Ilustração de Ernst Ludwig Kirchner (1880 – 1938)

Eu era jovem e ainda não usava óculos. Tinha as pernas que pareciam não tocar nada. Só absorviam água do chuveiro ou da piscina. Onde eu morava quase não chovia. Era seco e frio. O céu visto de baixo, às vezes, me surpreendia e aparecia com sua cor, os fios elétricos não contaminavam a paisagem.
Naquela cidade estrangeira, eu nadava, e para melhorar meu desempenho, imaginava que alguém quisesse pegar no meu pé: os corpos variavam conforme a intensidade que queria dar ao meu movimento: ex-namorados apareciam para esticar seus braços: medalhas de ouro olímpico, desconhecidos, o próprio medo. Fingia isso pois no fundo sabia que ninguém iria aparecer. Minha casa, as pessoas, meu corpo passado. Tudo aparecia em sonho e nas águas da piscina.

No fundo, eu vivia muito longe. E se dizem que a coragem é traduzida por pular de um avião de paraquedas, escalar uma montanha, se jogar da ponte. Eu digo que isso é fichinha em comparação com viver longe de casa.

Uma semana antes de partir, estava saltando de alegria. Duas semanas depois de chegar, confesso que chorei várias vezes: no chuveiro, debaixo do travesseiro, e agora que me lembro: não consigo sentir mais o pior choro. Nem quando um grande amor me deixou. A saudade dos que vivem longe é algo de muita coragem. O passar dos dias. O desencontro dos eventos, é algo que pode doer. O cheiro de carências dentro de casa.

Numa das casas onde morei, havia dois andares dois gatos e duas pessoas. Um pintor e uma ausência.

Eu tentava aprender a falar como os nativos, mas era algo irreal. Meu sotaque me delatava e súbito, já não era mais eu; mas sim minhas variações fonéticas e meu estranho modo de prender o cabelo. E, a partir daí, se acionavam observações das mais indiscretas: meu jeito de caminhar, os livros que tinha lido, a maneira de convidar as pessoas,  a clandestinidade.

Escrevia à noite numa língua manchada que só eu entendia: traduziam meus anos de juventude. Eu de um lado —o oceano— eles do outro.

Numa cidade pequena, me perdia e conhecia gente estrangeira. Os nativos já tinham suas vidas. No inverno fazia muito frio e o jeito era beber vinho e ficar do lado da lareira. Naquela época lia e assistia filmes, ficava imitando o sotaque das pessoas. Enquanto isso meu corpo mudava; aprendia que o salto não combinava comigo e que deveria usar luvas ou conservá-las na bolsa entre novembro e abril.

Depois aprendi a cozinhar e usar o azeite medir o sal deles, e organizar possíveis combinações de alimentos para cada prato; utilizar a bebida adequada para cada refeição. Segurar o garfo e cortar a cebola.

Me inscrevi na Universidade e comecei a me passar por eles que não eram meus. E quando voltava para a terra natal, sentia saudade de não estar lá na terra estrangeira, ou qualquer lugar. Já não conseguia ficar inteira. Meus amigos, minha família, continuavam seguindo seu destino. O meu era outro.

E logo, me confundia, e sonhava numa língua aprendida, artificial. Amava seus versos e detestava quando suas palavras me conduziam num beco sem saída. Havia aprendido a estar sozinha? Sem almoços de domingo, com feriados sem importância no meio da semana. Passando comigo mesma semanas inúteis, devorando livros, pedalando de bicicleta quilômetros. Observando a vida dos transeuntes em dias que antecipavam as festas natalícias. Esta prática foi tão bem executada durante os anos, que ao me ver num aglomerado de pessoas, tinha a proeza de me fazer sentir ainda mais só. Largava tudo e ia embora.

Uma mera expectadora. Como se minha vida estivesse se passando em outro lugar sem mim. Na fila, esperando o meu turno. Mas uma coisa me mantinha acesa: era a coragem de tentar me descobrir por debaixo dessa couraça.

Depois de muito tempo.

De volta para o mundo real, ao sair da fila de espera. Percebi que por onde me movia, por onde falava, onde existia, me sentia com essa estranha sensação de leveza. Já não precisava me sentir de lugar nenhum. Já podia sentir.

Refúgio em mim.

E aquele corpo, aquela vida, fincada em algum lugar do antes, do quase, do nunca, podia inundar nas águas da piscina.

Havia aprendido outros sonhos. Havia aprendido o desapego.

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