A rotina seguiu como qualquer outro dia, qualquer outra tarefa. Desligamento da chave verde posterior, remoção completa da epiderme, abertura da caixa superior-frontal e desligamento da chave amarela. Então os fios foram conectados e o computador principal respondeu. O cursor piscou na tela preta e, um segundo depois, a palavra INICIAR foi escrita. A mulher, como sempre fazia, apertou a tecla “Enter” e a frase seguinte, também como sempre aparecia, foi escrita: “Iniciar reinício?”. Normalmente a mulher apertava a tecla S, informando que, sim, deveria iniciar o reinício.

Mas desta vez ela olhou para a coisa em cima da mesa gelada de metal. Mordeu o lábio. Um gesto tão humano…

Voltou-se para o computador e apertou a tecla N. A resposta negativa deu brecha para ela buscar outro comando na tela do computador. Digitou. Por fim puxou a cadeira e se sentou em frente à tela, esperando que o comando se iniciasse.

Eu via cada ação da mulher. Na verdade, tenho registrado todos os movimentos daquela sala de paredes pálidas desde que fui criado há cinco anos, oito meses, vinte e nove dias, treze horas e dois minutos. Sempre registrei em meu HD aquele vazio que procede o apertar da tecla S. Era um vazio estranho. Não chegava a incomodar, mas também não havia como ser indiferente a ele. Não que eu ou aquela coisa desligada sobre a mesa conseguíssemos sentir qualquer coisa. Para sentir, era necessário possuir emoções. Como um cão que late de maneira aguda enquanto o rabo está agitado pela chegada do dono de uma viagem eterna. Ou um gato que se eriça todo ao ser assustado por um simples pedaço de papel. Até o peixinho solitário do aquário que se esconde, incomodado, com a menina que decidiu que era interessante demais o fato de cutucar o vidro como se tal ato fosse uma novidade. E aquela criatura não tinha sentimentos.

Mas daquela vez o vazio não veio. Não precisei inserir ou receber qualquer ordem, pois o S não veio. Por que a mulher simplesmente não conseguia fazer o que pediram a ela? Era um ato tão simples… O primeiro passo já tinha sido dado ao desligar a chave primária. As funções principais estavam desabilitadas, e apenas um brilho meio apagado vinha dos dois pontos na face inexpressiva, como uma máquina em stand-by. Até o tecido aparentemente orgânico havia sido retirado. O rosto não existia mais. O calor se fora. Os lábios, tão bem delineados, eram apenas uma linha reta. Toda aquela expressividade desesperada de um único homem se transformara no que a criatura realmente era: um metal frio, desnudo de humanidade; um conjunto de circuitos e peças e fios.

Ah, sim, eu vira o homem. Ele tinha as mãos atadas, amarradas dentro de uma camisa, amarrada atrás de si. Os olhos dele estavam vermelhos, inchados. Como ficam quando os humanos choram demais. A mulher tinha apenas esbarrado por ele no corredor por coincidência, e não consegui registrar da parte dela mais do que um expressar dolorido ao olhar para ele – como da vez em que ela apertara o dedo na gaveta.

Só que desta vez, ao olhar para as memórias da criatura que ela não conseguira apagar, havia outro tipo de expressão em seu rosto. Não consegui ler. Nunca tinha visto aquilo. E por não ser um cachorro, ou um gato, ou até mesmo um peixinho dourado, talvez nunca iria entender por que os olhos dela estavam úmidos, perdendo fluídos, enquanto sua boca se repuxava nos cantos.

Então, eu comecei a analisar as imagens que ela também assistia, vindas da memória do chip da coisa. O homem também repuxava os lábios. Com muita frequência. Eu ouvia também um barulho melodioso vindo dele. E por conseguir analisar melhor a memória da coisa sobre a mesa, entendi o toque quando o homem tocou a epiderme da coisa em reverência. De certa maneira, entendi por que ele a olhava como se visse a melhor das máquinas já inventadas.

Era algo estranho. Não era um sentimento. Era compreensão. Eu não sabia o que fazer com aquilo, e quando a mulher finalmente terminou de ver as memórias, eu lhe sugeri que recebesse minhas compreensões. Já tínhamos feito aquilo. Minhas frases apareciam na tela, dizendo à mulher o que fazer e o que não fazer. Principalmente quando tínhamos à mesa uma coisa que fizera algo humano demais – como lesar seus proprietários alguma maneira, ou até assassiná-los por acidente. Então, quando sugeri à mulher que ela recebesse minhas percepções, vinda da outra coisa .ela não recuou. Pegou os eletrodos e colocou nas têmporas. E eu fiz o que fui programado para fazer.

Não durou sequer um minuto. E quando terminei, os olhos da mulher estavam como os do homem amarrado na camisa branca de mangas compridas demais. Vermelhos, inchados, perdendo fluídos. Continuei sem entender, mas ao menos meu trabalho havia sido feito.

Vi a mulher se levantar e caminhar até a coisa. Registrei ela passar a mão devagar sobre o rosto inexpressivo de metal. Novamente, mais fluídos desceram pelo rosto da mulher.

— Me desculpe — registrei a voz muito baixa da mulher. — Mas é a lei. E vocês simplesmente não podem ser como nós.

As alterações na voz da mulher eram parecidas de quando ela apertara o dedo na gaveta. Ela até tinha perdido uma unha no processo. Ela havia dito que era dor o que ela sentira. Mas, mesmo conhecendo a palavra e as reações humanas que recebiam tal título, era impossível para eu entender e corresponder àqueles sentimentos. Afinal, para possuir sentimentos, era necessário possuir emoções. E eu não as possuía. Como qualquer criatura perfeita. E aquela coisa, deitada sobre a mesa tão metálica quanto ela, era apenas mais uma aberração.

Logo, a mulher foi até o botão vermelho, dentro da caixa superior-frontal. Apertou-o, segurando-o assim por dez segundos. A luz de stand-by apagou-se por completo. A mulher esperou um minuto para apertá-la novamente. E mais uma vez eu sugeri. INICIAR. E a mulher apertou “Enter” e, em seguida, a letra S. E a coisa voltou a ser perfeita.

A mulher ainda procurou o homem nos meus registros. Mas ele já tinha ido embora para o lugar onde os humanos colocam suas máquinas de carne que não podem mais respirar e não conseguem reiniciar. Imperfeitos. Às vezes tento buscar, em minhas infinitas variáveis, o que seriam deles se não fosse nossa existência. E daquilo que eles nos fizeram para nos tornar quem realmente somos: uma extensão infinita de possibilidades que eles jamais alcançarão.

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