(Noia a la finestra [Salvador Dalí 1904- 1989])

Shhhhh! Uma voz dentro de Ana queria que ela lhe prestasse atenção enquanto cortava a rua da cidade. Shhh! Repetia, como se quisesse contar-lhe um segredo. Eu não consegui sentir mais os pés de Ana na calçada. Somente via que caminhava como segunda opção de vida. Enquanto isso, o vento passeava por entre os corpos deitados a poucos centímetros do asfalto e, entre os cristais da padaria, as pessoas sustentavam suas vidas de manhã. Algum cachorro contornava as pernas dos transeuntes procurando por seja lá o que for.

Aquele matiz rubro no canto da boca, o pouco de azul do céu, o capim tremendo que resistia às camadas de concreto, de maneira paulatina desapareciam. E apaguei as luzes do dia. Ana começou a aguçar os sentidos da audição. Preto e branco, quase cinza, até o sipário fechar a manhã.

Vou te contar um segredo diziam-lhe dentro em algum lugar.

Ana quase perdeu a parada do ônibus e de sobressalto acenou para o motorista deixar ela descer um pouco depois do ponto. Depois disso, avistou um homem que havia recusado uma possível tentativa de ajuda frustrada ao atravessar a rua. Ana sentiu que a ajuda foi mal formulada e que o homem e sua bengala estavam no meio de uma rua de carros enfurecidos. O movimento de avanço e recuo eram típicos duma manhã sem claridade.

Ela nem mais reparava nos carros ao aproximar-se dele. Vi que Ana não agarrou no seu braço, mas ouvi ele dizer-lhe “Moça, melhor se eu te pego pelo braço”. E assim fez os dedos em forma de arco modelar o braço direito dela, como se fosse uma bússola.

Só que era Ana quem estava perdida. Ela ficava olhando para uma janela fechada. E aquela sensação da cidade que antes lhe era alheia, deixava-a descrente. Tinha esquecido da força de acordar para ela e não para a vida que se definhava. Outras vozes se calavam. A minha ela não aceitava. Ficava vigiando no pé de sua cama e alguma vez passava a mão em suas águas. Ana alucinava e se arrastava pelos cantos da casa. Cansava-se à toa. Voltava a olhar para a janela de cortinas fechadas. Eu tentava devagar utilizar o silêncio. Sabia pouco dela.

No curso do zigue-zague, Ana notava como o homem tateava os ruídos da cidade. Ela que há alguns meses não queria escutar. E imaginava os desenhos dele ao tocar na madeira, no gesso, no contorno de sua bengala em algum canteiro, alguma pessoa com destino apressado, bichos, poças, seres distraídos. E como ele concebia os dias de chuvas. Se eram sempre de tempestade ou como as que ela sentia.

Depois de algumas frases ditas, o homem lembrou-se de sua esposa que se fora há seis anos.
Eu também me lembrava.

“Pela direita, moça”.
“Ela era do sul”.
“Mas não deu tempo para ir lá” disse o homem enquanto passava por uma criança de rua.
“Eu também sou do sul” disse Ana na condição de guia desajeitada.

Ana estremeceu. E, ao contrário, pensou depois naquela manhã estendida no tapete de casa de que nunca teve amor perdido para lembrar. Eu estava no canto do tapete sentada. E sabia que um sentimento vazio persistia. A janela tampada pela cortina obstruía alguma forma de amor de Ana. E durante aqueles meses para esquecer de si, ria alto, bebia whisky, tirava sua roupa e deixava a cortina fixando-a até cair num sono profundo.

Se ela tivesse fechados os olhos, voltaria a ver suas imagens passadas. Se voltasse a ler as cartas esquecidas em algum baú. Se perdoasse a gravidez interrompida. Se continuasse com a ópera. Se confiasse no futuro.
Se ela abrisse aquela janela.
Ahh! Se ela sentisse o clarão que vem dentro.

“Moça, moça!” disse ele.
Ana voltava para si mesma.
“Agora vamos subir umas escadas” dizia Ana em tom cuidadoso.

Ana e o homem passaram por alguns obstáculos e estreitavam os passos. Entraram num prédio. “Não é aqui, mas é pertinho” disse o segurança.
Ana e o seu acompanhante voltavam a descer as escadas numa forma de lua minguante e o som de madeira até chegar ao seu destino final. Antes de se despedir. Moveu-se na direção da voz de Ana. Levantou ligeiramente a cabeça. Enfim, olhou para mim. Me reconheceu junto a ela.
 
Shhhh! Vou te contar um segredo disse-me por dentro.

Enquanto Ana sentia ainda as marcas de suas mãos, seus gestos, o batuque da bengala lhe cantaria:

Só a luz do dia não basta,
se não há clarão que vem de dentro.

Aquela voz não se calaria. E finalmente, de volta para casa,  Ana abriria sua janela naquela manhã que inundava com suas cores.

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