Há uma sombra pesada e densa sobre mim. Não é de agora, mas hoje, ao despertar, senti-me sufocado por ela. Não quis sair da cama. Não consegui.

Minha mulher veio até mim e perguntou se estava bem, mas disse que me sentia doente. Ela perguntou o que eu tinha, eu disse que não sabia, e ela saiu para trabalhar mesmo assim. Disse que ligaria para saber como eu estava mais tarde, mas não ligou.

Acho que ninguém se importa com ninguém.

Levantei antes das oito, o corpo dolorido, sem coragem alguma. Liguei para o trabalho e expliquei a situação para meu chefe, que não ficou muito feliz com minha ausência mas, vá lá!, o importante é que você fique bom logo. Amanhã será um dia cheio, com as visitas dos consultores e tudo o mais, então é melhor se cuidar e estar aqui amanhã cem por cento.

Desliguei. Acho que nunca estive a cem por cento. Parando para pensar, sempre fui melancólico. Sempre vivi em meu mundinho, olhando para tudo com desgosto e desconfiança.

Até ontem minha felicidade ilusória conseguiu me enganar. Até ontem eu ainda conseguia fazer planos para o futuro e acreditar que, apesar dos fatos, tudo iria dar certo.

O que se quebrou em mim de ontem para hoje? O que é esse vazio, esse gelo, essa indiferença dolorosa que se espalha em mim como uma febre?

Seria eu o último dos trágicos, daqueles que sentem a dor do mundo em sua totalidade?

Teria eu aspirado o pólen ou o perfume das Flores do Mal?

Caminhei até a varanda. Pela tela de proteção, o dia se espraiava claro e colorido. Se eu não estivesse tão dormente, talvez fosse um dos dias mais bonitos que já vi.

Senti as lágrimas descerem. Quentes e sem sentido. Uma parte mínima de mim chorava. A parte desprezível que queria ser salva, que desejava continuar existindo. Sufoquei-a.

A consciência da sombra crescia e me abraçava. A escuridão fria não tinha preconceito algum. A promessa do esquecimento era inquebrável, e sua sedução não dava espaço para ambiguidades.

Apanhei uma faca na cozinha, deitei na banheira e deixei que os talhos em meus pulsos me entregassem, pouco a pouco, o tão sonhado fim do sofrimento mudo. O calor escorria em ondas, deixando em seu lugar uma fria vertigem.

A pequena parte de mim que queria viver tentava, em vão, não se afogar na escuridão. Do alto de minha indiferença, não conseguia sentir nada.

Eu não deixei carta, aviso ou sinal de alerta algum.

Amanhã, os auditores vão ter que se virar sem mim.

O telefone toca, e toca, e toca, mas já não estou mais aqui.

O cheiro doce e metálico toma conta do banheiro.

O chão frio.

Tudo tão escuro…

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