Helen nasceu muito depois de sua memória. Tinha chuviscos e apagamentos distantes nas lembranças. Lembranças que guardou fora das gavetas, fora dos retratos, fora das fotos em família e amigos… Descrevia a si mesma passos que nunca socorreu de os ser. Tinha vergonha quando efetivamente lembrava. Quem daria ao seu sorriso a verdade última de já ter nascido? Helen se valia de alguns lembretes, de algumas bacias que guardava remédios, e outros papéis que não valiam lá muita coisa. Era dada aos esquecimentos. Diziam, sem saber ao certo, que era Alzheimer. Mas não era. Ela mesma sabia, quando podia se lembrar, que não era nada disso… Só tinha seu encaixe com a Existência, quanto mais esquecida estava, porque naquele momento percebia o lapso que tinha corrido, desde a consciência do último instante que se lembrava, até aquele instante que já não cabia em seu peito. Helen tinha uma falta de. Falta de quê? Falta… Só falta. Faltava em si mesma os momentos que mais lançaram sua Vida aos vôos. Nunca mais teria os vôos, e mesmo assim, quando lembrava que tinha esquecido algo, naquela breve fagulha de consciência, tinha uma Eternidade por cumprir. Quem saberia que Helen andava mais enlaçada com a Vida que seus pobres amigos lembrantes (e lembretes) de tudo? Não tinha como se afogar em mágoas, mesmo aquelas que são as lembranças inúteis dos momentos ditos “felizes”, porque que é lembrar o passado se não a perda da alegria presente? Isso ela pressentia com força. Helen era dada a “achismos”. Achava que o Brasil ia bem, apesar do que todos diziam. Achava que devia comprar um vaso novo para as orquídeas. Achava que ia ganhar alguma coisa nos sorteios de lojas de rua. Achava que deveria adotar um cachorro de rua. Acabava de achar que não achava nada mesmo… Achava sem achar. Ia porque nem sequer se lembrava de como ia. Foi quando percebeu, e olhou numa parede do quarto, uma roupa que desconheceu, e chamou tanto sua atenção que rompeu a rotina de desconhecer as coisas. O que era aquilo? Tinha uma renda interessante, e imaginou, ou melhor, achou que não era seu, e que deveria doar. Doía nela saber por vezes que não se lembrava de nada… Tinha um esquecimento forçado. Quem aceitaria sua falta de memória? Onde ia colocar aquele corpo quase inerte, quase desprovido de senso de si? Helen, lembrava vagamente que tinha sido isso depois de um amor. Diziam para ela que era assim, amor tem dessa força de destruir vidas mesmo… Não achava muita verdade nisso, mas sentia um frio na espinha de pensar que estava assustada de olhar para uma roupa vagamente familiar. Transitava entre as coisas sem nome, entre rios inteiros sem nome, entre suas próprias medalhas conquistadas após anos de queda abrupta. Não tinha mais como se desvencilhar do Deserto que habitava. Tinha sua própria descompostura de existir. Tanto quanto uma planta, ou uma pedra, era mais dada a estar sem saber ao certo o porquê. Isso a libertava! Helen sorria. Despia-se com a graciosidade de jamais ter visto seu corpo pela primeira vez. Ela olhava no espelho assustada: “Sou assim?”. Não lembrava. Não tinha por que lembrar! E isso não a adoecia de suas misérias, mas simplesmente lembrava que tinha algo tão maior que qualquer mortal, porque estava morta sem o saber (ou melhor, mais viva que todos!), sequer lembrava que um dia lhe falaram a palavra “Vida”. Era decomposta na arte de viver, mesmo tendo nenhuma consciência. E de leve, percebeu, que um dia, aquela renda enigmática da roupa, fora trançada no mesmo dia que amou infinitamente alguém que a fez sumir… Nisso, ela não poderia vencer, porque agora, tinha despido-se de si mesma por conta do amor… Tinha dado tão infinitamente seu amor, que agora era um vaso que achava querer comprar. Jamais lembrou, se não por um átimo, que o amor levou sua Vida embora, sem palavras, sem vergonhas, sem…

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