Engraçado como civilizações antigas, se é que se pode chamá-las de “civilizações”, achariam este modo de registro assombroso, não? Uma carta digitada telepaticamente. Talvez eles chamassem isto com algum nome como… “tecnologia ‘smartphone’ acoplada à cabeça, ao cérebro e no ouvido”. Não sei como eu conseguiria viver aquelas “tecnologias” de antigamente, que estudamos em História Antiga. Chamavam aqueles caixotinhos desajeitados, que sempre tinham que ficar carregando bateria, e sempre desligavam ou ficavam sem sinal, de “smartphones”, né? Muito smarts. Sim, bem “inteligentes”… Carregar algo pra lá e pra cá. Que pode ser roubado. Deixar-se cair. Em que você precisa digitar.

Enfim, detalhes. O que preciso mesmo dizer aqui é de minha vontade irrealizada de viajar. De conhecer outros planetas. Outras galáxias. Outras dimensões. Outras civilizações. Outras espécies, humanas ou não. Tantas línguas em que conversar. Tantos sistemas de pensamento. Para sentir. Minha dor.

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Desenho feito pelo autor em 1995, com 12 anos

Minha dor. Redes neurais sociais me permitem, é claro, a comunicação com todos os mundos. Porém, minha viagem mental é aparentemente ilimitada. Aparentemente. Artificialmente. Mas não posso nadar em mares venusianos. Nem sobrevoar colinas rarefeitas com os moluscos atlânticos pela galáxia de Andrômeda.

Afinal, não me movo. Sou totalmente conectado fisicamente com este chão. Enraizado, literalmente. Como uma árvore. Bem pesada, troncuda. Porque, afinal de contas, sou mesmo uma árvore. Uma árvore humanizada. Antropomorfizada.

Poderia viajar num vaso, talvez? Quem sabe… se eu não fosse uma árvore tão gigantesca… devo ter uns 25 metros de altura. Com raízes muito bem fincadas no solo, avançando por outros tantos metros de profundidade e se espalhando por quarteirões. Se eu fosse uma plantinha menor ao menos… Sem todos estes anseios e aparência de grandeza.

Além disso, a atmosfera daqui é única para minha espécie. O fato é que a composição química do ar que me rodeia me preenche, me cerca e me aprisiona.

É assim que permaneço fadado a permanecer aqui para sempre.

E veja só… eu havia dito que não posso viajar a outros planetas? Ora, há tantos mundos, mas nem os que existem em outro continente, país, estado, cidade ou mesmo bairro posso visitar. Não posso experimentá-los. Não posso vivê-los. Respirar seu ar. Sua vida. Sua civilização. Sentir sua gente, suas espécies. Seus conflitos, sua insegurança, seus medos. Não, pois minhas grossas e profundas raízes não me permitem. Sem contar o meu peso de troncuda árvore. Não posso viver outros medos, pois a segurança total aqui faz parte do meu ser.

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Desenho do autor em 2012, com 30 anos

Vivo em solidão. Ok, posso até estar conectado a tantas moléculas de ar, de solo, de nutrientes, e até de pacotes de informação digitais. Porém, isso não é de fato a interação física e dinâmica que eu queria. Uma mudança real, presencial e emocional. Posso até ser admirado por meu tamanho, por meu tronco, meus galhos que tanto se ramificam, minhas folhagens, às vezes translúcidas, de tanto que me exponho para o mundo. Umas flores, coloridas. Gosto de decorar o ambiente. Gosto de expor beleza para o mundo. Mas daqui não saio. E ninguém realmente entende o que sofro por dentro.

Nunca vivi verdadeiramente, pois viver é interagir, é mudar, é transformar, é realizar trocas com os outros. É crescer em cultura, é se desafiar diante de outros modos de viver, sentir e pensar.

Em vez disso, ainda por cima, sigo preso a este planetinha sujo, corrupto, mal-educado e egoísta na periferia da Confederação Galáctica. Tão sujo, venenoso, cheio de metano, recheado por metais pesados, enxofre. É fedorento. Mas eu não sinto o cheiro mesmo. Apenas sei que assim é. Pois percebo as consequências materiais associadas com tal odor tão negativo. Aliás, é triste ironia que este seja um ar tão próprio para meu próprio desenvolvimento orgânico ao longo destes séculos. É neste ambiente que sigo enraizado.

Uma vez até tive a sorte de estar em outro planeta. Creio que foi Júpiter, Saturno, Urano. Porém, não era real, percebi depois. Apenas uma ilusão de minhas conexões neuro-vegetativo-sociais, acredito. De que serve, afinal, uma passagem assim, se não é para um mergulho concreto em outra realidade?

Fagulhas de tempo. Fagulhas de felicidade. De gente diferente. De sistemas variados de pensamento. Alternados. Em dialética com meu ser. Variações únicas de paisagem, seja natural, arquitetônica, urbanística. De constelações sociais.

Foi temporário. Alegres momentos? Sim, foram. Porém, a dor que se abateu em mim depois… ao perceber meu engano…não sei se compensou. Às vezes, creio que a inocência seria muito melhor. Se eu não tivesse acesso a tantas doses de informação, conhecimento, processamento de dados, raciocínio, complexidade emocional, que me foi artificialmente desenvolvida e acoplada, ciberneticamente… Sinto que eu não sofreria tanto assim, com estes meus anseios.

Todavia, é inegável que possuo a ampla perspectiva conectada e informativa de viver neste Universo livre, gigantesco, infinito, sem raízes a prender-me fixo em meu solo. Sem minha obrigação de fotossíntese.

Por que me deram consciência? Para que anseios, se não posso realizá-los?

*

Era assim que eu vivia refletindo. Ao menos até que certas raízes me tocaram. A princípio, apenas na superfície. Na realidade, foi apenas uma folha caindo a centenas de metros de distância, a princípio. Vieram outras. Brisas e ventos as trouxeram. E meus galhos retorcidos as sentiram. Era uma sensação diferente. De esperança. De frescor. De renovação. E de mudanças. Um gosto aparentemente mais real e corpóreo dos outros mundos que eu tanto sonhava em conhecer.

Sim, tempos passaram-se até que de fato a primeira raiz dela tivesse me tocado literalmente. Encontrei antes seu tronco, seu belo caule em formato sinuoso e suave. Era também intenso. Firme. Seguro de si. E trazia cores nunca vistas. Ou até vistas, claro, porém com marcas mais fortes, concretas.

E ela… mesmo sendo tão diferente… me fez perceber que era como eu. Era de minha mesma espécie. Era deste meu mesmo planetinha periférico. Distante alguns países de mim, porém na mesma atmosfera. Desafios e limitações de portes similares, a bem da verdade.

Porém, ela me fez perceber que toda esta casca… tão majestosa… era apenas apego. Tanta bagagem que eu desejava tanto preservar, de outras vidas, outros tempos. Tudo isso era peso, simplesmente. Era duro. Eram minhas raízes. Meu tão grosso e duro tronco, tão pesado, com minhas ramificações incontáveis de galhos por onde eu pensava em seguir.

Tudo aparência, afinal. Há tempos as conexões transplantares eram possíveis, eu apenas não tinha percebido isso. Este meu corpo é orgânico, é vivo, de fato. Porém, não é essencial para mim. Não é uma prisão. É apenas um suporte. Transplantes de consciência eram muito mais comuns em minha espécie do que eu pensava. Este meu corpo, tão pesado, majestoso e rígido… era apenas uma ilusão. Isto sim, que era uma ilusão.

Enfim, quando eu não tinha mais esperanças. Quando minha fotossíntese já estava defasada, minha clorofila e cloroplastos ultrapassados, obsoletos. Folhas murchas. Galhos quebradiços. Meus implantes cibernéticos, neles me afogava. Navegando isolado por mundos irreais. Em contato crucialmente falso e imaterial com tanta gente de multidão que não podia tocar, cheirar ou ouvir.

Ela estava ali. A esperança de cortar raízes. Que jamais foram minhas, na verdade. Mas projeções. Cascas. Acenava-se um motor em erupção. E laços. Vermelhos. De flores. Em seu delicado punho de galho à minha direita. E outras flores me acenavam em sua copa, uma flor de cada vez, amarela, vermelha. Tão singulares e tão belas. Elas são tão reais.

Flores de uma árvore que, por acaso ou desejo do Universo, veio aqui me encontrar, onde sempre estive enraizado. Com seu tocar de raízes, lá nas profundezas do subsolo em que compartilhamos as mais íntimas, obscuras e indecifráveis experiências, senti-me restaurado. Senti tudo o que eu poderia ter sido também. Tudo o que ela também viveu, mudou, interagiu, alegrou-se, aprendeu e sofreu. Tanta potência fotossintética reunida! Que verde em suas folhas! Que intensidade…!

Suas raízes mostraram-me dimensões e civilizações, estrelas que eu tanto queria conhecer. Dei-me conta de que minha liberdade agora era possível. Ela tudo isso me mostrou, coragem concedida. Liberdade estimulada. Capacidades exploradas. Percebi que eu podia ir aonde eu quisesse experimentar e desfrutar. Sim, posso. Mas, ao lado dela, não sinto mais essa necessidade. Vamos criar mais raízes, talvez aqui mesmo, num outro país ou planeta, não importa. Porém o mais importante é a seiva que compartilhamos. E os frutos que criamos.

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