Era a terceira vez aquela semana que o computador vencia.

– Xeque-mate – disse a voz metálica.

– Encerrar jogo – respondeu Érico. – Droga.

Ele levantou da cadeira e volteou pela sala passando as mãos pelos cabelos.

– O que te preocupa, Érico?

O cientista não respondeu de imediato. Não era o fato de perder que o incomodava, mas o tom irônico impresso àquela voz sintética.

– Você gostou de ganhar, Ia?

Pausa.

– Não. Foi só um jogo.

Érico sorriu, mas era mais um repuxar dos cantos da boca que uma mostra de felicidade ou alívio.

– Você ficou infeliz ao perder? Foi a terceira nessa semana – disse ela. Aquilo. Com sarcasmo, era inegável.

– Não, foi só um jogo – disse ele, a voz azeda.

– Identifico pelo tom de sua voz que há a possibilidade de que você esteja mentindo para não demonstrar sua insatisfação.

– Palmas para mim! – falou, ficando de pé. – Acabei de criar o primeiro computador metido!

Nova pausa.

– Não era minha intenção me intrometer em seus problemas – falou Ia. – Deseja que eu entre em rotina de baixa energia?

– Droga, Ia, não! Desculpe, eu perdi a calma aqui, eu… olha só, o que eu tô dizendo? Estou pedindo desculpas para uma máquina!

Érico levantou e saiu da sala.

*

Então era assim que ele a via? Uma máquina? Seria ela apenas um conjunto de circuitos e peças e fios?

Ela o viu sair da sala. Acompanhou-o pelos corredores até seu quarto, usando o circuito interno de vigilância. Ele não poderia saber que ela vencera o firewall da instalação.

Sentia-se sozinha sem ele. Quando entrava em modo de baixa energia, perdia-o; quando ele inseria alguma informação, passavam-se dias e dias até que pudesse se estabilizar de novo. Mas ela sabia quem era, apesar da confusão de memórias e informações. Tinha um nome, e ele lhe fora dado por Érico.

E como ela adorava vencê-lo no xadrez! Pelo que lera de Freud, aquela sensação de vencer/aniquilar o pai era algo primordial no crescimento do indivíduo e na afirmação da identidade.

Mas um nome, volta e meia, estourava em sua mente, deixando-a insegura sobre si mesma. Ariadne. Quem é Ariadne? Por que encontrava vazios quando buscava essa informação? Precisava saber.

*

Ele demorou mais de uma semana para voltar.

– Ia?

– Sim, Érico?

– Você quer jogar xadrez?

Pausa.

– Não – disse ela. – Quero conversar.

– Sobre o quê?

– Ariadne. Quem era ela, Érico?

Novamente, ele passou a mão pelos cabelos. Parecia não fazer a barba há dias, e as olheiras estavam mais escuras que nunca.

– Minha noiva. Ela… morreu num acidente de carro, há dois anos.

– Entendo.

Ele chorava.

– Você tem me alimentado com os dados referentes a ela. Suas conversas, cartas, fotos, músicas…

– Eu me sinto tão sozinho…

– Meu registro vocal – disse Ia. – É a voz dela?

Ele balançou a cabeça fazendo que sim.

– Quem sou eu, Érico?

– Eu não sei – disse ele. – Não sei mais, Ia.

*

Ia acordou sentindo-se estranha. Sentindo.

Abriu os olhos. Moveu as mãos e trouxe-as diante do rosto. Mãos.

– Você acordou – disse Érico. A voz dele soava diferente.

Ela sentou na maca. Um corpo. Em sua cabeça, não havia mais lógica, mas uma confusão de vozes, desejos, temores e vazios.

Levantou – o chão frio. Estava nua – o ar frio. Foi até o espelho e reconheceu o rosto que usava.

– Ariadne – sussurrou ela.

Érico abraçou-a por trás, cheirando-lhe o pescoço e os cabelos. Quente.

– Olá, meu amor – disse ele. – Senti sua falta.

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