[“Vodu Haitiano” (out.2012/guache) – Ilustração do autor]

Saboreava mais uma. Era uma delícia. Não que estivesse um primor, um prato dos mais elaborados. Porém, estava com fome. E assim… mesmo os pratos mais humildes acabam parecendo um banquete mesmo.

Encarava os olhos daquele prato. Era uma moça simples. Não tinha tanto a fazer da vida. Tinha marido e um filho. Cuidava da casa e lavava roupas. Fazia faxina. Mas agora isso não importava mais. Ela não se lembraria de mais nada disso. Ficaria vazia.

Era preciso mudar a dieta, por isso resolvi experimentar a faxineira-lavadeira. Precisava cuidar das gorduras. Não era mais tão jovem ou atlético como antes. Já estava com suas dobrinhas. Uma barriguinha. Tinha que se cuidar. E certamente as memórias dessa moça seriam mais light que as do senhor que lhe serviu de alimento na semana anterior.

Ah, essas foram memórias realmente espetaculares. Esfuziantes. Cruzeiros. Festas de alto luxo. Iates. Prostitutas, aliás, acompanhantes de alto padrão. Muito dinheiro. Muita ambição. Altos cargos, muito dinheiro, muita comida. E planos de crescer cada vez mais. Memórias abastadas. Bem engorduradas. Era até bom fartar-se de mentes como essa de vez em quando. Dava uma euforia… Porém não poderia fazer isso sempre. Tinha que cuidar do colesterol.

Ah… Provavelmente os acionistas da empresa do homem devem ter ficado um pouco preocupados com a ausência dele. Bem, ausência mental, pois certamente o corpo continua ali onde sempre esteve. Depois de nossa promissora reunião de negócios. Certamente uma reunião inesquecível… Para ambos. Para mim, que tive um banquete de tirar o fôlego. Encher a pança. Para ele… porque terá sido a primeira lembrança de sua nova vida. No vazio. Ainda bem que ele estará bem acolhido por seus estimados funcionários.

 

*

Já fazia tempo que vivia naquela condição. Monstruosa, alguns poderiam dizer? Bobagem. Hipócritas. É apenas a lei da sobrevivência. Qualquer um, para sobreviver, faria isso também, se tivesse os meios. Aconteceu de ser eu a possuir esse dom. Seja como for… sacrifiquei demais logo de cara. O custo foi alto demais. Depois disso… Realmente, não sei o que mais poderia ter valor. Helen.

Meu amor mais profundo. Mais importante. Está certo que eu não a tinha valorizado tanto. Mas eu percebi, naquele momento, enquanto nos encarávamos, olhos nos olhos, tão profundos, e os dela cada vez mais vazios… o quanto eu era importante para ela. Pois suguei todas as suas lembranças. Todos os seus sentimentos. Infelizmente, no momento em que eu descobri o quanto ela realmente me amava… isso não era mais real, automaticamente. Pois suas memórias e consciência não eram mais dela, e sim minhas.

A primeira adição de personalidade. A primeira de centenas que se seguiram. Literalmente, ao menos, éramos apenas um. Duvido que algum casal tenha conseguido realizar tão bem essa expressão como eu fiz. A partir de então, eu e Helen éramos de fato apenas um. Um em meu corpo. O dela, daquele dia em diante, era somente uma carcaça. Um zumbi. Vazio. Sem alma. Aliás, será? Será que a tal “alma” vinha com as lembranças e sentimentos alheios? Ah, que importava isso.

 

*

Foram chegando os sintomas do acúmulo de personalidades. Frio, sem emoções, apesar de reunindo em si tantas emoções de tanta gente… Que contraditório. Afinal, como poderia consumir vidas alheias com compaixão? Mas precisava. Ainda mais depois de perder Helen… Se ele não teria mais o amor de sua vida, os outros também não poderiam ter. Ah, tolos. Todas suas conquistas, seriam todas dele. Todo o orgulho, o gostinho do sucesso, estaria com ele. Claro que também havia o amargo gosto da derrota, do fracasso…

Sim. Estava se tornando tão contraditório. Passou a aprender as dores de tanta gente. Parece que havia gente com dores muito maiores que as dele. Mas de que importava isso? Eram todas dores DELE agora mesmo. Sim. De modo que ele seria o mais dolorido humano do mundo. Humano? Será que seria de fato ainda um ser humano? Que humano é capaz de fazer o que ele estava fazendo?

Não, ele não era mais um humano. Era um super-humano. Além-homem. Um Übermensch. Homos superior. Tinha cada vez mais em si todas as alegrias do mundo. Só para si. Porém elas não vinham sozinhas. Vinham junto com todas as amarguras do mundo. Estava se realizando em seu impulso devorador e vingativo. Porém, quanto mais seguia em sua jornada… mais sentia compaixão, contraditoriamente. Cada vez mais sentia empatia pelos outros humanos. Aliás, pelos humanos. Não se esqueça. Você não é mais humano. Porém, como vencer esse impulso faminto? Era insaciável. Só que a dor o consumia. Ainda que consumisse as mentes, as almas alheias, sei lá, chamemos assim… para saciar sua fome… Parecia que cada vez mais elas o consumiam. Sim, elas o denunciavam. Elas apontavam o dedo. Gritavam em seus ouvidos. Argumentavam que sua dor não era nada comparada com a dos outros que havia consumido e sugado. Esvaziado. Tá! Tá, eu sei. Porém, como eu ia saber? Eu sei disso agora. Mas não tinha como saber antes de executar o consumo…

Passados mais alguns anos… ou décadas? Não sei. Era muito difícil discernir os dias e os tempos a essa altura, com a miríade de almas que circulavam e socavam sua consciência. Tão apertada. Tão aflita e comprimida. Será que realmente ainda havia alguma ali? O fato é que estava onisciente, praticamente. Ao menos em relação ao mundo humano. Sabia de tudo. Ao menos do mundo humano. Ao menos da psicologia humana que existia… antes de sua passagem pelo mundo.

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