Em Cascavel, os recém-casados construíram uma família. Helen se tornara mãe. Tivera três amados filhos, mas o casamento não ia nada bem. Os anos se passavam, as obrigações batiam a porta: cuidar dos filhos, contas de água, luz, cartão de crédito, escola, plano de saúde – sem falar nos reparos necessários na casa, aqui e ali. Todos os dias novos obstáculos exigiam a atenção de Helen e Felipe, e os dois aos poucos foram se tornando estranhos que compartilhavam a mesma cama. Logo, o toque já não acontecia, e quando acontecia por acaso, como apanhar o controle remoto ao mesmo tempo, eles se repeliam instantaneamente, como duas energias iguais que se antagonizam. Não havia uma só troca de olhares que não fosse um acordo ou desacordo diante de uma responsabilidade. Para Helen, despir-se ou trocar de roupa no mesmo cômodo que seu marido era como ter sua intimidade violada. Nudez, que antes fora desatino de paixão, agora nada mais era que falta de respeito. Não tardou por sobrar espaço na cama e os dois dormirem em quartos separados.

Os filhos cresciam e logo se tornaram uma mulher e dois homens. Passaram no vestibular e desbravaram a cidade de Fortaleza em busca de seus diplomas. Helen e Felipe se viram ainda mais solitários no interior de Cascavel. Um ano após a saída dos filhos, Felipe chegou em casa envolto em um presságio de silêncio e, antes do jantar, pediu o divórcio. Helen disse que sim em um átimo de mágoa, e nem mesmo percebeu a lágrima que molhava o rosto de Felipe. Os dois se separaram, Felipe deixou a casa para aquela que tivera sido sua esposa e decidiu alugar um barraquinho de três vãos, nos fundos de uma mercearia.

*

Em uma manhã de sexta-feira, Carolina recebeu um telefonema de Mazé, antiga vizinha de seus pais. Mazé disse-lhe que a mãe, Helen, havia se sentido mal e fora levada ao hospital. Carolina avisou aos irmãos, mas como eles só poderiam ir no dia seguinte, viajou na mesma manhã para o interior. Encontrou a mãe no hospital, desorientada, discutindo com duas enfermeiras por não querer ficar deitada. A dificuldade em se expressar com clareza era tamanha que mais parecia uma criança revelando um capricho. Aproximou-se, chamando-a de mãe e acariciando-a com um beijo. Helen a empurrou de imediato, resmungando. Dizia que não gostava que desconhecidos lhe tocassem. Carolina procurou acalmá-la, explicando, mas a mãe aos poucos foi se revelando uma desconhecida, ao passo que Helen afirmava jamais ter tido filha. Mais tarde o médico veio e explicou o diagnóstico: Helen, aos 56 anos, apresentava a fase intermediária de demência por conta do Alzheimer. Enquanto a mãe dormia, Carolina ligou para os irmãos e, no mesmo telefonema, decidiram levar Helen para Fortaleza. Lá, colocaram-na em uma casa de apoio.

Carolina visitava a mãe todos os dias, apesar de Helen não se lembrar da filha. Os irmãos iam apenas nos finais de semana, passavam a tarde e se despediam. Naquele ano, em agosto, como de costume, Carolina e os irmãos viajaram para o interior para ver o pai. Encontraram-no trancado dentro da própria casa. Foi preciso chamar um ferreiro, o que levou o dia inteiro. Quando seu João abriu o portão e a porta, Felipe estava sentado em sua cama, a pele marrom estranhamente esticada sob os ossos agudos do rosto. Os irmãos procuraram animá-lo e levaram-no para tomar um banho. Conversando com os vizinhos, Carolina descobriu que ninguém via seu Felipe há mais de quatro dias. Preocupada, Carolina fez uma sopa de legumes e se pôs a observar o pai. Calmo, silencioso e apático, Felipe bebeu a sopa com dificuldade. A fome era evidente, mas ele esquecia de mastigar os legumes. Os irmãos pensaram se tratar de depressão, mas Carolina sentia no peito que o pai estava com a mesma doença que a mãe. Levaram-no então para Fortaleza. Lá, os médicos atestaram Alzheimer e Carolina o internou no mesmo asilo que a mãe estava.

*

Passados alguns meses, era tarde de sexta quando Carolina havia saído mais cedo do trabalho e decidira visitar os pais. Chegando lá, encontrou a mãe e o pai juntos no jardim, ambos sentados em cadeiras de balanço, próximos a um banco de pedra rústica. Aproximou-se com cuidado e apresentou-se como desconhecida, fazendo aquele mesmo procedimento de todos os dias de visita para não os deixar inquietos ou confusos. Enquanto conversava, procurando saber deles como estavam, a mãe a interrompeu, dizendo:

– Moça, você pode deixar a gente falando aqui. Esse homem tava contando uma história. – Helen não queria parecer grosseira, mas se fez entender que estava curiosa.

– Tava? – perguntou Felipe.

– Era – disse Helen. – Amor, acho. É, de amor.

– Você se lembra? – perguntou Carolina a mãe, surpresa.

– É, lembro. – Helen ponderou, os olhos distantes. – Conte, conte, homem.

– Você se lembra, seu Felipe? – perguntou Carolina.

– É a única coisa que lembro, menina. – disse Felipe, cheio de certeza.

– Pois, vou deixar vocês conversarem. – Estranhada, Carolina se afastou um pouco e foi se sentar no banco de pedra.

Dali, conseguia escutar a conversa dos pais e se pôs a observá-los.

– Era uma jovem muito bonita – iniciou Felipe. – Tinha os cabelos cacheados e grandes. A gente namorava na janela. Naquele tempo, a casa dos pais dela era de taipa e muito pequena. O pai dela dizia pra gente ficar na janela porque a rua ia pastorar nós. A gente se dava muito bem, como dois passarinho que gosta de cantar junto. Quando olhei pra ela, sabia que ia casar com ela.

– E casou? – perguntou Helen, interessada.

– Casei – respondeu Felipe, o tom melódico em lembranças. – Na antiga capela de Nossa Senhora do Ó. Lembro como se fosse hoje. Ela tava com o vestido que era da mãe dela. Tinha mandado colocar uma renda. Era a mulher mais bonita que eu já vi na minha vida. E quase não me aguentei enquanto ela andava até eu. Tem umas horas que não lembro do Padre porque quando eu olhava pra ela, de baixo daquele véu, eu me esquecia era de tudo.

– Eu também me casei na capela de Nossa Senhora do Ó – disse Helen, de repente, como se estivesse incumbida de uma nova ideia. – Foi o dia mais feliz da minha vida. Meu noivo era minha alma gêmea. A gente era tão unido que uma vez ou outra ele sabia o que eu tava pensando. Ele me ajudou muito quando minha mãe morreu. Era muito companheiro e cuidou de mim. Ele construiu a casa que a gente foi morar. Era um presente pra minha Helen, ele dizia.

– Eu também construí a casa da minha noiva, senhora – disse Felipe. – Ela perfumava a casa com café pela tarde e quando a noite chegava, era chá de cidreira. O cheiro parece que tá aqui debaixo do meu nariz. Ela tinha um vestido de fazenda que colocava e dizia pra gente ir dançar na cumade Luzia. Lá na cumade, tinha uma venda que tocava umas músicas bonitas e a gente se abraçava a noite toda. A gente era muito feliz.

– E o que aconteceu? – perguntou Helen, percebendo a tristeza latente na voz de Felipe.

– Sabe que eu não sei – revelou Felipe, sincero. – Um dia a gente se amava. No outro, a gente parecia dois estranhos.

– Aconteceu parecido comigo – confessou-lhe Helen. – Ainda me lembro como ontem porque meu peito ainda pesa de saudade que eu sentia do meu marido. De abraçar ele, de pegar na mão dele. De ele me dar um beijo, sabe. Um dia já não tinha mais isso entre a gente. E eu chorava algumas noites porque eu amava tanto e não sabia como isso tinha ido acontecer.

– É mesmo, dona? Pois vou te dizer uma coisa: eu sentia a mesma coisa. Umas vezes, eu dormia na sala, sabe. Eu ficava a noite toda acordado sentindo a falta dela e ela lá no quarto, dormindo. Doía tanto que eu quis me separar. Não conseguia mais ficar na mesma casa.

– Pois, o senhor sabe que eu também me separei. Tomei foi um susto quando meu marido disse que queria se separar e eu aceitei com raiva. Eu amava tanto ele e ele pedindo o divórcio.

Carolina se derramava, as lágrimas molhavam o rosto enquanto a garganta abafava o choro sentido. Nem mesmo sabia quanto tempo passara ali, naquele banco de pedra. Ruminando quão pouco sabia dos próprios pais. Imaginando quanto amor haviam guardado para si. Quanto amor havia sido silenciado por inatismo. E se deu conta da lição, talvez a mais valiosa que poderiam ensinar, amor não bastava ser sentimento, mas precisava também ser ação. Demonstrar, partilhar, vivenciar. Deixou-os e eles ainda conversavam, procurou o médico de plantão. E ao encontrá-lo, pediu encarecidamente um minuto de seu tempo. Relatou o fato para o médico, contando-lhe da desenvoltura dos pais, das palavras ditas, das lembranças e sugeriu uma regressão. O médico desacreditou da história de imediato e completou: “Não há regressão nesse tipo de doença, apenas progressão e piora”. Carolina se despediu do médico, certa de que procuraria uma segunda opinião. Ao deixar o prédio e entrar no jardim, viu a enfermeira acompanhar seus pais, que de braços dados e sorrisos gostosos no rosto, compartilhavam a companhia um do outro, após tantos anos de silêncio e desentendimentos. Pegou-se sorrindo sozinha, deixou-os e se foi.

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