Ana tinha uma expressão tão serena que chegava a ser apática. Olhava-me como se estivesse prestes a me tomar nos braços em acalento ou usurpar a minha dor. Ficava inerte com olhos bondosos e ouvidos apurados. Quando os lábios se moviam para revelar algum som, as palavras eram preguiçosas e estranhamente passivas. Pergunto-me quanta loucura havia dentro daquela casca tranquila. Falas rápidas de um tom astuto e ardiloso, pulos e gargalhadas para descontrair o tédio, berros e caretas ao menor indício de irritação…

O menino do lenço amarelo estava a malhar à frente da TV ligada, cantava e dançava entre um exercício e outro, agachando e inclinando a cabeça para um dos lados, como se quisesse movimentar o cabelo ralo, quando, de repente, Ana levantou da cadeira, empurrando-a, estreitou os olhos em incômodo e partiu para desligar a TV em um acesso silencioso de fúria. O menino do lenço amarelo ainda protestou, mas Ana replicou-lhe com um insulto.

Insulto sujo e estúpido, como as insinuações de mamãe…

Mamãe era escrava de sua condição de mãe, esposa e mulher. E por ser e agir de tal forma, tinha o péssimo hábito de acreditar que todas as mulheres deveriam o ser. Julgava e recriminava aquelas que se impunham somente porque ela própria não tinha coragem de fazê-lo. Depois dela, eu, segunda mulher da casa, recebia críticas o tempo inteiro por qualquer ato, falta dele ou até mesmo palavra dita.

A cada filho que chegava, mamãe colocava a mesa, servia o almoço e, quando terminavam, tirava a mesa e lavava a louça de imediato para refazer o mesmo processo quando outro filho chegasse. Nesse meio tempo, passava a roupa e varria a casa, enquanto era desaprovada por ter esquecido o feijão ou não ter feito sobremesa. Ao final do dia, sentava à frente da TV, o semblante esgotado e a respiração ofegante. O cochilo vinha depressa, mas era justo nessa hora em que papai sentava à mesa e ficava a esperar que seu jantar fosse servido. Mamãe acordava como se consciente de Papai e, sem reclamar, levantava-se e voltava a trabalhar.

Mamãe não tinha ideia de como era bom se divertir, mas Felipe sabia de cor…

— Marina? Marina?

Fui transportada como em um piscar de olhos, o rosto do doutor Jekyll estava tão próximo e sua voz tão alta que mais parecia uma sirene a me acordar. Além dele, as paredes brancas ofuscaram minha visão e eu precisei piscar repetidas vezes para me acostumar com aquele estranho ambiente.

— Você falava de Ana e fez novamente. Já conversamos sobre isso, você precisa aprender a reconhecer esses comportamentos…

— … comportamento das formigas ajuda a se adaptarem as mudanças em seu meio. E é por isso que elas estão sempre andando em filas e seguindo umas as outras.

Pedro olhava hipnotizado para o grande vivário, onde morava a sua coleção de formigas. Já eu não podia deixar de admirar a paixão que refletia em seus olhos com um brilho cálido e veemente.

 — Elas entendem uma sociedade matriarcal, são fantásticas — acrescentei.

Vi um sorriso que me contagiou apontar nos lábios de Pedro. Ele inclinou o rosto a fim de ver o meu e lá estava meu olhar favorito, terno e exaltado. Deu-me um beijo nos lábios e afundou o nariz em meu cabelo.

— Pedro, a mãe quer falar com você.

Que saco!, protestei em silêncio. Eduardo sempre nos interrompia. Pedro deixou o quarto rapidamente e eu sentei na cama para espera-lo. Pude escutar os gritos da mãe de Pedro, queixando-se com seu pai. Todos os domingos era a mesma coisa. O Sr. Pereira choramingava pelos cômodos, sentindo falta de sua cachaça, enquanto a Sra. Pereira o xingava e gritava com os filhos pequenos.

—Marina, você está aqui!

A namorada do irmão do meu ex foi entrando no quarto sem pedir licença e me dando um abraço como se nós fôssemos melhores amigas. Ao me soltar, baixou a cabeça e curvou a postura quase igual a um corcunda, vi seu peito trepidar…

Virei a cabeça quase instantaneamente na direção do som da locomotiva, era como se vagões em alta velocidade estivessem destinados a me atravessar, mas, diferente de um trem, vi doutor Jekyll apertar na tela do celular e o som se dissipou, interrompido. Dei-me conta de que o som fora usado apenas para chamar minha atenção.

Lá estava eu novamente naquele consultório.

— Você tem falado com Pedro? Tem visto a namorada do irmão do seu ex? — perguntou doutor Jekyll, as pernas cruzadas, a caneta sobre o papel.

— Não — respondi. —De acordo com Pedro, nós temos diferenças irreconciliáveis.

— Você falou algo sobre ela, como se estivesse a pensar alto. Quer me dizer algo sobre isso?

— Não. Sim, ela é dissimulada.

— Como você sabe? Lembro-me de que você me disse que nunca havia falado com ela.

— Como não? Ela ficava sempre calada, observando tudo, não falava com ninguém, nem mesmo um oi, mas os olhos diziam tudo, ela era dissimulada. Tanto quanto aquela médica da Unidade de Pronto Atendimento. Não falava quase nada com os pacientes, mas era dissimulada. Colocava os pacientes para dormir, sedando-os…

— Marina, você não pode criar situações que não são reais apenas porque você acredita que determinada pessoa possui certa personalidade. Precisa se ater ao o que é real.

Ah, doutor Jekyll tão gentil com as palavras. Tenho certeza de que em casa grita com todos, manipula a esposa e finge que os filhos não existem…

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