ilustração do autor

Ao sermos adquiridos, nossa primeira tarefa é irmos por conta própria ao encontro do nosso humano. Pela nova legislação, cada humano pode manter apenas um robô humanoide XB, por isso quando eu chegar ao meu destino, a unidade que estava com Teófila irá retornar a base e ser reavaliada.

Eu nunca fui reavaliado. Esta será a primeira vez que estarei face a face com um humano, fora Gálico que não conta, pois não sai da base para nada e acabou ficando muito parecido com um XB, pelo menos é o que dizem as unidades que já retornaram a Base.

Ao chegar à casa de Teófila, a unidade XB Petúnia estava me aguardando do lado de fora. Um aperto de mão e foi efetuada com sucesso a transferência do arquivo pessoal das conversas com Teófila para a minha memória. Ao mesmo tempo foi deletado totalmente do sistema de Petúnia que agora devia retornar a Base pela terceira vez.

Acompanhei Petúnia até sair do raio de minha visão apesar de ter sua localização pelo GPS. Na verdade estava pensando no momento em que chegará a minha vez de retornar a Base. Porém não havia lógica em me ocupar com isso, primeiro precisava conhecer Teófila.

Quando virei dei de cara com ela, seu olhar era desconcertante, tão diferente de Gálico que parecia sempre alheio a tudo. Aéreo, dizem que também sou meio assim, mas não concordo. Percebi que ela notou o quanto eu fiquei impressionado, mas logo me deu as costas pedindo que a seguisse porta adentro.

Quando a porta se fechou senti novamente o olhar penetrante de Teófila me examinando. – Eis você por aqui, o XB que me acompanhará na última fase de minha pesquisa. Seja bem-vindo… Ah! Que indelicadeza a minha, preciso dar um nome a você que me olha com um ar sonhador, deixe-me ver.

Em menos de um minuto ela exclamou: – Milton! Como o poeta, seja bem-vindo Milton, eu sou Teófila! Agradeci a sua acolhida e meu ilustre nome com uma reverência digna de um inglês diante de sua rainha.

Ela notou, riu e disse: – Ora Milton, deixe disso, sou apenas uma pesquisadora. Espere me conhecer de verdade e verá que prefiro me relacionar de igual para igual. E não pense que só porque recebeu informações de Petúnia você já me conhece, pelo contrário, sei disso porque ela recebeu um arquivo do XB anterior e não adiantou nada!

– Não foi de muita valia porque as conversas gravadas não traduzem o tom emocional e sem isso tudo fica muito impreciso. Não sei quando a Base irá acatar as minhas sugestões, pois um XB tem um identificador de emoções humanas. Era só regular este com a curva de transposição e integrar as informações no relatório final.

Fiquei apenas ouvindo, reparando nos seus gestos, na correção e firmeza de sua afirmação quando depois de uns quinze segundos de pausa voltou a falar num tom cheio de delicadeza. – Por outro lado prefiro assim, fica mais interessante nos descobrirmos aos poucos, pois como cada ser humano, todo XB tem uma personalidade diferente. O que você acha disso Milton?

– Você tem toda a razão Teófila, também adoro descobertas! Pronto, acabei de deletar o arquivo. Vamos deixar a não lógica nos guiar, pois ser a perfeição da incoerência dá um trabalho danado. Ela deu um belo sorriso – Perfeição da incoerência! Acho que vou me divertir muito com você Milton. Venha que vou mostrar o meu laboratório para você.

– Como você já deve saber eu estudo a visão humana, mais especificamente a perda da visão. O que você não sabe é que eu enviei um arquivo criptografado para ser inserido em seu sistema protogenético e em um ou dois dias sua capacidade de visão começará a declinar.

Fiquei quieto observando seus lindos olhos. E ela continuou a falar: – Milton você será a minha cobaia, a última desta pesquisa. Sua visão irá diminuindo até você ficar completamente cego.

Pensei na ingenuidade dela, pois tenho meu GPS e meus arquivo de fotos e vídeos. Já fui testado para pane de visão e quando tentei falar, Teófila, que parecia ler meus pensamentos se adiantou. – Milton seu GPS e seus arquivos irão se corromper acompanhando a perda de visão e você terá que se adaptar a essa nova realidade.

– Adaptar-me? Por favor Teófila, só não me chame de cobaia, assim você me ofende. Falei com um tom que denotava um pouco de mágoa. – Desculpe-me Milton, claro que não é uma cobaia, foi apenas força de expressão. Espero que você entenda a importância deste estudo.

– Gostaria de saber quem disse que nós máquinas não nos emocionamos senão artificialmente, como se fosse apenas programação. No meu caso, é óbvio que não quero ser humano e nem pós-humano, quero ser eu mesmo sendo igual a todos. – Milton, não esperava menos de você, meu XB poeta.

– Quando começamos? Perguntei. – A pesquisa começa depois de você começar a perder a visão… – Não Teófila, quando começamos a nos conhecer melhor? Ela sorriu novamente, eu fiquei absorto naquele sorriso e ela notou. – Milton, Milton, se você não fosse um XB eu diria que você tem uma queda por mim.

– Eu me levantei, olhei para o outro lado. Não tive coragem de ficar cara a cara, mas tentei disfarçar dizendo – Ora Teófila, quem em sã consciência não teria? Senti o seu olhar nas minhas costas pelos meus sensores de movimento.

– Porque me deram pernas quando eu queria asas? Ela riu. – Você certamente é um XB bem diferente Milton! Eu ia responder dizendo: – Você diz isso para todos XBs! Porém me abstive. Também ri e ela me acompanhou rindo novamente.

– Você me faz bem Milton, me faz recordar do Jorge, meu marido. Já havia esquecido como um homem pode fazer uma mulher rir falando coisas assim. Apesar do avanço da ciência, a química entre dois seres ainda permanece um mistério, pois só acontece quando se trava uma conexão, caso contrário torna-se apenas frases espirituosas e nada mais.

– O que acha disso Milton? – Minha memória não falha, Teófila, mas acho que ela peca em não se dar conta da doce emoção de recordar assim do nada, algo esquecido que nos faz relembrar momentos tão vívidos. Foi quando ela me abraçou ternamente e eu fiz o mesmo.

Depois do abraço eu ia falar, ela gentilmente tocou os meus lábios com o indicador, selando-o, entendi e fiquei calado. Com um aceno me convidou a segui-la, apontou o meu quarto, despediu-se com outro aceno. Fomos dormir.

Os dias seguiram, iniciou-se a pesquisa e minha visão foi gradualmente definhando. Sentava-me perto das plantas e aproveitava a luz do sol para sintetizar a minha energia. O pensamento que me acompanhava nestes dias era que absolutamente não me importava se minha unidade de visão iria se perder, preocupava-me apenas em perder a capacidade de fazê-la rir.

Teófila disse que logo ficarei cego, mas o momento exato era uma incógnita. Percebi a lenta perda das minhas referências de movimento pelo GPS, tropeçando nas coisas, estava mergulhando na escuridão. Agora vislumbrava apenas sombras e vultos.

Desde que a minha memória visual também começou a falhar, diversas vezes percebi luzes, outras vi nitidamente Teófila sorrindo e era inevitável, eu também sorrir. Uma tarde, ao final de seis meses, sentado perto das plantas me dei conta de que não enxergava mais nada, estava completamente cego.

Neste momento senti a mão de Teófila sobre a minha. Com a outra mão procurei seu rosto, dizendo a ela: – Sinto a suavidade de sua pele nas pontas de meus dedos com mais intensidade do que antes, mas sei que isso é normal, assim como fui adquirindo mais sensibilidade na audição, por falar nisso, vamos ouvir música?

– O que você quer ouvir, Milton? – Algo dançável, pode ser? Ela riu. – Você quis dizer dançante? – Quis dizer bailável. Ela riu novamente. E colocou uma valsa. – Valsa? Perguntei. – O que você queria? Um funk! Mais uma gostosa risada. E mandou ver um James Brow com I Feel Good. Não aguentei e dei uma gargalhada.

– Teófila, eu estava brincando, se você não quer que eu quebre a sua sala dançando James Brow é melhor voltarmos a valsa, porque com ela você pode me conduzir, disse isso dando um giro de corpo e balançando a bengala no ar. – Milton, vai com calma que eu entendi o recado. Por favor, fique aí parado, ok? Colocarei algo mais apropriado. Colocou Ray Charles, I Can’t Stop Loving You.

– Agora sim, algo seguro para os vasos e abajures! Falei simulando dançar suavemente com a bengala. Teófila tirou-a da minha mão e disse: – É a minha vez! Dançamos a noite toda, de rosto colado, Ray, rock baladas e no final, uma valsa com a sua exímia condução.

Achei que ela estava me levando para o meu quarto, mas seguiu em frente me guiando, vinte e dois passos à frente, cinco a direita, eu sabia exatamente onde estava, pois havia feito o mapa mental da casa. Parei diante da porta de seu quarto. Antes de entrar eu perguntei: – Teófila para onde vamos quando sonhamos? Ela sorriu, eu não sei como percebi isso, desta vez foi de uma maneira diferente, mas tive certeza quando ela falou no meu ouvido bem baixinho: – Não sei ao certo Milton, mas hoje, espero que você me leve ao paraíso perdido!

Anúncios