado com a transportadora. Amanhã.

Mudança é como final de ano: inevitável a reflexão sobre o que continua conosco e o que fica para trás, o que faremos no outro local ou deixaremos de fazer.

Fica geladeira velha, vai fogão novo. Fica o sofá de três lugares que ganhei, vai a máquina de lavar. Os livros irão todos, pois já fiz a besteira de aliviar a carga e depois me arrepender.

Coisas materiais, entre apego, costume e compulsão para acumular tranqueiras, que poderão um dia ser úteis, vão preenchendo todos os espaços possíveis das caixas. Outras metem-se em sacolas ou irão soltas em qualquer parte do meu carro.

Mas em paralelo acontece uma mudança interna. Se dizem que a organização externa de nossas coisas é reflexo de nosso mundo interior, igualmente quando mudamos os móveis, eletrodomésticos, objetos de decoração, roupas e badulaques pessoais, cada coisa tenta contar sua história e os porquês de continuarmos habitando o mesmo espaço, mesmo as que ficam anos no fundo de uma gaveta ou encerradas numa caixa.

Essa lógica parece seguir o caminho inverso. As coisas nos ligam as lembranças de pessoas queridas, algumas tem uma história anterior, algo do bisavô que ninguém quis ou que nos foi passado como um símbolo de vínculo familiar, enquanto outras são emprestadas e nãos devolvidas ou esquecidas na sua casa pelos seus donos.

Seja qual for a natureza delas, enfim coisas são apenas coisas, que ninguém leva para outra vida, mas o simples contato visual nos levam para o nosso interior, resgatando os mais caros afetos.

Por outro lado, habitamos um corpo cheio de personagens, me diz o meu Doutor Jekyll e meu Mister Hyde. E na sala de estar da minha consciência começam a chegar todas as pessoas ligadas as coisas que devem ser devidamente embaladas, doadas ou simplesmente jogadas no lixo.

Certamente essas coisas remetem a lembrança de situações e pessoas, mas nunca as podem substituí-las. Reparei também que muitas coisas que joguei fora ou perdi em outras mudanças ainda estão comigo em imagens nítidas. Ainda bem que muitas coisas são neutras, não estão ligadas a ninguém, pois são descartáveis ou substituíveis.

Enquanto o gentil Doutor Jekyll tenta acomodar essa multidão que já se espalha pela casa, Mister Hyde as amedronta com grosserias e ameaças. Ninguém que tenha autoestima quer sair assim da lembrança de alguém e se precisar, por mais educada que seja, não se acanha de sair no braço com meu Mister Hyde, para ganhar seu espaço na próxima caixa.

O grande problema é a impaciência de Hyde, se fosse por ele, jogava tudo no lixo, depois de quebrar tudo, é claro. Desconfio que o sacana é adepto do Feng Shui, ele quebra as coisas para depois aplicar a filosofia chinesa: não é bom mantermos coisas quebradas em casa.

Ao contrário do Doutor Jekyll, um verdadeiro anfitrião que serve apenas as melhores lembranças para que os convidados se sintam à vontade, ponderando que, se embalou cicrano, porque não levaria ao novo lar o fulano também?

Afinal resolvo a pendenga, o lugar para o qual estou mudando é maior, não que seja exatamente melhor, então decido levar todo mundo. Felicidade geral momentânea, porque até Mister Hyde entrou na festa, mas além de comemorar, botou pra quebrar algumas coisas.

Nada como uma grande mudança para acabar de vez a rotina e estabelecer novos paradigmas. Apesar dela, adiei uma miríade de decisões sentimentais ou racionalizadas de um dia para outro, não tenho nenhuma ilusão de que certas decisões, principalmente as internas, se um dia não pararmos para tomá-las a vida se encarregará disso, ou ela ou nosso Mister Hyde.

 

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