Eu já estava acostumado à escuridão. A cada dia, mais e mais dela me envolvia em um redemoinho de dores e lembranças. Não adiantava tentar distrair-me com o agora ou o que poderia ser o amanhã. Nada, absolutamente nada, conseguia fazer esse redemoinho se acalmar a ponto de eu conseguir livrar-me dele. Mas, mais do que isso, eu não queria deixá-lo.

Livrar-me de minhas dores era o mesmo que me livrar das lembranças. E estar sequer um segundo sem pensar em tudo o que me moldara nos últimos tempos era o mesmo que esquecer-me de mim mesmo. Por isso eu usava o mesmo trajeto todas as manhãs, embora mal reparasse na orla da lagoa cheia de patos. Poucas vezes – bem raras, para falar a verdade – eu deslocava minha atenção para uma criança que gritava em surpresa quando via um peixe pular e fugir do anzol, ou quando ria até quase passar mal por ter um cachorro a lambendo mais do que a higiene poderia um dia permitir.

Esses rompantes de alegria alheia faziam a escuridão soltar um e outro dedo de mim. Mas logo eu me esquecia do mundo ao meu redor e seguia o caminho. E aquela manhã não seria diferente.

Alcancei o amontoado de pedras além da lagoa e dos risos meia hora depois, agradecendo a sorte por estar sozinho. Não, não era sorte. A sorte nunca sorrira para mim. Afinal, como algo inexistente pode sequer ter um rosto com lábios? A sorte não existia. Era algo inventado por pessoas que não aceitavam que seus próprios atos, e os de outrem, traziam consequências que às vezes você conseguia enfrentar. E outras vezes não conseguia.

Eram nestes momentos – momentos sem sorte, de azar, de infortúnios –, quando as consequências eram fortes e contrárias demais, que tudo se transformava em escuridão. Um imbecil que não verificara corretamente o carro que teve o volante travado por um instante; a mãe que deixou a criança adormecida no berço para ela mesma dormir, mas esquecendo que a janela que dava para a rua estava destrancada; a moça que, feliz demais para alcançar quem amava, atravessou a rua no momento em que um bêbado dirigia a toda velocidade. Para alguns, pessoas sem sorte. Para mim… Para mim eram apenas pessoas que não tomaram o cuidado de pensar antes agir.

Patrícia não tinha pensado. Doía cada parte de meu corpo, enchia de escuridão e morte cada centímetro de minha alma, raciocinar dessa maneira. Mas era a verdade. Ela não tinha pensado ao subir naquelas pedras, com seu joelho falho, levemente embriagada depois de uma noite inteira de vinho e sexo e risos. Mesmo que tivesse subido naquelas pedras, pela primeira vez, aos seis anos de idade.

Mas, naquela manhã, com o sol mal nascendo entre nuvens ainda carregadas da chuva da noite anterior, Patrícia não pensou. Não mediu as consequências. E quando eu vi sua mão deslizar depois do joelho falhar miseravelmente, soube imediatamente a consequência daquilo.

Não durou dois segundos a queda de quase três metros em direção àquela pedra lisa, arredondada, que Patrícia usou como primeiro degrau para o cume. Em minha mente, porém, eu via e revia aquela queda por longos minutos. Horas. Com a escuridão me envolvendo, me consumindo.

Ela não sofreu, tentou consolar o médico. Mas que consolo eu encontraria, enquanto a escuridão me sufocava, turvando minha visão para aquele mundo antes tão cheio de cores? Um mundo em que Patrícia ria enquanto bebia vinho comigo, enquanto ríamos na cama, nos amávamos, fazíamos promessas?

Os musgos tão comuns começavam a perder espaço para as flores, que cobriam tudo – chão, troncos, pedras –, e o cheiro ardeu meu nariz. Torci-o, não querendo espirrar. Elas tinham cheiro de morte. Vermelhas. Cinzas. Negras. Pisquei. Escuridão de novo, que engolfava, que sufocava. Olhei novamente para as flores, em desgosto, agora. Eu preferia as flores de plástico. Elas, ao menos, não morriam.

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