Ilustração do autor

 

Há aqueles que abusam da sorte, uns mais, outros menos. Sorte é um conceito relativo e discutível, pois o que é sorte para um pode ser o azar de outro, e nada assim tão dicotômico. Se o problema de ganhar na loteria fosse apenas matemático, não haveriam os espertos vendendo segredos numéricos para os menos desavisados que os compram. Sorte de quem vende, azar de quem compra.

Nascidos com a bunda para a lua, denominação popular dos ganhadores milionários que fizeram a aposta mínima e PIMBA! Na mosca. O primeiro passo para poder usufruir do fator sorte ou probabilístico na loteria, não custa informar aos que reclamam do azar, que para ganhar, tem que jogar. A velha e antiga piada em que um fulano se queixa de não ganhar na loteria e o outro diz: Joga cicrano, joga! Ou seja sem arriscar não se leva nada.

Porém o abuso da sorte que me referia acima, é por conta dos esportes radicais ou coisa do gênero espetacular, tipo saltar de moto por cima de n caminhões, depois n + 1, n+2, n+3, etc., que visto de longe parece loucura, de perto aparenta ser mais ainda.

Verifica-se equipamentos, monta-se equipes supertreinadas onde há técnicos e alta tecnologia envolvidos para aumentar o grau do desafio com segurança, mas quem pratica sabe que segurança total não existe.

No dia a dia, o treinamento é duro e o mesmo não deixa de ser arriscado. Todos que praticam estão por conta e risco, que se diz calculado, mas poucos abrem mão deste perigo.

A primeira coisa que nos diz a estatística geral é que temos mais chances de escorregar numa casca de banana ou no chão molhado e batermos a cabeça, do que nos estreparmos no esporte radical, embora este tipo de risco seja proporcional a habilidade pessoal.

Se por ventura fossem privados de suas atividades, os praticantes do esporte radical diriam: – Meu e a adrenalina? Se eu parar, onde irei encontrar essa emoção circulando no sangue? No final tudo tem risco.

Sedentários de plantão, curtindo as mesmas emoções em sua poltrona na frente da televisão ou nos computadores que o digam: – Pô! Mas eu não me arrisco e ainda corro risco? Pois é, se ficar o bicho come, se correr o bicho pega. Com certeza há o meio termo.

Pegar aquele bote para dez pessoas vestindo coletinho para descer as corredeiras como passageiro, voar até os Estados Unidos para experimentar a mais alta montanha russa no carro da frente, na primeira fileira ou saltar de paraquedas atrelado ao instrutor. Ou seja, viver emoções análogas com segurança baseada na habilidade alheia e na confiabilidade dos equipamentos utilizados.

Tirando o blá, blá, blá da manutenção que obviamente deve ser realizada e no blá, blá  blá, tudo sempre é impecável, e nem ligando para a fiscalização que também deveria existir, ou seja, tudo que em primeiro lugar é questionado a exaustão depois de acontecer algo de ruim. No último exemplo, o do salto, tem uma característica bem peculiar.

O paraquedas, além da necessidade de checar, tecido, tirantes, linhas, elos de ligação, etc. tem a dobra do mesmo. Este ato de dobrar o paraquedas da maneira correta pode ser delegado a um terceiro especializado ou fazer você mesmo.

Há cursos para aprender a dobrar, salientando que além de você não depender de ninguém para realizar seus saltos, irá entender como funciona a coisa e a vantagem disso, por exemplo, caso você precise numa emergência cortar, como dizem, a corda certa, se o dito cujo não abre ou não abre corretamente e seja necessário tal procedimento.

Se for dobrado por outra pessoa, não custa saber o seu nome, caso tenha chance de reclamar depois. Sério! É um serviço que muitas vezes é cobrado, outras, realizado na camaradagem, pois dizem que muitos adeptos do salto acabam não aprendendo ou por não ter tempo, não dobram seus paraquedas. Sim, no plural: o principal e o de emergência. Como diz o velho adágio da prevenção, quem tem só um, tem nenhum.

Se de perto ninguém é normal, cada qual com suas manias, esquisitices e loucuras. Mas saltar, se um dia eu subir no avião e pular, a primeira coisa que faria no solo seria agradecer a quem dobrou o paraquedas por inúmeros motivos, o maior deles, a celebração da vida. E dependeria sim dos outros, pois sou uma negação no origami, imagine dobrando o meu paraquedas! Fora isso, de nada adiantaria saber se corto o fio x ou y, pois nunca iria pular sozinho.

No mais, se está tudo impecável no equipamento, vamos para o fator humano, a preparação nos mais variados aspectos. Geralmente me dou bem na segunda ou terceira tentativa. Não parece, o meu padrão, ser de grande valia neste caso. Por exemplo, depois de tirar carta tardiamente por causa de um trauma de infância, na minha primeira rodada por São Paulo, eu ainda tinha dois desafetos, um deles era subir ladeira íngreme, a outra andar de ré.

E não é que vendo um ladeirão na minha frente, tomei coragem, acelerei, passei as marcha sem arranhar, apesar dos gritos de minha mãe e minha irmã. No meio da ladeira o fusca azulão cafungou, morreu e entendi que eu estava na contramão. Fui obrigado a descer de ré a ladeira, sob uma sinfonia de buzinas. Imagine eu num salto tentando me lembrar que fio eu devo cortar? E isso tudo ladeira abaixo, ou melhor, céu abaixo e chão embaixo.

E por fim, quando juntamos treinamento, experiência, equipamento de última geração, manutenção impecável, fiscalização preventiva e na hora H falhar tudo, ao se escapar com vida, com certeza deve-se acreditar que existe algo mais, que alguns atribuem, se religiosos, a Deus e se não, a sempre bem-vinda sorte.

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