— Estou descendo as escadas.
— Contando 15,14,13, 11.
— Você pulou o número 12.
— Concentre-se! Imagine uma porta à sua frente; 10,9,8,7. Abra a porta. Contagem final: 6,5,4,3,2….

Orquestra de estalar os dedos. Paredes brancas. Alguém que acredita em seu trabalho.

— O que você vê? Quem é você?
— Continuo sendo eu. Com as roupas que escolhi antes de entrar em seu consultório. Estou num parque.
— Há bancos neste parque?

(1850. Em minha caixa preta se desenham bancos, muitas árvores. Um laguinho mixuruca. Inverno europeu.)

— Vejo um homem e seu chapéu. Está lendo um jornal.
— Aproxime-se a ele.

(Sento-me do lado deste homem. Sei o que ele faz, para onde ele vai. Quando vai morrer. Usa um pince-nez.)

— Vamos, fique com ele. Siga-o. Este homem é você.

(Eu, um homem. Sério? Não sei se quero continuar. Vejo uma trilha que dá à Universidade. Um palácio antigo. Lugar de prestígio. O homem de chapéu sério. Repito a mim mesma: seríssimo. Semblante intelectual. Leitor omnívoro.)

— Sinto uma dor no peito. Uma dor de cabeça aguda.
— Este homem deve estar preocupado. Seu trabalho o atordoa.
— Não sei dizer. É professor. Muito provável.

Os tempos não mudam.

(Uma janela contorna o cenário mental, um gato de estimação. Cores pastéis. Uma chaleira de porcelana desprendia um vapor. Mas ele [que era eu] espera alguém.)

—  Ele está casado? Vive sozinho?
— Tem uns quarenta anos. Demorou para casar.

(O apartamento tem mobília de madeira. Como não lembrar daquele lar. Modesto. No centro da cidade. Chovia muito. Ideal para se acomodar na biblioteca.)

— Vejo uma moça de cabelo castanho escuro. Cheia de saias. Espartilho.

(Seio pequeno. Fragrância bergamota.)

— Vocês têm filhos?
— Três, aliás, quatro: a última vai morrer de tuberculose.

(A do meio é minha mãe. Depois não sei.)

— Vamos para a hora da morte?

(Não quero morrer. Mas quero deixar de ser homem e usar pince-nez. Não me cai bem. É o jeito.)

— Estou na cama. Morro triste. Pensando nos livros que não consegui ler.
— Agora vamos para uma existência antes dessa. Deixe de ser o professor sério.
­— Volte para sua vida posterior a do professor. Vou contar até 5: 1,2,3….
— Estou numa estação de trem.
— Para onde você vai?

(1928. A estação de trem está cheia. Flocos de neve. Leste europeu. Estranhamente, não sinto frio. Entro no trem e abro o livro “ O médico e o monstro” numa péssima tradução ao russo. Também sou um pouco “Jekyll e Hyde”. Só que meu marido não sabe. Sofro de transtornos. Escrevo compulsivamente.)

— Vou à casa. Meu marido me espera na estação. Capricharam. Sou uma diva. Fios escuros. Olhos grandes. Baixinha.
— Concentre-se. Como você se sente?
—  Escrevo nas horas vagas. O homem que mora comigo se sente só. Não gosta que eu escreva. Sinto-me frustrada.
— Vocês têm filhos?
— Sim. Um menino e duas meninas.
— Casam?
— A menina do meio fica com a gente.
— Sou uma mulher independente. Uma moça que trabalha na enfermaria. Um dos poucos trabalhos reservados ao mundo feminino.

(Tenho uma vida pacata. Temos um parque ao lado de casa e bebo vinho. Talvez mais do que deveria.)

—  Sou feliz, mas queria ter mais tempo para escrever.
—  Seu marido morre antes ou depois?
—  Quinze anos antes.
— Então, você deve ter tido muito tempo para se dedicar à escrita.
— Sim. Sou egoísta. Sinto-me livre. Escrevia melhor. Desenvolta, segura de mim.
— Você deve estar com um monte de traumas.
— Pois, é….
— Vamos para a hora da morte?
— Já? Estou tão bem com este modelito e tenho uma história genial na cabeça. Não sabia que a felicidade estava aqui, antes de mim.

(Preciso de um papel e uma caneta. Agora! Um frio terrível. Eu que detesto frio. Mesmo assim não volto. Não preciso de internet e posso dar “adiós” à vida virtual.)

— Sei até francês e uns versos do Baudelaire
— Baudelaire? Quem é? Seu amante?

Recito baixinho: — Là, tout n’est qu’ordre et beauté/ Luxe, calme et volupté.

— Ana, acorda! Voltando para 2016; contagem regressiva: 5,4,3,2….

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