Ilustração “Terremoto” de Mag Magrela.

Patrícia desliga o celular, apressa-se em pegar a bolsa e as chaves de casa. Deixa o kitnet sem titubear ou se prender a exaustão que a fizera tirar um cochilo pela tarde e caminha apressada até o ponto de ônibus mais próximo.

A viagem nunca lhe parecera tão longa. Nem se dá conta da orla, mas sabe que está próxima ao mar porque a brisa embaraça seus cabelos e a maresia imprime em seu olfato um frescor singular. Ao chegar ao prédio, o porteiro lhe pergunta para qual apartamento subirá. Patrícia responde tão rápido que quase não se faz compreensível.

Corre alguns passos para aproveitar a leva de pessoas que entravam no elevador. Olha para os números dos andares, antes de apertar o botão certo, isso só a faz se sentir ainda mais distante.

Mal entra no corredor, que se estende como um beco estreito e comprido, e se depara com a porta de número 25. Fica a encará-la, a pressa se dissipa como um balde d’água jogado em seus ânimos. O estômago reclama em receio, a intuição pessimista pesa em seu peito e as pernas fincam raízes no chão. Nesse momento, a voz de Nathália eclode em sua mente, “você procurou, agora aguenta”. Patrícia, desamparada que é, toma as palavras como apoio e bate na porta. Mal sabia ela que a amiga estava mais para “bem feito” do que para um conselho.

A porta se abre, Patrícia entra de carcaça decidida, mas íntimo vacilante. Encontra Paulo em uma mistura de mulheres e rapazes ao redor de uma mesa velha e descascada, cigarros usados, copos vazios, bebidas derramadas.

Toma o lugar que inconscientemente pensa pertencer a ela, ao lado de Paulo, sentando-se no sofá. Paulo a olha inexpressivo, quase que ignorando a sua presença, transformando-a em uma espécie de janela alheia. Patrícia devolve um olhar que se derrama em palavras, enlameado por um abismo de expectativas e decepções colecionadas.

Ele pega o copo cheio pela metade de whisky e ri com e dos amigos. Sorriso fácil de moço desinteressado, impressionável que cativa por esconder todas as chagas de seu egocentrismo exacerbado. Patrícia se esforça para se integrar à nova atmosfera, apesar de saber que algo está quebrado.

Novas pessoas chegam, entre elas, uma se aproxima de Paulo. Patrícia observa a desenvoltura com que Paulo cumprimenta a mulher, carinhoso e atencioso. Ela abaixa o olhar e se pega sorrindo em um mecanismo de autodefesa ao botão do constrangimento ser acionado.

Vê a moça se despedir e Paulo a seguir com o olhar. Pergunta aos sussurros o que estariam fazendo ali. Silêncio. Ela mantém o olhar em Paulo, como se com a mente exercesse algum poder sobre ele para fazê-lo responder. Cerca de uma fração de minutos depois, ele aproxima a boca da orelha de Patrícia, murmurando algo sobre não ter escutado. Patrícia repete a pergunta, o tom desvelando uma sinfonia de irritação. Ele narra uma série de frases, jogando-lhe ideias goela abaixo.

Patrícia faz menção de se levantar, mas Paulo a agarra pelo braço, fazendo-a se sentar novamente. Os lábios se afundam nos lábios de Patrícia com afinco. A mão corre para lhe afagar o cabelo. Dá-lhe um sorriso de covinhas e até parece haver calmaria em uma troca de olhares, se a sinceridade estivesse em ambos os lados. Naquele momento, Patrícia agarra-se ao Paulo que desenhara em seu inconsciente com todo o ardor de amores correspondidos e sente-se transportada para outra dimensão. Tivera seu Paulo de seis meses atrás retornado?

Ela se derrete sobre seu ombro, a esperança despencando de seus olhos como água de cachoeira incessante. Paulo aproxima o nariz de seu rosto, como que para alimentá-la. Ilusão das mais caras. Dentro de alguns segundos, lá estava Paulo, inconsciente de Patrícia, como que carregando um fardo sobre o ombro.

Como um vislumbre de consciência, Patrícia se recorda que largara tudo para ir atrás de Paulo, renunciara ao descanso para estar ao seu lado, atravessara a cidade e embarcara no 77 por volta das oito da noite para chegar ao apartamento de Lucas. Ávida em fazer parte, integrar, unir-se. A sombra de estar sempre na superfície a consome e a impele a se afastar de Paulo. Escorrega as costas pelo sofá, enquanto experimenta o vazio constante de seus dias.

Paulo coloca o braço por sobre seus ombros. Contendo-a ali como um fantasma de corpo presente. Patrícia recosta a cabeça, amparando-se. E ali permanece, acreditando ser desejada. Absolvida e resgatada.

O tempo corre, Patrícia observa cada ato de Paulo. Escuta suas palavras baixas, suas piadas estúpidas, o modo como flerta com as garotas ao olhá-las e como faz tudo parecer uma grande festa. Por diversas vezes, o vê levantar, brindar, dançar e retornar. E por retornar, agarra-se ao pensamento de que Paulo ainda lhe é fiel e a estima.

Exausta, pede-lhe para ir para casa. Paulo não a responde, nunca a enxergara de verdade. Patrícia agarra o seu pescoço de modo a direcionar o olhar dele para o seu. Paulo lhe dá um beijo rápido como que para calá-la.

Indigna de atenção, Patrícia se esconde em algum lugar dentro dela mesma, fazendo de si segurança e abrigo para se proteger do inverno de rejeição que a entorpece e a faz náufrago de seu profuso amor. E inicia um diálogo interno para culpar a bebida, as amizades, as mulheres, exceto a Paulo. Porque não quer perceber que eles nunca estiveram a salvo, mas sempre à deriva.

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